Por Trás das Linhas Telefônicas
Texto: Leonardo Melo Arte das Imagens: André Caliman
Iron Town. Uma ilha da América do Sul, outrora colonizada por ingleses. Os habitantes da ilha vivem bem, mas como toda grande metrópole, os cidadãos se afundam no stress cotidiano e em seus problemas.
Vidas passam despercebidas diante de outras vidas. Esta é a história de uma dessas vidas. E de como ela mudou radicalmente.
Trata-se de Vicent Walker. Apenas mais um trabalhador de escritório, acomodado com seu laptop de última geração, sua casa confortável, sua vida de solteiro e suas roupas caras. A vida de Vicent pode ser definida por sua rotina. Ele afoga-se em seus afazeres diários como todas as outras pessoas do globo, sem ter tempo de pensar no que realmente fará com sua vida. Talvez, se ele fizesse essa indagação, não encontraria resposta.
Então, ele apenas vive. E o telefone toca. É quase hora do almoço.
- Alô. Vic Walker. Não, eu nem vi a hora passar. Estou saindo agora. O quê? Como não? Ah, então deixe aí que a gente vê depois do almoço. Sim, estou saindo. Está bem. Até.
Vicent desliga e quase que imediatamente, se levanta. Fecha o flip do laptop, pega o paletó e logo está no corredor, onde encontra um amigo.
- Ei, Vic!!!
- Fala, Jack. Como tá essa força?
- Tranqüilo, cara. Vamos almoçar?
- Vamos nessa. Lugar de sempre?
- Pode ser.
- Que fedor de perfume é esse? Vem de você?
- Você está é com inveja do meu charme. Tudo pelas mulheres, heh, heh! Experimenta! - Jack mostra a ele o frasco de perfume, o qual Vicent rapidamene percebe o odor repugnante.
- Credo! Que marca é essa?
- Ah, não enche. Já viu a nova estagiária, que coisa mais linda?
- Pior que não, fiquei na minha mesa a manhã... toda... - Jack mal abre a boca, e a própria surge no corredor, trajando roupa social, mas com uma saia "colada" e um decote provocante. Vicent vê ela passar e fica boquiaberto.

- Não falei?
- É... é... essa?
- É essa aí. Só que eu não gostei muito dela, depois que você acaba o sexo ela desmaia. E ronca que nem a turbina de um avião.
- Ah, quer dizer que você também já dormiu com ela?
Os dois logo começam com as piadas típicas, e riem sozinhos enquanto se dirigem ao elevador. Velhos amigos, sempre com o costume de tirar sarro um do outro, ou da vida alheia, como só os anos de amizade poderiam providenciar.
Andando pela calçada, os dois vão conversando e rindo, sem perceber o vulto que os observa de um prédio nas redondezas.
Este mesmo vulto está
olhando para computadores que registram o comportamento de um corpo humano. O vulto pega um telefone.
- Pode começar. Sim. Dispensável. Certo. Agora.
Vicent e Jack estavam a uma quadra do restaurante onde sempre almoçam, parados no sinaleiro para atravessar a rua. Ao lado deles, vários telefones públicos e, de repente, um deles toca. Como um arauto do apocalipse.
- Ei, olha só.
- Que foi?
- Jack, você já parou para se perguntar por que é que esses telefones públicos tocam?
- Atende, ué. Vai ver é pra você.
- Quem é o idiota que liga pra um telefone público?
- Atende e descobre.
- Eu, não.
-
Vai lá, ué. Se está tão curioso...
- Tá legal. Isso vai ser divertido...
Vicent dirigiu-se ao telefone pensando em qual piada poderia fazer. A do açouque já era manjada. A da funerária também, mas sempre engraçada.
- Alô? Funerária Sorriso, sua morte é nossa alegria! - Riu sem se aguentar, mas não obteve resposta. Insistiu. - Alô?
- Quem é? - Perguntou Jack, impaciente.
- Não tem ninguém aqui. Alô?
-Olá, Vicent.
Seu nome. Um estranho num telefone público qualquer. Ele atendera por acaso. E o estranho sabia seu nome. De todas as bizarrices que Vicent poderia imaginar, nenhuma parecida com essa lhe passara pela cabeça. De repente, não era mais engraçado. Seu sangue gelou, os cabelos de sua nuca se eriçaram.
- Q-quem é...?
- Senso de humor sempre é bom. Você vai precisar dele, Vicent. E vai me perdoar o clichê, mas o seu pior pesadelo...
- Espere aí, quem é? Como você sabe meu no...
De repente, Vicent via tudo em câmera lenta. A estranha voz no telefone, que de alguma forma parecia conhecê-lo melhor do que ele mesmo, falando de maneira calma e ao mesmo tempo, arrepiante. O sedan preto furando o sinal enquanto o vidro com insul film baixava eletronicamente. Uma granada cuspiada pela janela do veículo.
- ...acaba de começar.
- Meu Deus!!! Jack, sai já daí!!!!
Vicent não mediu seus atos naquele momento, apenas correu para tentar, de alguma forma que ele não saberia explicar, salvar o amigo. Não pensou. Apenas agiu por instinto. Mas a granada explodiu no ar, entre ele e o amigo, jogando-os em direções opostas.

Ele não entendera direito o que havia acontecido. Não pensava no absurdo da situação. Naquele momento, não pensava que alguém havia tentado lhe matar com uma granada por ter atendido o telefone. Será que era este mesmo o motivo.
Naquele momento, enquanto tentava se levantar, não procurava entender como havia sobrevivido. Talvez a granada estivesse mais próxima de Jack, afinal. Ele via a multidão gritando e perguntando se ele estava bem, via os lábios se mexendo, mas não ouvia nenhum som. Só um zumbido interminável, que não parava nunca. E o desespero em chegar logo a Jack e ver como ele estava. Talvez estivesse escapado por algum milagre, como ele.
Talvez.
- Jack!!!
Quase não reconhecera o amigo... ou o que restara dele. Estava todo chamuscado, sem um braço, sem as pernas, apenas com metade do outro braço. Morrera instantaneamente. Ao menos não havia sofrido, se é que isso seria de algum consolo. Sem despedida, sem últimas palavras. Apenas a morte, quente e inexplicável.
E enquanto gritava, Vicent abraçava o corpo do amigo, enquanto sua mente repetia a pergunta: "Por quê?"
***
- Tem certeza de que está bem? - O médico insistia em perguntar. Era seu trabalho, afinal.
- Não. Não estou... mas obrigado...
- Por que não fica para alguns exames?
Vicent não respondeu. Apenas caminhou na direção dos telefones, imaginando o que diria para a mãe de seu melhor amigo.
Ela estava varrendo a casa. De seu rádio, Louis Armstrong cantava “What a wonderful world”, cuja letra a senhora Harris acompanhava aos berros, até ser subitamente interrompida pelo inconveniente telefone.
- Alô. Sra. Harris? Oi, é o Vicent. Hã... não, na verdade não está nada bem. É o Jack. Ele...
A alegria da doce senhora, fã de jazz, logo foi embora. De repente, Armstrong parecia um idiota cantando na rádio, com seu otimismo exagerado. De repente, o telefone ficou muito pesado para segurar. De repente, não conseguia nem mesmo ficar em pé. Prostrou-se de joelhos e põe-se a chorar. Era só o que poderia fazer.
No hospital, Vicent não ouviu a Sra. Harris se despedir. Sabia que ela não o faria. O telefone ficou mudo e ele desligou. Voltou a caminhar, sem rumo, pensando no que faria a seguir. De repente lembrou que havia deixado um relatório importante por fazer, e que deveria chegar mais cedo no dia seguinte, para concluí-lo antes da reunião das dez. Isso lhe pareceu tão estúpido e a imortância daquilo, tão pequena.
Seu sangue gelou ao ouvir o telefone o qual acabara de colocar no gancho, tocar novamente. Parou abruptamente e percebeu que estava sozinho ali. O médico já havia voltado à sua sala, as meninas da recepção, por algum motivo, não estavam mais lá. No corredor, não havia enfermeiras, pacientes ou parentes de vítimas. Havia apenas ele e aquele sádico "trim" do telefone, insistindo, implorando para ser atendido.
Virou-se e tornou a andar, com passos mais rápidos. Queria sair dali o quanto antes.
***
O funeral foi rápido. À exceção da mãe, Jack não tinha muitos parentes. Apenas alguns amigos e colegas do escritório. O chefe sabia o quanto ele e Vicent eram ligados. Era notório o quanto ele estava abalado. Pediu para que Vicent tirasse uma semana de licença, ao que ele agradeceu, mas afirmou que estaria lá no escritório, pela manhã.
Vicent pensou em algo inteligente para dizer à Sra. Harris quando esta lhe perguntou que mundo era esse, que loucura havia levado seu filho.
Mas não lhe veio nada à mente.
***
Era noite quando um cansado Vicent Walker chegou em sua casa no subúrbio. Perguntas sem resposta bombardeavam sua mente por todo o caminho de volta.
“O que foi isso, afinal de contas? Como o homem no telefone sabia meu nome? Será que o verdadeiro alvo dele era Jack ou eu? Será que Jack aprontou alguma?”
Levantava teorias que logo eram descartadas. A verdade era que ele não fazia a menor idéia do que havia acontecido. Apenas tinha um instinto, algo lhe dizendo, lá no fundo, que ainda não havia acabado.
Parou na frente do portão depois de abri-lo. Não conseguia encontrar qual era a chave da porta.
E a casa explodiu.

Arremessado com a força da explosão, Vicent foi parar do outro lado da rua, onde ficou um instante deitado, olhando a casa em chamas, incrédulo. Simplesmente não podia acreditar. Recobrou-se do choque e correu para dentro do fogo, na esperança de salvar alguma coisa. Pegou uma mochila e enfiou algumas roupas, o dinheiro que conseguiu salvar e cartões do banco. Felizmente, deixara o laptop no escritório. Não precisava de mais nada naquele momento. Saiu correndo e logo parou no meio da rua, olhando para trás. Os vizinhos logo se juntaram a ele, indagando o que havia acontecido... coisa que ele não parava de se perguntar.
Ficou apenas olhando sua casa... seu lar, de tantos anos, ser consumido pelo fogo. Os bombeiros chegaram logo, mas pouco se pôde salvar. Vicent estava enrolado num cobertor, segurando uma xícara de café que alguém lhe dera, mas que ele não tomara nenhum gole. Seus olhos estavam distantes. Ele parecia estar em choque, quando um dos vizinhos se aproximou.
- Vic, hã... somos vizinhos há muito tempo e... se quiser ficar na minha casa, até arranjar um lugar...
- O-obrigado, Joe. Mas eu não quero incomodar você e sua família.
- Por que não descansa, Vic? Você teve um dia cheio...
- Obrigado, Martha... mas não quero mesmo incomodar.
- Mas não é incômodo nenhum, Vic. Você sabe disso.
- Não, Joe. Alguém está brincando com a minha vida...
Não concluiu o pensamento. Apenas deu a xícara para o amigo e deixou o cobertor cair no chão. Deu as costas a eles, aos bombeiros, aos curiosos e às ruínas de sua casa.
***
Era madrugada e Vicent ainda vagava pelas ruas. A raiva o impedia de ter sono. Queria encontrar quem quer que fosse que estivesse brincando com ele, e socar-lhe até não aguentar mais. Já havia contado tudo o que sabia para a polícia, de nada adiantava. Mesmo porque ele não sabia de nada. Enquanto imaginava o que fazer, um mendigo esbarrou nele.
- Ei!!!
- Desculpe, amigo...
- Olha por onde anda, bêbado desgraçado! - Vicent esbravejou. Queria pegar aquele bebum e descarregar toda sua raiva.- E não sou seu amigo!!!
Mas sabia que não poderia fazer isso. No entanto, seus berros acabaram chamando atenção. Foi quando percebeu que estava num bairro perigoso. Sentiu uma sensação, que não saberia dizer se era medo ou excitação, ao ver marginais se aproximando. Sim, outrora ele poderia chamar de medo. Mas quando sentiu a adrenalina ser esguichada em seu sangue, cerrou os punhos e percebeu a oportunidade de descarregar sua raiva.

- Ei, amigo. Algum problema? Será que a gente pode te ajudar? - Era um negro de cabelo rastafari, gorro jamaicano e óculos escuros. Vestia uma jaqueta de couro, que Vicent logo pensou ser roubada. Ele não respondeu.
- Ei, boneca! Meu amigo lhe fez uma pergunta! - O outro era um branco, careca, cheio de piercings no rosto.
- Não vão conseguir me tirar mais do que já perdi hoje.
- É mesmo, boneca? Isso nós vamos ver. Vai passando a grana, mermão!
- E anda logo! - Acrescentou o jamaicano, mostrando um canivete. Vicent já estava com os nervos à flor da pele. Bastava um movimento para que ele explodisse de vez.
- O cara é surdo! Fura ele logo, mermão!!! - O careca gritou e o jamaicano foi na onda:
- Não ouviu, cara??? Passa logo a porra do dinheiro!!!!
- Eu não tenho dinheiro... - Vicent respondeu, os dentes cerrados. Esperando o ataque. Que não demorou a vir:
- Você que pediu, burguês!!!
- Argh!!! - Vicent sentiu a lâmina raspar seu estômago, ao que ele rapidamente reagiu, dando um murro na cara do marginal, por instinto. Vicent usou toda sua força no golpe, que atingiu em cheio o queixo do marginal, quebrando-lhe o pescoço.
Ambos vêem o corpo cair sem vida. Ambos ficam surpresos. Ambos vêem o canivete saltar da mão do morto.
“M-Meu Deus! E-eu matei aquele homem... e agora, o parceiro dele vai me matar!!!”
- Cê matou meu mano!!! Filho da puta!!!
Os dois saltam ao mesmo tempo para pegar o canivete. Rolam pelo chão, trocam murros, Vicent afunda o rosto numa poça d'água imunda, mas resiste à ânsia e continua brigando pela posse da arma. Até que finalmente consegue afundá-la no peito do marginal, que arregala os olhos de surpresa. Vicent joga o corpo dele para o lado e se levanta, tremendo. Olha para as próprias mãos, sujas de sangue, e não acredita. Simplesmente não acredita na virada que sua vida deu. Agora, ele era um assassino. Um assassino!!!
Pôs-se a correr imediatamente, até achar um chafariz, no qual pôde lavar as mãos. Ainda estava tremendo e olhou ao seu redor. Havia um bar nas redondezas, cheio de gente, bebendo, gritando, rindo e cantando. Olhou para trás e viu vultos de pessoas que pareciam segui-lo.
Olhou para o bar novamente, parecia haver um homem lhe encarando. O homem estava com a mão próxima da boca. Talvez estivesse falando por um microfone escondido.
Talvez todos eles já soubessem que ele era um assassino. Estavam apenas esperando a polícia chegar para assistir sua prisão, de camarote.
Não, não permitira isso. As mãos estavam limpas. Fechou o casaco para esconder o sangue que manxava a camisa. Voltou a andar, a passos rápidos. Dobrou a esquina, certo de que havia olhos o seguindo em todas as direções.
Na outra esquina, havia uma prostituta encostada. A bolsa dela parecia estar apontada em sua direção. Seria uma microcamera? Estariam seguindo todos os seus passos?
- Um programinha, amor?
A prostituta ri. Parece rir dele, parece rir de seus passos cambaleantes e incertos, parece rir de sua confusão. Parece se divertir com aquela situação, de forma sádica e cruel.
Acelerou o passo. Passou por um homem que falava ao telefone, assustado. Estaria ele lhe dando seu paradeiro à polícia? Ou ao homem que destruíra sua vida? O que ele deveria fazer? O que ele poderia fazer?
Parou, ofegante. Não percebeu que estava perto de um telefone público. Tentava apenas controlar sua respiração. Suava frio, estava cansado, sem rumo. O telefone tocou.
Horrorizado, Vicent segurou a respiração. Novamente, não acrediatava. Como aquilo era possível? Estaria ele paranóico ou havia mesmo alguém lhe seguindo?
Olhou para a rua da qual acabara de vir. Vazia. O telefone continuava a tocar. Como? Como? Como?
Decidiu descobrir.
- Alô?
- Viceeeeeent. Viceeeeeeent. Meus parabéns, Vicent. Você demonstrou muito potencial!
- Mas quem diabos é você?
- Eu posso ser um amigo, Vicent. Ou seu pior inimigo. Isso é você quem decidirá, no momento certo.
- Por que está fazendo isso? Como sabe onde estou? O que foi que eu te fiz?
- Ah, perguntas, perguntas... a questão não é o que você fez, amigo. É o que poderá fazer.
- O que você quer? O que você quer de mim??? - Vicent já não contém as lágrimas. Lágrimas de raiva.- Hein? Responda, desgraçado!!! Onde você está?
- Estou em toda parte, Vicent. Eu sou a ilha e a ilha me pertence. E você é meu agora.
Irado, e percebendo que não obterá resposta alguma, Vicent bate o telefone na cara do estranho. Derrotado, ele apenas chora, as forças esgotadas. Cansado, ele encosta a testa no mesmo telefone, fecha os olhos e reza.
- Meu Deus... me ajude, por favor... o que está acontecendo, Senhor? Me ajude, por favor. Me...
O telefone toca novamente. Vic se assusta e anda para trás. Novamente, olha a seu redor e não vê ninguém. O telefone continua a tocar, Vicent corre. Mas a rua repleta de telefones públicos a cada esquina. Por onde ele passa, os telefones tocam. Vicent corre ainda mais, grita de raiva e desespero ao mesmo tempo.

Começa a cair uma fina garoa, ao mesmo tempo em que Vicent chega numa estação de metrô. Desesperado, ele desce as escadas, sentindo alívio ao ouvir o som do telefone ser deixado para trás. Compra rapidamente uma passagem e pega o primeiro trem que chega na estação.
Sentado sozinho no vagão, Vicent se pergunta para onde ir. Cansado, fecha os olhos a cada segundo que passa. Ele resiste, tenta acordar... mas acaba se entregando a um merecido sono.
***
Vicent acordou apenas pela manhã. Assustou-se ao abrir os olhos e perceber que ainda estava no trem. Por um momento, pensou que tudo poderia não ter passado de um sonho louco. Um pensamento reconfortante que logo foi embora e deu lugar ao temor de outrora, quando viu que ainda estava sozinho.
Aquilo era muito estranho. O trem estava parado na garagem. Ninguém se dera ao trabalho de acordá-lo. Será que não o viram ou simplesmente o ignoraram? A porta do vagão estava fechada. Teria de ir até a cabine do maquinista para tentar abri-la.
Andou vagarosamente pelos vagões, limpando os olhos e desejando desesperadamente um gole de café. Sentindo-se culpado por ter se entregado ao sono. Finalmente, aproximou-se da porta da cabine, mas não tardou a perceber que havia uma mancha de sangue no chão, abaixo da porta. Acautelou-se, mas continou na direção da porta. Abriu-a, e instintivamente levou a mão à boca para segurar o vômito, ao mesmo tempo em que o telefone da cabine começou a tocar.

Vislumbrou os corpos ensanguentados dos maquinistas mortos. Mortos por sua causa. De alguma forma, ele sabia. Tremia enquanto olhava para eles e para o telefone tocando. Mas precisava atender. Precisava acabar com aquele pesadelo. Segurou a mão na boca e no nariz, pisando cautelosamente entre os corpos, como se temesse que eles fossem agarrá-lo e levá-lo ao inferno junto com eles.
Atendeu.
- Bom dia, Vicent. O que deseja para o café? Hoje, no menu, temos... presunto!
- Pare com isso, desgraçado!!! O que você está fazendo? O que está fazendo com a minha vida???
- Aguarde, por favor, que o serviço de quarto já irá servir! Hah, hah, hah, hah...
Largou o telefone e saiu correndo, mas a risada... aquela gargalhada maquiavélica... parecia não cessar nunca.
Subitamente, entretanto, ele percebeu algo que deixara passar. O telefone na cabine era para o maquinista se comunicar com a Estação George Williams, de onde controlavam todo o tráfego do metrô na ilha. Só havia um jeito de ligar para aquele telefone, e era da própria Estação.
Ela não ficava muito longe da garagem. Vicent correu com todas as suas forças, atravessando as poucas quadras que o separavam de seu pretenso assassino. O homem que estava brincando com sua vida, sem nenhuma razão plausível.
Chegou no balcão de informações.
- Moça, me informa, pelo amor de Deus... de onde é que se comunicam com os trens em movimento?
- É ali daquela sala, por q... ei!!!- A recepcionista apontou na direção e se arrependeu em seguida.- Você não pode entrar aí!!!
Atravessou a porta, mas esta estava vazia. Havia apenas uma pixação na parede:
MUITO BEM, VICENT. O JOGO ESTÁ FICANDO INTERESSANTE...
- Não, desgraçado!!! Isso não é um jogo!!! É a minha vida!!! A minha vida!!! - Protestou, enquanto a moça a seu lado observava tudo em silêncio, apavorada, sem saber o que fazer, e viu Vicent sair de lá bufando, a passos apressados.
- E-ei, espere aí! O que está acontecendo? Ei, moço! Eu vou chamar a polícia! Moço!!!
Não deu ouvidos. Sabia que a polícia não poderia fazer nada. E ainda, acabariam lhe acusando de assassinato. Seguiu sozinho, esperando qual seria o próximo passo de um maníaco.
***
Vicent comeu algo numa lanchonete imunda, rezando para não pegar nenhuma doença. Depois caminhou calmamente até o campus da Universidade de Iron Town, onde poderia sentar e pensar em alguma coisa. Esqueceu o pingado requentado e o pastel gorduroso que reviravam seu estômago e começou a pensar no que havia acontecido até então.
Como o desgraçado sabia aonde ele estava o tempo todo? Poderia estar sendo seguido, mas em muitos momentos, ele estava sozinho. Isso só deixava margem a uma explicação: ele havia sido grampeado. Parecia coisa de filme, mas era a única explicação.
Deixou a mochila de lado e começou a tirar a roupa, vasculhando cada detalhe. Os alunos passavam e imaginavam que tipo de loucura havia se abatido sobre aquele mendigo bêbado que estava só de cueca em pleno campus. Vicent ignorou os detalhes, lembrando-se do mendigo que esbarrou nele.
"É claro", pensou, enquanto retomou a jaqueta que vestia.
Estava ali, quase imperceptível. E o fato de seu inimigo dispor de tais recursos apenas o assustava ainda mais. Ele não poderia vencê-lo sozinho desta forma. E embora relutasse em fazer o que estava pensando desde que aquilo tudo começara, agora era a única coisa que lhe restara.
***
Vicent aguardava o ônibus, impaciente. Se bem lembrava o nome da linha e o horário, ele já deveria estar chegando. Ficou ansioso ao finalmente vê-lo dobrar a esquina e ir desacelerando. O ônibus parou no ponto e abriu a porta. O motorista logo o reconheceu.
- Ora, ora, ora, ora... vejam só quem está aqui.
- Oi, Leo. Preciso da sua ajuda.
- E o que meu querido irmão quer tanto que teve que superar seu orgulho e vir falar com o “ovelha negra” da família?
- Não começa, Leo. Isso é sério.
- Humpf. Entra aí, está acabando meu turno mesmo...
- Será que tem almoço na casa do meu querido irmão?
- Ih... já vi que tá feia a coisa...
Vicent e Leo não se falavam há anos, quanto menos almoçavam juntos. Leo era um engenheiro brilhante, mas os infortúnios do destino o fizeram desistir de sua carreira. Vicent não aceitava isso. Mas essa já era uma história para outra ocasião.
***
Leo é baixo, cabelos castanhos, usa óculos retangulares e cavanhaque. Um típico nerd que trabalha como motorista apenas para sustentar a si mesmo e seus vícios. Conversavam enquanto almoçavam.
- Leo, eu sei que, depois que perdeu o emprego na Wooklendwood, não quis mais saber de eletrônica, mas eu preciso muito que me ajude... - Vicent mostrou o rastreador. - ...com isso.
- Ora, ora... o que é isso,Vicent?
- É um rastreador. Plantaram isso em mim e minha vida virou um inferno. Nem é seguro eu ter trazido até você.
- Peraí, vai com calma... me explica a história. –Leo pega o rastreador e se levanta, esquecendo completamente da comida. Enquanto fala, vai até um quarto cheio de tralhas e abre uma gaveta.
- Depois. Eu só achei que, como você entende disso, talvez pudesse me ajudar a localizar a origem do sinal e, com sorte, pegar o filho da mãe que está me seguindo.
- Hm... sei... o que foi que você fez, hein,Vic?
- É o que eu gostaria de saber.
- Bom, o primeiro passo é inutilizar o sinal que o cara tem. Assim, ele não pode nos localizar. - Ele volta para a cozinha segurando uma caixa estranha em uma das mãos, e o rastreador em outra.
- O que é isto?
- Se acalme, querido irmão. Não confia em mim?
Leo se senta novamente e coloca o rastreador dentro da caixa, enquanto explica para o irmão que aquilo deve neutralizar o sinal, a menos que aquela velharia não esteja mais funcionando. Vicent reza.
***
Em algum outro lugar da ilha, alguém vislumbrava o mapa da cidade através de vários monitores.
- Perdemos o sinal.
- Ele deve ter encontrado o rastreador.
- Pois então, encontre ele!
- Sim, senhor... – Um homem grande e negro dirige-se para a saída da sala.
- E, Jerry...
- Senhor?
- Desta vez, chega de testes. Desta vez, ele deve morrer.
- Com prazer, senhor...
***
- Brilhante, Leo. Você nunca deveria ter largado a eletrônica, sabia? Ia ficar rico!
- Vamos começar essa discussão de novo, irmão? –Leo trabalha na construção de um aparelho que lembra um minigame antigo, enquanto Vicent assiste.
- Tá bom, tá bom... mas eu nunca vou entender por quê você decidiu trocar um bom emprego para ser motorista de ônibus. Sem querer desmerecer a profissão...
- Não fui eu quem decidiu isso, Vic. Já falei zilhares de vezes que não agüentaria ficar em Wooklkendwood sabendo o que aqueles canalhas fazem.
- Eu sei, mas não precisava pedir a conta!
- Claro que precisava. Eu só não contava que eles tivessem uma influência tão grande a ponto conseguirem fazer com que eu não conseguisse nenhum emprego de novo.
- Você é mesmo ingênuo, irmãozinho...
- Está pronto. - Leo logo anunciou, mais para mudar o rumo da conversa e evitar outra discussão, do que para avisar que o aparelho estava funcionando.
- Já?
- Ele já estava pronto, só fiz algumas modificações para rastrear o que você quer. O único problema é que, quando você ativar esse aparelho, vai ativar o rastreador. Logo, você pode localizar ele, mas ele pode localizar você.
- Eu vou tomar cuidado. Obrigado, Leo.
- Vai ficar pro café?
- Não, preciso resolver isso. Eu volto... pra explicar tudo.
- É, acho bom. Ah, eu quero o aparelho de volta.
- Sem grilo. Valeu, mano.
Vicent deixou a mochila na casa do irmão e saiu determinado. Sentia-se animado agora que podia contra-atacar. Seu inimigo, quem quer que fosse, não perdia por esperar.
***
Já era final de tarde no centro de Iron Town e Vicent ainda andava de um lado para outro, concentrando-se no sinal emitido pelo aparelho. Estava perto, sabia disso, mas era aí que o sinal ficava confuso. Chegou a pensar em ligar de volta ao irmão e perguntar se aquilo estava funcionando direito.
Do alto de um prédio nas redondezas, estava Jerry, o capanga negro, segurando um rifle e preparando-se para atirar.
- Lá está o filho da mãe...
Sorriu enquanto Vicent parou, lhe dando as costas. Ele estava na mira. Bastava um tiro e tudo estaria acabado. Jerry deliciou-se com o momento. Vicent estava confuso, não sabia para que lado ir enquanto olhava o apareho criado pelo irmão. Um cordeiro sem a menor consciência de que estava na fila para o abate.
Foi no mesmo momento em que começou a andar que Jerry puxou o gatilho.
- Argh!!! – Gritou com o tiro que atingiu-lhe o ombro, e logo correu para trás de um prédio para proteger-se.
- Merda! - Jerry praguejou enquanto os transeuntes gritavam e começaram a correr em desespero. Por suas vidas. Vidas medíocres, mas das quais não queriam abrir mão.
Jerry tornou a atirar, agora à esmo, já que não enxergava mais seu alvo, que dobrara a esquina. Ele acertava a beirada do prédio e inocentes, mas não se importava. Mal sabia ele que um dos tiros atravessou o canto do prédio e atingiu a perna de Vicent!
- Argh!!! Desgraçado filho da mãe!!!
Mancando, Vicent põs-se a correr na direção de um prédio em construção.
Enquanto corria, Vicent pensava que isso era exatamente o oposto do que ele queria fazer. Desta vez, ele deveria ter sido o caçador, não o caçado. Mas talvez ainda houvesse meios de virar o jogo. Enquanto subia as escadas acimentadas e passava por paredes de tijolos, imaginou que, já que ele ainda estava com o rastreador, o atirador iria continuar lhe perseguindo até que estivesse morto.
E o tempo que ele levaria para descer do prédio talvez fosse o necessário para preparar-lhe uma emboscada.
- O desgraçado está se movendo. –Jerry acompanhava pelo aparelho os movimentos em espiral feitos por Vicent no mesmo ponto.- Um prédio. Ele está subindo um prédio. Pelas escadas.
Jerry rapidamente desceu de onde estava, jogou o rifle no carro que havia deixado num beco e continuou a perseguição. Logo estava correndo na direção do prédio aonde Vicent se escondia.
- Unfh... o calhorda... acertou outras pessoas... por quê? Por que tudo isso pra me pegar? - Vicent falava sozinho enquanto procurava uma arma que pudesse usar.
- Péssimo lugar pra se esconder, idiota. Agora eu te pego... – Seguindo a pista, Jerry subia as escadas do prédio em construção. Pegou a 38 automática de dentro do casaco.
Subiu freneticamente, olhando o aparelho a cada andar que passava. "Mais três", pensava. "Mais dois". "Mais um". Finalmente, chegou no andar onde Vicent estava. Pisou no último degrau com cautela, querendo não fazer barulho. Movia a cabeça devagar, contemplando apenas sacos de cimento e outros apetrechos de construção. Ainda pôde ver a ripa que Vicent segurava antes dela atingir-lhe em cheio a cabeça.
Jerry voou para trás, largando o aparelho e a arma. Caiu no intervalo das escadas, o nariz sangrando. Logo, Vicent estava sobre ele, prestes a dar outro golpe com a pesada ripa de madeira.
- Agora, desgraçado... você vai me dizer por que é que estava brincando com a minha vida... ou prefere levar mais umas ripadas na cara?
- Não fui eu, idiota... eu fui só contratado pra matar você.
- É? E por quem?
- Acha mesmo que eu vou contar?
- Acho. –Vic dá mais uma ripada. Jerry não tem como se defender... e desmaia.
***
Jerry acordou com uma lata de tinta azul sendo jogada na sua cara. Ele estava sentado, amarrado de costas para uma viga de metal.
- Blarrrgh!!!
- Bom dia! Desculpe pela lata de tinta, é que não encontrei água nesse andar. - Vicent deixou a lata no chão e tornou a pegar a ripa com a qual golpeara Jerry antes. Sua ponta estava quebrada.
- Filho da puta. Você não sabe com quem está lidando.
- É? Então me conta. Quem é? Onde ele está?
- Nem fudendo.
Vicent dá uma ripada na viga onde está preso Jerry, acima de sua cabeça, quebrando a ponta da ripa novamente. Instintivamente, Jerry abaixa a cabeça e fecha os olhos. O barulho ecoa por todo o andar, fazendo o assassino tremer.
- Como é seu nome, filho?
- Jerry...
- Jerry de quê?
- Jerry Kincaid.- Relutou em responder, mas a essa altura, já não importava.
- Muito bem, Jerry. Há uma centena de ripas como esta lá atrás. O expediente dos pedreiros já acabou. Podemos ficar nisso até amanhã de manhã. Que acha?
O homem negro olhou para cima, o nariz ainda sangrava, o rosto pintado de azul. Estava ridículo naquela posição. Não parecia mais um mercenário ameaçador. Não falou nada.
- É? Bom, já que você quer assim... - Vicent notou que havia um prego na ripa que segurava. "Ripou" a perna de Jerry, enterrando o prego nela.
- Aaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrghhhhhhhhh!!!!
- Agora você vai morrer de tétano, Jerry!!!! ONDE ELE ESTÁ???
- No Squale Park, porra! Vai pro Squale Park!!!
Vicent tirou a ripa da perna dele, arrancando um naco de carne e fazendo Jerry urrar de dor uma vez mais.
- Ah, já temos um progresso. Aonde no Squale Park?
- Ungh.... uhrrrr... filho da mãe... eu vou te matar...
- Aonde no Squale Park, Jerry?
- Um prédio novo, sala 2719. Não tem como errar.
Vicent jogou a ripa no chão. Olhou uma última vez para o marginal antes de se voltar para as escadas.
- Obrigado.
- Ei, vai me deixar aqui assim?
- Eu volto com a polícia... depois que terminar com o seu chefe.
- Desgraçado... você não vai sair vivo de lá, seu puto.
Não deu atenção ao que ele dissera. Deixou o aparelho do irmão lá. Já não precisava mais dele. E, mancando, desceu as escadas. Estava perto do fim, agora.
***
Já era noite quando Vicent chegou no Squale Park. Um bairro nobre de Iron Town. Encontrara facilmente o prédio indicado por Jerry. Ao pisar no saguão, sabia que estava sendo obseravado por seu inimigo. E de alguma forma, sabia que ele não se imporatava. Acreditou que ele queria esse encontro tanto quanto o próprio Vincent.
Talvez devido ao fato de não haver ninguém na recepção. Tomou o elevador e logo estava no 27º andar. Saiu a passos vagarosos. Tremia de emoção enquanto andava pelo corredor. Adrenalina. Não estava acostumado a isso em sua vida, mas ela fez parte das últimas horas em que viveu essa sádica aventura. Chegara a hora de finalmente descobrir a razão.
Parou em frente à porta do 2719. Lembrou-se de Jack. De sua casa. De tudo pelo que passara. A raiva cresceu e ele não hesitou: deu um coice na porta, arrombando-a.
O interior estava escuro. Deu dois passos à frente e ouviu a voz. Aquela mesma temerosa voz que lhe aterrorizou pelo telefone.
- Enfim...
Ao fundo, logo se formou a silhueta de um homem de estatura média, sentado atrás de uma mesa muito bem organizada. Pôde ver ele sorrir, enquanto unia os dedos na frente do corpo, com os cotovelos apoiados sobre a mesa. Ele tem cabelos raspados, usa óculos com lentes redondas e espelhadas, que escondem seus olhos. E veste um terno branco.
- É.. enfim... –Vicent torna a andar na direção dele, com os punhos cerrados. Mal abre a boca para falar, também com os lábios contraídos e engolindo em seco.
- Nada sutil, Sr. Walker. Vejo que passou no último teste. Jerry é um imbecil, mas serviu a seu propósito. Sabe, eu estava planejando alvejar você pelas costas quando chegasse aqui, mas achei que apreciaria melhor um diálogo.
- Eu vou matar você.
- Oh, hehehe... não me sinto ameaçado, Sr. Walker.
- Pois considere-se. Você já sabe qual é a pergunta. Estou esperando.
- Hm-hm... bem, Vicent... eu sou o Dr. Jonas Harvard. Tenho passado a maior parte de minha vida estudando. Direito, Psicologia, Ciências Políticas, Genética... tudo. E tudo com um propósito. Hoje, eu sou... Iron Town. A Ilha-Estado pertence a mim.
Harvard aperta um botão num controle remoto, as luzes se acendem. Atrás dele, painéis se iluminam, mostrando câmeras escondidas em toda a ilha, relatórios políticos, análises do comportamento de um corpo humano e uma infinidade de outras coisas. Vicent retrai-se, abismado. Ainda com raiva, mas boquiaberto.
- ...
- O corpo da cidade são as pessoas. O coração é o Governo. E eu... eu sou o cérebro!!! Eu sei tudo que se passa na cidade, eu sei quem está nascendo agora e sei o corpo de quem será enterrado amanhã. Como? Olhe à sua volta, Vicent. Eu tenho a maior rede de informações da ilha toda. Talvez do mundo todo!
Harvard digita coisas num teclado enquanto continua:
- Quer a biografia de alguém? Do Presidente? Dos Ministros? Do Chefe de Polícia?
- Meu Deus...
- Quer a relação dos números de telefones públicos?
- Desgraçado filho da mãe... foi assim que me encontrou... como? Como pode?
- Eu tenho uma rede espalhada pela ilha toda. Agentes, aparelhos rastreadores, microfones, escutas, câmeras... tudo. Eu vigio tudo, eu sei de tudo, dia e noite, noite e dia, sem parar. Sei dos segredos mais imundos da escória da cidade até dos casos de corrupção no Governo. Eu sei de todos os 2 milhões de vidas que estão lá embaixo.
- Então, eu não estava paranóico. Você gastou uma fortuna... e o maior tempo do mundo investindo nisso... por quê?
- Não é óbvio, Vicent? Para me tornar o maior criminoso da cidade.
- Você é doente. Com sua formação, poderia ganhar muito dinheiro em Wooklendwood ou qualquer outro lugar.
- Heh, heh, heh... você não faz ideia, Vicent. Eu tenho meus motivos para ser um renegado. Mas isso não vem ao caso. O que deve estar se perguntando é... "o que eu tenho a ver com tudo isso?". Não é mesmo?
- Responda.
- Bem, Vicent, o que eu vou te contar pode parecer irônico, mas eu também não acreditei. Como eu disse, eu sei de todas as vidas de Iron Town. E quando a sua vida passou por mim, bem... fiquei inclinado a recrutá-lo para minha organização. Mas antes, seria necessário um teste.
- O quê? POR QUÊ?
- Ainda não sabe? Ainda não descobriu?
- Fale que de uma vez, PORRA!!!
Irado, cansado daquele jeito e do ar arrogante de Harvard, Vicent bate com os punhos na mesa, exigindo uma resposta decente. Harvard apenas sorri, calmo.
- Claro, Vicent. É só tirar os punhos de cima da mesa que você vai entender.
- Mas... o que... – Ele se afasta e vê que há rachaduras na mesa. Olha para suas mãos, abismado. Fica se perguntando se foi ele mesmo quem o fez.
- Essa mesa é de mármore, Vic. Difícil de quebrar.
- Eu... eu... isso é impossível.
- É, Vicent. Eu também achei. Mas, se parar um pouco para pensar, verá que é verdade. Quando atendeu ao telefone, pela primeira vez, eu o observava, num prédio próximo. Será que não se lembra da intuição que sentiu, antes de olhar para o lado e ver a granada vindo em sua direção?
Vicent lembrou. Ele sentiu uma sensação estranha, uma intuição de que algo iria acontecer.
- E como foi que sobreviveu? Só se você possuísse considerável força e resistência física, não? Jack era um homem comum, Vicent. Diferente de você. E de noite, na sua casa? Você não acha que um homem comum teria pelo menos queimaduras leves ao entrar naquele inferno? Hein? Sim, um homem normal, sim. Mas não alguém com o corpo invulnerável.
Harvard falava mais rápido do que Vicent podia acompanhar, mas parecia verdade. Tudo começava a fazer sentido.
- E os marginais? Ah, aquilo foi um espetáculo!! Um deles te acertou, não foi, Vicent? E você não sangrou. Como você esperava sobreviver se não tivesse seus... "super-poderes"?
Era verdade. Ele sentira a lâmina na pele, mas esquecera de checar o ferimento diante de toda aquele confusão. Havia apenas o sangue do marginal em sua camisa, não o dele. Jonas se levanta da cadeira e continua.
- Não... não pode ser... não tem como...
- E quando o Jerry atirou em você, então? Está mancado por quê, Vicent? A bala nem se quer penetrou em sua pele!!! -Vicent olha para a sua perna, espantado. Nem sangrando ele está.
- Está, entendendo, Sr. Walker? Tão logo descobrisse seus... “poderes” incomuns, trataria de exercê-los em alguma função. E, se não fosse a meu favor, seria contra mim. Bem, eu prefiro que seja a meu favor. Pense. Você é poderoso. Eu tenho intelecto, poder político e dinheiro. Você pode ficar rico, recuperar tudo o que perdeu nos últimos dias em pouquíssimo tempo.
- Você... você... matou meu melhor amigo... destruiu minha casa... transformou minha vida num inferno... e ainda quer perguntar se eu quero me unir a você???
- Por que não? Esse tempo todo eu estava lhe testando, Vicent. Precisava ter certeza de que minha teoria estava certa. E está. Mas acredite, eu não lhe quero o mal. Posso lhe ajudar a desenvolver melhor seus poderes. Tudo o que peço é que trabalhe para mim e somente para mim.
Harvard era bom. Sabia que Vicent já não tinha mais nada a perder naquele ponto. Poderia se render, aprender com aquele homem, ou matá-lo e tentar explicar para a polícia tudo o que acontecera. Era tentador. Mas Jack não saía de sua cabeça. E as palavras de sua mãe, inconformada com a loucura do mundo que levara o seu menino.
Vicent poderia ser parte daquela loucura. Ou tentar fazer algo para detê-la.
- Não. Isso acaba agora. Gente demais já sofreu por sua causa... por causa de homens como você. E eu não sou como você!!! –Vicent dá um murro no meio da mesa e parte ela em duas. Era verdade, afinal. Ele tinha uma força sobre-humana. Como nunca havia percebido isso antes? Eram questões para mais tarde. Agora, ele se sentia livre, pela primeira vez na vida.
Jonas se afasta, dando passos à esquerda de Vic, andando de costas na direção da parede.
- Acalme-se, homem! Mantenha a compostura... - Jonas chega próximo da parede e aperta um botão oculto, com um sorriso no rosto.
Imediatamente, uma grade desce do teto, separando-os. Vicent fica surpreso. Ao mesmo tempo, uma bomba surge no chão do lado de Jonas, com um cronômetro digital. O tempo marca 00:00:30 e começa a diminuir.
- Bem, é lamentável. Mas se meu plano não deu certo, não há mais razão de viver. Sugiro que saia daqui, a menos que não esteja tão cansado de ser atingido por explosões...
- Não!!! Agora que sei do que sou capaz, nem o diabo vai me impedir de chegar até você!!! - Rapidamente, Vicent aproxima-se da grade e começa a entortar as barras de metal.
- Não... mas talvez uma descarga elétrica de 2000 volts impeça.
- Arrrrrgh!!!!! –Vicent leva um choque ao segurar as barras. A contagem regressiva continua...
-
Hehehe, vejam só... ele também é à prova de choques. E de que adiantaria, Vic? Não pode provar nada do que eu fiz contra você. Iam dizer que você é louco.
- Eu já disse... não vou te entregar à polícia. Eu vou matar você. –Vicent insiste em forçar as barras, resistindo ao choque elétrico. Jonas não pára de sorrir.
- Bem, é tarde demais para isso. Adeus.
- Não!!! Não!!!!! - Vicent fecha os olhos, as barras começam a ceder. Ele não ouve mais Harvard, apenas o ponteiro digital anunciando os últimos segundos.- NÃÃÃÃÃ...
Vicent não consegue atravessar a grade a tempo. O andar inteiro explode e Vicent é arremessado através da janela, tornando-se um risco flamejante que corta o céu noturno e acaba por cair na cobertura de um prédio adjacente.
Rapidamente, ele se recupera e tira a camisa em chamas, batendo nas pernas para apagar o fogo. Olhou para si mesmo, todo chamuscado. Era incrível. Ele estava inteiro. Sentia o corpo ardido, mas estava vivo. Mas esqueceu disso no instante em que se lembrou da fuga covarde de Jonas Harvard. Socou o ar de raiva.
- Filho da puta!!! Filho da puta!!! Preferiu... se matar... a ter que me encarar... não acredito nisso!!!
Sua respiração estava ofegante, mas logo foi diminuindo. Não entendia o porquê daquele suicídio repentino. Mas não iria pensar nisso naquele momento. Ao menos, havia o consolo de poder prender Jerry Kincaid.
***
A noite permanecia calma. Sem nuvens, Vicent sentia o ar gelado do andar do prédio em construção onde deixara Jerry Kincaid, enquanto contemplava as estrelas. Aonde havia deixado o assassino, estava apenas a corda cortada e uma mancha de tinta azul. Alguém havia lhe socorrido. A Vicent, não restava nada. Apenas perguntas.
Quem era Jonas Harvard? Estaria ele mesmo morto?
Como poderia encontrar Jerry Kincaid e entregá-lo a polícia?
Como ele adquirira aqueles poderes? Qual seria a extensão deles? E como nunca percebera antes?
Havia coisas demais na sua cabeça e não conseguiria raciocinar direito naquele momento. O dia tinha sido cheio.
E ele ainda tinha uma história e tanto para contar ao irmão. As respostas ficariam para o amanhã. As respostas... e uma nova vida...
Fim