Este conto eu fiz para um suposto livro de contos que nunca saiu. É a história de um cara que está indo encontrar a namorada enquanto relembra seu relacionamento com ela e seus problemas. Tudo o que ele quer é fazer as pazes, mas o seu caminho até ela acaba lhe trazendo novos problemas. O título da história diz respeito tanto ao relacionamento dos dois quanto à cidade onde eles vivem... Curitiba.
Contradições
Por Leonardo Melo
Hoje.
Frio. Frio e chuva. Amaldiçôo o clima curitibano pela milionésima vez enquanto vejo o ar branco espalhar-se da minha boca para fora. Maldito tempo de Curitiba. Posso viver dez mil anos nessa cidade e jamais irei me acostumar. De manhã, um Sol de deixar o Caribe com inveja. E agora, estamos todos congelando aqui, no ponto de ônibus, plena hora do rush.
Pelo menos não tem tanta gente na fila para entrar na Estação Tubo. Talvez até dê para eu ir sentado no Ligeirinho.
Bah... o que isso importa? Pra mim, a única coisa que interessa é chegar logo para falar com ela.
Estou tentando não pensar nisso. Depois da briga de quarta-feira, não nos falamos mais. Não sei se não é o fim. Não sei se quero que seja. Não sei se a amo de verdade ou se só estou enganando a nós dois.
Afasto o pensamento quando o ônibus chega e abre a porta, descendo a plataforma para podermos entrar. As pessoas que querem entrar não deixam as que querem sair passarem. Vejo o empurra-empurra de todo dia mais uma vez. Parece que isso nunca vai mudar.
Ao menos desceu bastante gente. Acho que consigo entrar nesse. Passo meu cartão de transporte no leitor e atravesso a catraca a passos lentos, acompanhando a lentidão dos que entram.
Pego o mesmo ônibus já fazem quase 15 anos e não sei o nome do motorista ou do cobrador na Estação Tubo. Apenas cumprimento este último enquanto passo pela catraca e procuro por um lugar para sentar. Que posso fazer? Não sou assim, de conversar com todo mundo. A Ariadne, por outro lado, é. Ela deve saber até como se chama a avó de cada um deles.
Nós somos muito diferentes mesmo. Talvez por isso não estejamos dando certo. Talvez por isso esteja tudo ruindo.
Não chego a me sentar. O ônibus está lotado, como de costume. Há uma loira que passa por mim e não consigo deixar de encará-la. Ela não me nota, mas percebo seu corpo descomunal. Ela é magra, pouco mais baixa que eu, mas tem uns seios apetitosos e as nádegas mais maravilhosas que eu já vi. Seus cabelos são ondulados, ela tem as maçãs do rosto rosadas e um semblante carismático. Parece pensar em alguma coisa boa, pois não pára de sorrir. Mesmo um sorriso discreto. Ou talvez seja impressão minha. Noto que ela carrega uma pasta de Direito da PUC. Ela me lembra Ariadne.
Não, não é verdade. Ela é totalmente diferente de Ariadne.
A verdade é que tudo me lembra Ariadne.
Deus, que saudade...
***
Dois dias antes.
Haviam acabado de voltar do cinema e chegaram na casa de Ariadne discutindo. Eles tinham gênios bastante opostos, o que tornava tais discussões cada vez mais freqüentes. Michael vivia pensando que isso acabaria ocasionando o fim do relacionamento.
Ariadne não gostou da insinuação. Ela gostava de sair com os amigos, mas tinha sempre que aturar o ciúme quase doentio de seu namorado. Isso também sempre era motivo para mais discussões.
Aos prantos, correu para o banheiro e bateu a porta. Michael viu-se sozinho segurando a mochila. Tremia sem parar, mas não era do frio que assolava a cidade lá fora.
Segurou seu choro e saiu do apartamento, sem nada dizer.
***
Hoje.
Fui parar na frente do ônibus. Cumprimentei o motorista como havia cumprimentado o cobrador e troquei duas ou três palavras a respeito do frio. Depois deixei ele trabalhar enquanto tentava ver se a loira olhava para mim. Vi uma aliança de prata em seu dedo e desisti.
Não que eu fosse fazer algo. Estava só tentando não pensar tanto nela. O que eu ia dizer, afinal? “Me desculpe, amor, eu estava errado?”. Talvez estivesse. Mas a culpa também foi dela. Odeio ficar irritado. Não consigo me controlar.
A discussão tinha sido feia. Mas talvez fosse conseqüência de coisas que vinham se acumulando no decorrer dos meses.
Não sei dizer. Mas independente disso, comprei um presente para ela. Deve ajudar a fazer as pazes... ou, caso contrário, ela fica com uma última lembrança minha.
***
Semana passada.
Estavam em silêncio na casa dele. Um silêncio desagradável, tenso. Ainda não haviam conversado tudo que precisavam, mas não achavam as palavras certas. Não achavam ou hesitavam em dizê-las.
Estavam sentados à mesa, haviam acabado de tomar um chocolate quente com algumas torradas e ele brincava com a faca enquanto ela o observava, de braços cruzados, para aquecer um pouco o corpo, muito embora quisesse que ele fizesse isso.
Meio que com a voz trêmula, ela, que tinha mais facilidade em falar o que pensava, decidiu quebrar o silêncio.
Demorou para responder. No fundo, não queria. Queria abraçá-la, beijá-la, arrastá-la até a cama e fazer amor madrugada adentro.
Mas não podia. Não com tanta coisa chafurdando em sua mente.
As lágrimas rolaram pelo seu rosto, escorrendo pelos olhos vermelhos. Derramavam-se sobre a mesa, mas ela não se preocupou em enxugar o rosto. Não nesse momento. Levantou-se vagarosamente, Abraçou suas costas. Ele continuava indiferente. Apenas segurou seu braço, delicadamente, em sinal de que a situação ainda não estava irremediável. Em seguida ela deu-lhe um beijo no rosto. Um beijo demorado e quente. Gostava de sentir a pele macia dele, por isso demorou-se. Estava despedindo-se, caso fosse esta a última vez. Depois pegou sua bolsa no sofá.
E saiu.
***
Hoje.
Que ótimo. Como se não bastasse ser uma sexta-feira e hora do rush, ainda parece que o mundo vai se acabar em água. É hoje que a gente não sai daqui. O trânsito anda tão rápido quanto uma fila de tartarugas mancas. Bufo de raiva enquanto olho o relógio. Tomara que ela esteja de humor mais ameno do que da última vez.
Tento me distrair, mas não sei mais no que pensar. Começo a ouvir as conversas dos outros.
Sorrio enquanto percebo os contrastes nos diálogos por todo ônibus. Olho para baixo e vejo uma mulher gorda com cabelo de abajur sentada num banco próximo da janela. Sua pele tem mais rugas que uma ameixa e ela parece não ter alguns dentes, mas carrega uma enorme sacola cheia de mimosas. Ela decide pegar uma delas para comer e quando começa a descascá-la com suas mãos adiposas, o cheiro da fruta invade minhas narinas e me dá vontade de espirrar. Seguro meu nariz enquanto vejo a loira atender o celular e dizer “oi, amor”. Do outro lado do ônibus, acho engraçado um homem falar no celular e explicar alguma coisa para a pessoa do outro lado da linha gesticulando, desenhando algumas formas no ar. Ora ele esboça alguns gestos que só ele entende, ora segura-se nos ferros do ônibus para não perder o equilíbrio. Há duas patricinhas que não param de apontar os defeitos de seus respectivos namorados e elogiar o corpo de atores de cinema norte-americanos. Também percebo uma mulher de meia-idade perdida em pensamentos, como eu. Ela olha para o congestionamento lá fora com ar de melancolia.
E há eu. E minha namorada não está aqui para me abraçar.
***
1 mês atrás.
O dia estava ensolarado. Os dois haviam combinado de se encontrarem na hora do almoço, apenas para se verem no meio da semana. Marcaram na frente do bondinho da rua XV, próximo ao lendário Palácio Avenida.
Michael vinha andando pela rua XV desde a praça Santos Andrade, acompanhando a linha do pinhão, como sempre gostava de fazer, desde que era criança. Em seu trajeto, encontrou várias das figuras exóticas sempre presentes nessa famosa rua da cidade.
Viu um homem cabeludo e seminu empurrar sua bicicleta, com o corpo encharcado de algo que ele não soube dizer se era suor ou algum tipo de óleo especial. Viu algumas mulheres andando em procissão com camisetas nas quais estava estampada a foto de um homem que se dizia ser a reencarnação de Jesus Cristo.
Passou por uma mulher de voz estridente que gritava apostas para o jogo do bicho e um homem que brigava com uma caixa imitando os miados desesperados de um gato. Viu um homem pintado de prata da cabeça aos pés, imitando uma estátua, e um casal de cegos fazendo música para pedir dinheiro.
Perguntou-se se em alguma outra cidade existiam coisas parecidas, mas tudo o mais perdeu a importância quando avistou-a, já à sua espera, na frente do bondinho.
Aproximou-se, abraçou-a e deu um selinho. Ela achou pouco.
Finalmente beijaram-se loucamente, no meio da rua XV. Todas as pessoas que por ali passavam, o horário para voltarem para seus respectivos trabalhos... nada mais importou naquele momento.
O beijo terminou com um sorriso dela, ainda de olhos fechados, dizendo:
Trocaram acontecimentos do cotidiano, combinaram coisas para o fim de semana e conversaram sobre suas famílias enquanto comiam.
Depois que ela terminou a sobremesa e ele terminou o suco, deixaram as badejas de lado e olharam um para o outro, de mãos dadas. Ela sorriu, meiga e carinhosamente, enquanto passou a mão pelo seu rosto.
Não gostavam de dizer “eu te amo”, pois praticamente todos os casais que conheciam diziam isso sem entender verdadeiramente o que isso significava. E por mais que eles amassem realmente um ao outro – ou pelo menos assim pensassem – não gostavam de utilizar a mesma frase tão banalmente utilizada para expressar esse sentimento.
Expressaram-no com outro beijo antes de levantarem-se para ir embora.
***
Hoje.
O identificador de chamadas de meu celular apontou o número dela. Sabia que não ia demorar para que isso acontecesse.
Mentira. O que eu mais queria era dormir lá, abraçando-a e só levantar da cama quando desse vontade. Mas não sei mais se isso seria possível.
***
2 meses atrás.
Era um sábado à noite e estavam num bar no Largo da Ordem, pouco ao lado do Relógio das Flores. Região dominada pelos rockeiros e góticos que infestavam as casas noturnas das proximidades.
Ariadne e Michael estavam pagando uma dívida de meses, saindo para papear com um casal de amigos dela, Elaine e Jonatan. As duas não paravam de tagarelar e pôr as fofocas em dia, enquanto os homens trocavam uma ou duas palavras diplomáticas.
Isso foi mudando aos poucos enquanto o tempo passava e os litros de álcool em suas cabeças aumentava. No fim, estavam todos rindo e falando ao mesmo tempo, gargalhavam de histórias que nem eram assim tão engraçadas e divagavam sem medo de perderem-se no caminho das ilusões futuras.
Segurou seu braço e encarou-a:
Jonatan e Elaine riram novamente, descontrolados pela bebida. Enquanto faziam piadinhas e comentários, a mente de Michael voltou no passado. Havia sido mesmo uma noite maravilhosa a daquele carnaval. Ele nunca tivera muita afinidade com as mulheres, já que não gostava muito da idéia de “ficar” com elas por mero prazer físico. Gostaria de encontrar a pessoa certa e partilhar seu amor, conversar, ter filhos, essas coisas. Talvez por isso ele não tenha tido muitos relacionamentos antes dela.
Michael era um idealista. Um tipo raro de encontrar hoje em dia. E muito embora fosse fundamentalista muitas vezes, ele falava de seus princípios e daquilo em que acreditava de uma forma tão apaixonante que convencia qualquer um de que aquilo era verdade, mesmo que não fosse este o seu intento.
Não é à toa que Ariadne apaixonou-se por ele rapidamente. Naquela mesma noite eles fizeram amor e ela, que esperava encontrar apenas uma diversão passageira, encontrara muito mais. Pouco a pouco, ela foi mudando seu jeito de ser, para tentar ser aceita por ele. Mas muitas vezes não conseguia, principalmente quando ele, que parecia ser tão perfeito, mostrava seu outro lado. Seus defeitos.
A verdade – como Ariadne certamente sabia – era que ninguém é perfeito. Mesmo alguém tão perfeito quanto aquele pela qual ela se apaixonara.
***
Hoje.
Finalmente, saímos do congestionamento e o ônibus novamente começa a andar. Respiro aliviado enquanto penso que em instantes estarei chegando. Vou entrar, olhar bem nos olhos dela e dizer...
Consigo ver o motorista lutar contra o volante enquanto a inércia brinca com o veículo, fazendo todos se jogarem uns sobre os outros. Alguns batem nos ferros ou bancos, uma velha cai no chão e não demora a ser esmagada por pés descontrolados.
O ônibus cai para o lado finalmente e arrasta-se por longos metros, fazendo faíscas brotarem do atrito entre metal e asfalto. Os gritos de pânico são ensurdecedores. Eu sinto dor em todo o meu corpo, mas não consigo ouvir o som da minha própria voz. O ônibus finalmente pára ao bater na parede de um prédio
A última coisa que eu penso antes de apagar... é nela...
***
3 meses atrás.
Assistiam alguns filmes, que haviam pegado na locadora, na casa dele. Estavam debaixo das cobertas, cada qual com seu pijama, abraçados. Vez ou outra um virava para o lado e dava um beijo no outro e abraçavam-se mais forte. Em certo momento, ela começou a tentar capturar o dedão do pé dele com os seus dedos do pé, de brincadeira. Ele percebeu e tentou virar o jogo, agarrando o dedão dela. Ficaram nessa briga e o filme logo perdeu a importância. Estavam rindo, ansiosos para descobrir quem ganharia o jogo.
Logo ele não se conteve e subiu em cima dela, abraçando-a:
Ela deu risada de novo enquanto ele voltou a atacar seu pescoço. Passou a mão em sua barriga e foi subindo, levando a camisa do pijama dela junto. Em um instante havia tirado a camisa e estava beijando seus seios.
Ela não se conteve mais, passou as mãos em suas costas, sentindo mais uma vez aquela pele macia que ela adorava. Tocou os cabelos de sua nuca e puxou sua cabeça mais uma vez, forçando um beijo provocante. Tiraram o restante da roupa enquanto o filme seguia indiferente, sem olhares que o assistissem.
Depois de fazerem amor, ele permaneceu abraçado sobre ela, e ela, abraçando-o e fazendo carinho em suas costas e em seu rosto.
Segurou o travesseiro e aproximou-se de seu lábios uma vez mais.
Seguiram beijando-se e fizeram amor mais uma vez.
***
Hoje.
Acordei gritando no Hospital do Cajuru. Não identifiquei o lugar de imediato, já que eu nunca estive lá.
Ela saiu da sala e me deixou deitado. Olhei para o lado e identifiquei minhas coisas. Agradeci a Deus pela caixa com o presente dela ainda estar ali. Verifiquei o conteúdo. Não sei como, mas ele não quebrou. Peguei o celular e tinha 2 chamadas não atendidas dela. Era 19:21h. Mesmo com o corpo todo doído, peguei minhas coisas e saí dali.
No corredor, encontrei alguns dos outros passageiros que estavam no ônibus. A mulher gorda das mimosas estava com gelo no nariz, do qual escorria sangue. Uma das patricinhas estava com uma faixa improvisada no braço, enquanto sua amiga, mesmo com algumas marcas de sangue na cabeça, tentava cuidar dela.
A mulher melancólica estava numa maca desacordada. Não vi a loira gostosa. Havia mais gente lá, não só do acidente de ônibus. Gente gritando de dor, um guri que havia levado uma pedrada na cabeça, um outro com a clavícula quebrada, outro numa maca com o rosto totalmente disforme, aparentemente vítima de espancamento, uma mulher que não parava de gritar que estava com sangramento vaginal e implorava por ser atendida, gente chorando, talvez por parentes mortos. Em meio a tudo isso, estagiárias da PUC retocando a maquiagem e fazendo planos para o fim de semana.
Meu celular tocou novamente.
Minha raiva é tanta que atiro meu celular contra a parede enquanto praguejo, aos berros. Devo ter chamado a atenção do hospital inteiro, mas não estou nem aí.
Junto meu celular do chão bufando de raiva enquanto escuto uma voz rouca aproximando-se:
Era um velho. Me deu vontade de responder que não era da conta dele, mas seu semblante de pena me fez desistir. Além disso, ele não tinha culpa de meus problemas.
Curitibanos. Podemos ser o povo mais fechado do mundo, mas quando a situação exige, somos solidários como qualquer brasileiro.
***
6 meses atrás.
Estavam decididos a não ficar em casa naquele feriado ensolarado e resolveram passear pela cidade. Foram no Parque Barigui, aproveitaram para passear no shopping e lá almoçaram. Depois foram até a Ópera de Arame e seguiram para o Jardim Botânico.
Já era final de tarde quando estavam saindo do Jardim, a caminho da casa dela.
Desvencilhou-se das mãos dela e entrou no carro. Permaneceria em silêncio durante todo o trajeto e ela, sentindo-se culpada sem motivo.
Tomariam banhos separados naquela noite, e não juntos, como costumavam fazer.
Mas dormiram abraçados...
***
Hoje.
Paramos no sinaleiro e o celular dele toca. Parece ser a mulher dele.
Desligou o celular a tempo de pôr o carro para andar novamente. Atravessou a rua e me deu as más notícias:
***
9 meses atrás.
Haviam entrado em um acordo quando se conheceram. Perceberam que o relacionamento poderia dar em namoro, mas não decidiram namorar de imediato. Resolveram se conhecer durante três meses. Depois desse tempo, decidiriam se iriam mesmo assumir um compromisso ou não.
Neste dia vencia o prazo. E decidiram conversar na rua 24 horas. Sentaram-se em uma das mesas e pediram uma pizza. Enquanto aguardavam, não sabiam ao certo o que fazer. Riam da situação, até que ele começou:
Ele sorriu. Sabia que ela queria ouvir as palavras com todas as letras.
Deu mais um beijo demorado enquanto o garçom vinha trazer a jarra de vinho. O beijo terminou e ele serviu as taças. Ergueram-nas.
- Quer namorar comigo?
-
Quero.
-
E você, quer namorar comigo?
-
Quero.
Brindaram e beberam o vinho. Beberam a paixão que tinham um pelo outro. E assim, começou.
***
Hoje.
O velho me deixa nas redondezas de Santa Felicidade e parte. Eu agradeço a carona uma vez mais antes dele ir e começo a correr enquanto ligo. São 19:55h. Ela demora a atender.
Desligou antes que eu terminasse de falar. Sigo correndo, minhas costas doem. Com certeza fruto do acidente, mas não posso parar agora. Só mais algumas quadras.
Sigo correndo sem fôlego e amaldiçôo a mim mesmo por não praticar exercícios. Estou morrendo de cansaço, mal me agüento em pé. Meu peito começa a doer, sinto minhas roupas grudarem com o suor. Mas não vou parar agora. Se isso serviu de alguma coisa, foi para mostrar o quanto ela é importante para mim.
Pois, se mesmo depois de ter sofrido um acidente e estar morto de cansaço e com o corpo doendo da cabeça aos pés eu estou aqui, correndo para salvar nosso relacionamento, então eu realmente a amo.
E acho que o velho tinha razão. O que ela disse foi da boca pra fora. Ela nunca quis terminar comigo, mesmo com meus defeitos. Com meu ciúme e meu egoísmo. É isso. Vou chegar, vou abraçá-la e dizer o quanto a amo.
E que mesmo eu sendo egoísta, ciumento e chato e ela sendo rancorosa, nervosa e tudo o mais, a gente não consegue ficar longe um do outro. Se isso é amor ou paixão, não importa. Não quero pensar nisso agora. Só quero ficar com ela.
Fico repetindo isso a mim mesmo e não paro até faltarem três quadras. Dou-me ao luxo de descansar por alguns segundos na esquina, enquanto observo o movimento. Mais à frente, há três indivíduos mal-encarados. Bem no meu caminho.
Olho no relógio, são 20:12h. Não quero arriscar, decido dobrar a esquina e continuar pela rua debaixo. Vou ter que dar uma volta na quadra lá na frente, mas é melhor do que ser assaltado logo agora. E há tempo. Eu pedi mais meia hora, mas em cinco minutos estarei lá.
Passo pela segunda quadra e olho para cima para ver se enxergo os três marginais. Eles me vêem correndo. Eu finjo que não vi e sigo meu caminho. Não sei o que eles fazem e não me importa.
Mais uma quadra. Só preciso chegar no fim dessa quadra, dobrar à direita, ir até o final e dobrar à direita novamente. Eu chego lá. Eu consigo.
Ignoro o peito queimando e a garganta gelada. Meus pés estão encharcados por causa da chuva de antes. Ainda bem que ela parou. Logo vou chegar, tirar essa roupa e tomar um banho quente com ela. Faremos as pazes e ficaremos a madrugada inteira fazendo amor.
Dobro à direita, finalmente. Falta pouco. Mas... há algo errado. Tem algo no meio da rua, não consigo ver direito o que é. Tenho que me aproximar um pouco mais para ver.
Oh, não. A rua está em reforma ou coisa do tipo. Estão passando a tubulação de gás, talvez. Não sei. Só sei que há um buraco enorme com três metros de profundidade, máquinas de terraplanagem ao redor e lama. Muita lama. O buraco tem o comprimento da rua toda, de ponta a ponta, impedindo a passagem, mesmo à pé. Olho para as extremidades e vejo que poderia passar agarrando-me aos portões das casas, mas em cada uma delas há cachorros me encarando. E as barras dos portões estão lisas. Eu não iria muito longe. Que azar. Eu sempre passo pela rua de cima, não tinha visto isto aqui antes.
Olho no relógio e são 20:19h. Tenho que voltar e dar a volta na quadra pelo outro lado, não tem outro jeito. Bem, talvez os marginais já tenham ido embora.
Volto a correr enquanto volta a garoar. Aquela garoa chata de inverno. Vou pegar uma gripe, com certeza. Por um lado é bom, ela pode cuidar de mim o fim de semana inteiro. Me faz sopa para comer na cama e me abraça enquanto vemos algum filme que esteja passando na tevê.
Dobro a esquina mais uma vez rezando para não encontrar ninguém.
Acho que Deus já devia estar dormindo nesse horário.
O terceiro deles ficou quieto e rapidamente tomou minha carteira. Abriu-a, pegou todo o dinheiro que tinha e jogou a carteira nos meus pés. O que estava com a arma continuou me encarando:
- E essa caixinha aí?
Não.
O tiro atingiu meu fígado e o coice me jogou para trás. A caixinha voou para cima, abrindo-se e jogando o golfinho de vidro para fora. Os três não se importaram mais com isso, saíram em disparada enquanto eu caía no chão.
Ela adorava golfinhos.
O golfinho espatifou-se no chão.
***
1 ano atrás.
Era um dia ensolarado, apesar do inverno. Horário de almoço. Haviam acabado de almoçar e passeavam na frente do prédio da Universidade Federal do Paraná, na Praça Santos Andrade. Andavam felizes de mãos dadas, até sentarem- em um dos muitos bancos que havia ao redor da praça.
Ele não conteve a gargalhada. E quando olhou para ela, ela estava corando, meio sem graça.
E beijaram-se enquanto abraçavam-se fortemente, como nunca haviam feito antes na vida.
***
Hoje.
Apertei o botão do interfone no portão da casa dela, manchando-o de sangue. Tossia enquanto segurava o ferimento e rezei para que ela não estivesse tão irritada com o atraso a ponto de não atender ao interfone.
Disse isso e vi tudo rodar. Caí para trás, estatelando-me na escada de poucos degraus que havia na entrada do prédio.
Acho que ela olhou pela janela. Deve ter entendido o que havia acontecido quando viu o corpo do namorado caído na escada, ensangüentado, pois ouvi seu grito:
Acho que ela desceu as escadas correndo, enquanto procurava as chaves da entrada. Atravessou a porta do prédio, correu para o portão e passou por ele, ajoelhando-se perto do meu corpo e dando tapas em meu rosto para ver se eu abria os olhos.
Ela ainda levantou-se rapidamente e interfonou para uma vizinha:
Voltou a me abraçar, segurando-se para não chorar.
Não teve jeito, ela começou a chorar. Chorou soluçando enquanto as lágrimas caíam sobre meu rosto.
Seu choro foi ficando cada vez mais distante, mas pude sentir seus lábios tocarem os meus uma última vez.
E lembrei de uma noite em que ela dormira na minha casa e eu havia deixado a bandeja pronta para levar o café da manhã na cama no dia seguinte. Ela me surpreendera quando eu acordei e ela acabou levando o café na cama para mim.
E lembrei dela dançando no baile de formatura de um amigo meu. Erguendo o vestido belíssimo que ela vestia naquela noite com as duas mãos, sorrindo, balançando a cabeça e brincando de dar passos de samba naquela pista. Para mim. Estava dançando para mim naquela noite e só havia nós dois em toda a pista.
E lembrei de quando ela precisou ficar internada por 4 dias no hospital por causa de um coágulo em sua perna e quando fui visitá-la, fizemos amor ali mesmo.
E lembrei de um susto que dei nela uma vez em sua casa. E da vez que ela esqueceu que um certo ônibus não funcionava no Domingo e por isso, tivemos que andar 12 quadras a mais. Da vez em que brigamos porque ela foi num barzinho com os amigos sem me avisar. Da vez em que nos encharcamos pegando chuva juntos e, no dia seguinte, ela estava enxugando meu sapato com o secador de cabelo para eu poder ir trabalhar.
E da primeira vez que fomos ao motel. E da última briga. E do dia de hoje.
Tudo em vão. Todo o esforço para apenas chegar ali e não poder dizer tudo o que eu queria. Mas acho que ela entendeu. Quando viu todo o meu esforço em chegar até ela no último dia da minha vida, deve ter entendido.
E se ela entendeu... se finalmente compreendeu o significado do verdadeiro amor e usou isso em sua vida depois eu a deixei....
Bem, então... não foi tão “em vão” assim.
Eu diria que valeu a pena... e faria tudo de novo.
Fim