Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 01

"A Última Gargalhada"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

O sol nascia mais uma vez, incansável, na cidade sem alma em pontuais 07:29h.
Sua luz era uma portentosa espada, afastando ratos dos becos de Curitiba, empurrando-os em direção à segura escuridão. Iluminando os restos que a noite deixava.
Amanhecia na Cidade das Araucárias, onde já não se enxergava o verde. A cidade que a luz não alcançava. A manhã vinha arrancar os habitantes da cidade de seus sonhos e trazê-los de volta à dura realidade. Uma realidade da qual eles não podiam fugir.
Garcia Lopes coçou a barba por fazer. Havia visto muita coisa naquela cidade nos oito anos que servia na polícia. Coisas demais para uma vida inteira.
Era um pensamento melancólico que o assaltava às vezes, em determinados crimes.
Parecia haver maneiras infinitas dos homens se matarem em Curitiba. Os cadáveres não mentiam, dia após dia.
Cadáveres anônimos ou não, vidas interrompidas, pranteadas ou não, que pacientes, esperavam frias pelos homens da lei.
Homens que poderiam vingá-las ou não.
Homens que lhes dariam um último significado.
Garcia pensou em acender um cigarro. Quando se chega aos 34 em Curitiba, se percebia que havia coisas muito mais perigosas que isto. Não queria olhar de novo para o fascinante cadáver aos seus pés. Olhou para o topo do prédio, a vigiar o beco. Ele estaria por perto? Observando-os, de longe?
Talvez.

- Foi uma bela queda.- concluiu, tentando não sujar seus sapatos de sangue seco.

Não a esta hora da manhã.
Guilherme Vaz aproximou-se com a xícara de café.

- O pessoal da equipe forense já está a caminho, Lopez.

 Lopez não respondeu. Encarando o cadáver e as moscas aos seus pés. Só então olhou para o parceiro.

- Quem diria, não? Que iria acabar desse jeito.
- É. Tem muita gente que vai dormir sossegada a partir de hoje. E eu que pensei que o ponto alto da noite ia ser a reprise do Esquadrão de polícia.
- Aquele com o Leslie Nielsen?
- Esse mesmo. Na GBC.

 Tomou mais um gole de café.

- Não se fazem mais comediantes como antigamente, Vaz. – falou Lopez, este pensamento simplesmente lhe ocorrera.
- É.

Olharam o cordão de isolamento formado em volta. Ia ser um caso bombástico. Sim senhor.

- A morte pega todo mundo, Vaz, mais cedo ou mais tarde. E olha que este aqui já foi tarde. – filosofou Lopez de maneira barata. Expressando seu notável senso comum.
- É. Acha que foi suicídio?
- Acho que foi merecido, Vaz. Isso é que acho. E se foi homicídio, espero dar uma medalha pro cara que fez isto antes de meter ele em cana. Isso é que acho.

A viatura com a equipe forense acabava de chegar. Lopez e Vaz deixaram o corpo por um momento, caminhando em direção aos homens de branco matinal.

- Eu tava pensando, Lopez, será que... é ele mesmo?

Lopez coçou a barba mal-feita e irritada.

- É, sim. Vi ele uma vez na Santa Casa, logo depois que transformaram a Unidade da Marechal num Asilo só pra esses dementes. Devo me mijar até hoje por isso. Já te contei da rebelião?
- Já.
- Pois é. Isso é que acho. Eu e uma pá de gente vamo dormir melhor esta noite...

Mais pessoas se aproximavam em volta, sendo mantidas longe por guardas mal despertos.

- ...sabendo que o Palhaço da Agenda passou dessa pra melhor mergulhando de 30 andares de boca no asfalto.

Em Curitiba, uma gargalhada jamais iria ressoar novamente.
Em Curitiba, alguns inocentes dormiriam tranqüilos.

***

Necrotério Municipal de Curitiba, 8:15h
Lopez estava na porta. Esfregou as mãos devido ao frio matinal. Então era isso. O Palhaço estava morto. Ponto factual.
Não sabia ainda bem o que pensar a respeito. Sentia em seu peito um alívio grande. Uma gratidão e um temor pelo que isto representava. A sensação de processo de algo maior.
Os gêmeos legistas se aproximaram, haviam tido instruções especificas para não tocarem no corpo, era irregular, mas sabiam bem o que isso queria dizer.

- Detetive?
- Sim?
- Os instrumentos de autópsia estão na bandeja ao lado. Nós vamos tomar um café. Quanto tempo acha necessário até voltarmos?

 Lopez consultou o relógio.

- Uma hora está de bom tamanho.

Ambos aquiesceram em sua semelhança. Sem mais demora, se retiraram. Mal havia fechado a porta, e uma sombra moveu-se. Era óbvio que ele já estava ali. Lopez jamais descobrira como ele fazia aquilo.
O Gralha chegara, no azul brilhante de sua roupa, um gritante contraste com o branco asséptico do necrotério. Já não era o mesmo Gralha de outrora. Era um Gralha sisudo, endurecido pelos anos de batalha e pelas tragédias.
Lopez sabia disso, já que participara, direta ou indiretamente, de grande parte dessas batalhas.

- Sei que já não costuma mais atuar de dia. – falou Lopez enquanto abria a porta da câmara refrigerada. Retirou o estranho corpo e o conduziu pelos corredores até a mesa de autópsia. - Mas imaginei que isto iria realmente chamar sua atenção.

As dobradiças rangeram protestando, e ao chegar a seu destino, o detetive ergueu o lençol que cobria o corpo, revelando a grotesca imagem da pele esbranquiçada manchada de sangue, o terno lilás sujo com os detritos do asfalto molhado pela madrugada. Os mesmos cabelos verdes, agora totalmente espalhados pelo corpo, um olho estatelado de surpresa, o outro, liquefeito pelo impacto e o mesmo sorriso sádico estático em sua face. O sorriso que aterrorizara centenas de pessoas a jazer morto e congelado naquele rosto esfacelado.
O vigilante encarou o corpo de seu velho inimigo em silêncio, por vários segundos antes de sua voz de trovão se ouvir pelo recinto.

- Digitais?
- Verificamos. É ele mesmo. Até eu fiquei surpreso.
- Alguma pista no local do crime?
- Ainda estamos investigando, mas por enquanto, nada. Qualquer teoria é bem vinda.

O homem atrás do bico desgastado e sujo começou a tatear os bolsos do morto. O cadáver, à sua maneira, era horrível e fascinante.

- Imagino que esteja se culpando por não estar lá. Não faça isso. Se eu fosse você, se sentiria aliviado.
- Não estou me culpando.
- Ótimo. A propósito, onde estava, ontem à noite? Fiquei surpreso quando vi que você ainda não sabia do ocorrido.
- Ocupado com a gangue de Barrio Huerto. Não são mais problema. Exames de resíduos sanguíneos?
- Apenas daqui a dois dias.
- Hm.
- Acho que ninguém esperava que isto fosse acontecer algum dia.
- Guilherme.
- Sim?

Encararam-se por um instante.

- Pode me deixar sozinho um instante?

Guilherme Lopez demorou-se um pouco. Lento, virou seus pés e se pôs em direção à porta. Suas mãos tateando automáticas em busca do maço de cigarros esquecido em seu bolso.

- Certo. Eu te espero lá fora. Me chame, se precisar.

 O som do trinco encostando na fechadura se fez ouvir. E rodeado por mortos anônimos abaixo de nojentas lâmpadas brancas, o Gralha encarava seu passado e seu futuro ao mesmo tempo. Prestou sua homenagem a um de seus piores inimigos, enquanto procurava mistérios a decifrar...

***

A porta se abriu com um rangido leve. A respiração condensada em vapor de Lopez morreu no ar.

- Então?

O Gralha suspirou antes de responder.

- Desde sua ultima fuga, o Palhaço estava envolvido essencialmente em crimes políticos. Não faz sentido...
- Talvez ele finalmente tenha se envolvido com tubarões grandes demais para ele.
- Será mesmo? Duvido muito. Não ele. Soube que ele andava ameaçando empresários para apoiarem sua... candidatura... à prefeitura de Curitiba. Crime típico do Palhaço. De qualquer maneira, ele jamais ira empossar.
- O que podemos concluir de tudo isto, Gralha?
- Apenas uma coisa, Lopez. – abriu a janela. - Nada mais será como antes. - Dito isto, em uma guinada o Paladino das Araucárias lançou-se aos céus.

E em menos de dois segundos não estava mais ali.

***

Titã era uma das luas de Saturno.
Outrora um paraíso tecnológico, uma utopia futurista típica das ficções pulp cinqüentistas, hoje, como ocorre com todas as utopias, apenas mais um mundo morto por guerras.
Um planeta devastado com seus fantasmas a sonharem solitários com um distante e plácido lugar chamado ontem.
Dois homens desafiavam as leis da física vindo pelo espaço e pousando em sua superfície estéril.
Tratava-se de Meteoro e Solar. Este último, tivera a mente reduzida à de uma criança depois que o Craniano o raptara. Seu companheiro conseguira libertá-lo, com a ajuda do Gralha, mas não foram capaz de reverter o estado do mesmo. Era por isso que estavam ali. Para conseguir ajuda.
Solar segurava um boneco metálico com uma afeição infantil. O boneco fora achado entre as ruínas de um mundo destruído. Não se sabia quanto tempo ficou ali, estirado entre os escombros à espera de mãos que o erguessem e o enchessem novamente de afeto e significado.
Para ele, o boneco era cheio de melancolia e esperança. Uma vez, durante a viagem estelar, Solar pensou que mãos infantis o haviam segurado, mãos hoje mortas em um mundo morto. Mãos de sonho esquecido. Que gentis mãos de artesão o haviam concebido, mãos que não passavam de lembranças que jamais voltariam.
Solar não gostava de pensar nestas coisas, faziam mal para sua alma, faziam-no querer chorar. 
Ali estavam, dois homens e um boneco.

- Ruínas. Apenas ruínas. O que terá acontecido aqui, Solar?
- Solar não entende... amigo disse que iria ajudar...
- Eu sei, mas...
- Mas o que?

O guerreiro não respondeu. Estava sentindo algo, algo oculto e enraizado, subitamente, algo sibilante e periférico que subitamente emergiu com violência, fazendo pela primeira vez o guerreiro temer e questionar sua sanidade á luz desta revelação.

- Genes de Agon!!! – murmurou, antes de arrancar céu afora, deixando um rastro de fótons em seu caminho.
- Mas a gente acabou de chegar...

Ficou de cabeça erguida olhando o rastro de fótons sumir no ar, tentando processar os últimos acontecimentos.
Então se lembrou que havia algo em suas mãos. Olhou e lá estava um boneco familiar.
Sentou com vagareza em uma pedra e começou a falar, tentando encadear seus pensamentos.

***

Enquanto as indagações da grotesca criatura se espalhavam na lua desolada, em outro confim da distante galáxia, o Capitão 7 perseguia o intelecto vivo nível 14 Cerebrac, avançando, velozes em sua silenciosa e tenaz perseguição pelo cosmo.
Era como a pantomima de sempre. O velho jogo com um elemento novo. Cerebrac calculava uma dobra negra espacial capaz de o levar ao universo de protomatéria invertida, talvez sua mera presença lá fosse capaz se fazer o universo implodir no teleporte, talvez não. De qualquer maneira, informação sobreviveria e isto era o que importava para o intelecto vivo.
Subitamente, ambos param, no silencioso vácuo do espaço. Surpreso, o computador vivo quase desliga ante a visão ilógica que os esperava.
E o maior herói de todos os tempos, por um momento desejou ter nascido sem olhos para não ter a agonia de ver o que vira.
Por um momento, o nosso maior herói tremeu.
Por todos nós.
Neste instante marcado, lembrou-se de um pequeno momento com sua bela Luísa, os dois fazendo compras juntos no supermercado em prosaica afetuosidade. Um momento pequeno de alegria terna. E, por trás do símbolo em seu peito, o coração de Carlos sentiu que esta alegria seria abrupta e impiedosamente destruída... e não haveria nada que ele pudesse fazer...

***

Na pequena partícula chamada Terra, bilhões de formigas humanas continuavam sua rotina, avançando dia após dia para suas páginas finais.
Em cada rosto uma história, cada uma com suas particularidades, seus problemas, suas paixões e seus sonhos. Sonhos que alimentam esperanças ou destroem vidas. Cada uma com seus pensamentos egoístas.
E nenhuma das pessoas, ocupadas demais com seus próprios pensamentos, nota uma criança solitária sentada num balanço, num parquinho desolado. Uma alegoria melancólica. Um menino de alma morta em seu parque sem encantos.
Ninguém pára para notar uma pequena lágrima que cai de seu rosto... pois ele sabe o que virá... e sente medo...
Pensou em brincar com seus botões.
Fazia muito tempo que não brincava.

***

Na cidade sem alma, o relógio marcava 23:00h. O Gralha vasculhava o local do crime enquanto o Capitão Miranda roía as unhas, com impaciência. Um hábito péssimo cultivado por toda uma vida.
O herói, tradicionalmente calado, não conseguia afastar a morte de um odioso adversário de seus pensamentos.

- Achou alguma coisa, herói?

Nenhuma resposta, enquanto o vulto azul contemplava algo encontrado. A luminosidade e o ângulo de visão não permitia a Miranda ver o que era, fato que aumentou mais sua curiosidade.

- Gralha?

Lentamente, o gigantesco homem fantasiado guardou o objeto dentro do cinto.

- Nada.
- Alguma pista?
- Apenas uma idéia.- E retirou-se. Calado e impaciente.

23:37h. Gralha estava atravessando uma porta de madeira de um apartamento imundo no subúrbio de Curitiba, surpreendendo seu inquilino.
Jeferson Gomes, que entrava e saía da cadeia desde que aprendeu a andar, levantou da cama tentando apanhar sua 44 abaixo do travesseiro, sonolento e surpreso. Entretanto, punhos amarelados o suspenderam pelo colarinho antes de qualquer ação.
Trajando apenas uma regata branca e cueca, o homem começou a suar enquanto a lenda viva o encarava. O homem disse apenas uma palavra.
“Palhaço”.
Suficiente para  Jeferson saber do que se tratava.
Nada ele poderia tirar daquele homem sujo e assustado. Nada ele sabia.
Isto parecia não importar para o Gralha.

Foi uma noite infernal na cidade. Punhos e janelas foram quebrados, dentes voaram, o vigilante em violência redobrada visitou vários ex-comparsas do Palhaço da Agenda.
00:05h, Gralha interrompeu a ceia de Laura Rayburn. Colaborou com Palhaço uma vez. Recusou-se a fazer qualquer comentário e implorou pelo espancamento, como típico de suas fantasias sadomasoquistas.
00:45h, João “Cheirador” e seu parceiro, Matias Silva, são surpreendidos tentando roubar um casal. Dois nadas que nada tinham a dizer.
01:00h, visita José Quincas. Criminoso regenerado. Ele levanta a hipótese de que Palhaço se encheu da loucura e resolveu se matar. Pouco provável.
01:13h. Joana Bigorrilha aposta com todas as suas fichas que foi armação da concorrência. Apenas suposições baratas sem mais pistas sólidas.
02:25h. Detém um chupacabra que há duas semanas estava matando bovinos e galinhas nas granjas de Curitiba.
03:12h. Visita a um antigo esconderijo do Palhaço. Traz apenas lembranças desagradáveis e nenhuma pista.
Uma gargalhada fúnebre ecoa, morta no ar.
03:45h. Outro esconderijo. Nada de novo.
05:30h. Visita a Carlos Parkson, na prisão. Um homem forte, outro ex-capanga.
Esse tinha algo a dizer.

- Última vez que o vi, ele estava incomodado com alguma coisa. Não disse o que era, mas estava pensando em fugir. Perguntei pra onde e por quê, mas sabe como ele era. Só respondia coisas desconexas.
- O que ele disse?
- Não lembro direito. Algo sobre sair do país... não... do mundo. Ir pro espaço, sei lá. Falou algo sobre construir uma nave. Roubar os planos de um foguete. Mas depois pareceu não estar nem aí, mudou totalmente de assunto e começou a destrinchar um novo plano de genocídio písceo com veneno e bombas e notas de um Real com a cara dele. E virar prefeito de Curitiba.

06:39h. Gralha e o Detetive Lopez andam pelos corredores sujos e lúgubres da Santa Casa.
Havia sido uma longa noite, os músculos do herói doíam. Apesar das suas luvas, os punhos estavam esfolados.

- Algo sobre o caso?
- Ainda não sabemos. Um grande “pode ser”.
- Alguém fugiu?
- Não. Quer dizer, sim. Bem... depende do ponto de vista. De certa forma.
- Que quer dizer?

 Eles param na frente de uma das portas e o Detetive responde:

- Esta é a cela do Pirata Mental. Se lembra dele, não? Inimigo do Velocista... não é de sua galeria habitual.
- Eu o conheço. Enlouqueceu anos atrás depois daquela batalha envolvendo todos os heróis...
- É melhor tapar o nariz...

A porta se abriu e o fedor forte se sangue e adrenalina se fez presente.
Apenas uma cama soldada na parede formava o ambiente mal iluminado.
Na parede outrora branca, emplastos em quantidades absurdas e pegajosas de sangue seco se grudavam pelo que parecia, ser toda a peça.
Pedaços destroçados do corpo com seus intestinos virados do avesso estavam jogados no canto da cela, como uma massa disforme de carne e ossos. Vítimas de uma fúria inimaginável.
Trapos que um dia foram as roupas de um paciente jaziam no centro da sala, encharcados com a poça escarlate que estendia-se por toda parte. E um rombo imenso na parede.

- E isto é tudo o que restou do Pirata. Acho que você concordaria comigo.
- Em que?
- Que dois criminosos mortos em 24 horas não é coincidência.
- Talvez.
- Apenas por um detalhe que coloca esta tese abaixo.
- Qual?
- Veja as garras nas paredes. E o formato do buraco na parede.

Era evidente, mas ainda assim havia padrões errôneos, que por algum motivo escapavam da percepção de Gralha. Ele podia ver os detalhes periféricos mas não o todo, e isto o incomodava.

- Bagre Humano. – Disse apenas, laconicamente.

***

Em São Paulo, telefones e faxes não paravam de trabalhar na manhã seguinte. Os jornais estavam em polvorosa. Na USP, estudantes e professores só falavam em um assunto. Alheio ao que estava acontecendo, um reles habitante de Osasco City caminhava com passos indiferentes, até encontrar uma loira que conhecia muito bem.

- Carlos! Carlos!
- Oi, Andréia. Como vai?
- É horrível! Estão falando que é o fim do mundo! O que você acha?
- Ei, ei! Calma, acabei de chegar e estou com uma dor de barriga desgraçada! Do que você está falando?
- Meu Deus, vai me dizer que você não sabe?
- Sei do quê?

A bela loira empunhou o jornal, com a notícia estampada na primeira página:

- O Himalaia DESAPARECEU, Carlos! Você não lê jornal, não?

Imediatamente, Carlos Parducci começou a processar a informação. Ele não sabia o que dizer. Só sabia que o Homem-Grilo faria alguma coisa.

***

No passado, a Força Máxima atuou com entusiasmo no combate ao crime. Jovens, eles pensavam que nada poria detê-los... Dr. Fantástico, Devastador, Slady e Protetora. Mas isso foi antes de Ventus Malus surgir com sua trupe de vilões. Eles estavam empolgados em ajudar o Dinâmico R a derrotá-los... mas subestimaram a inteligência de Malus. Acabaram caindo numa armadilha, da qual apenas Fantástico e R sobreviveram.
O Doutor afastou-se do heroísmo e passou a estudar Física afim de compreender melhor os superpoderes e o Universo em que vivia. Tornou-se um dos maiores gênios de nosso mundo, mas ficou fora da ativa até que precisou se unir ao Bola de Fogo e aos regenerados Homem de Pedra e Mulher Fantasma, para conter o avanço de Fantar e outros monstros gigantes em Salvador. Juntos, eles formaram o Quarteto Excelente e conseguiram prender a gangue de Malus.
Mas a sombra da tragédia jamais deixou o Doutor. Uma sombra que parece pesada enquanto ele e sua equipe adentravam à Excelenave, na cobertura do Edifício Bexter.
O Doutor falava com Meteoro através do comunicador.

- Então, você mesmo viu acontecer?
- Sim.
- Sabe, é estranho...- disse o homem flamejante.. - ...já passamos por tudo que é tipo de coisa... mas, sabe... nunca imaginei que um dia iríamos lidar com o fim de tudo que existe. Digo, o fim oficial, sabe? Decretado pelo universo e tudo mais.

 À frente dos quatro, o portal aberto exibia um branco eterno.
Um nada glacial onde deveria haver planetas e galáxias.

- Os sensores indicam que o nada está se espalhando de maneira aleatória e progressiva pelo universo, Bola de Fogo. Os cabos do veículo explorador estão devidamente conectados, Ben?
- Claro que tão, Doutor, já conferi duas vezes. E essa porra do universo inventa de dar tilt logo hoje que tinha maratona Clint Estwood na tv a cabo. Tava planejando passar a noite vendo o véio Harry fuzilar meliante, não passar enfiado numa lata velha explorando um monte de merda branca.
- É a vida, meu amigo. Fantasma, computadores?
- Estão alinhavados, Doutor. É só embarcamos em dezoito minutos e contando.
- Pelamordedeus, Doutor, dá um sorriso, pelo menos. Cadê teu senso de humor?
- Receio que não tenhamos tempo para sorrir, Ben.

O monstro disforme não respondeu. Ele já vira seu amigo preocupado antes, mas desta vez, parecia diferente. E, se o Doutor Fantástico estava preocupado a tal ponto, significava que nem ele havia pensando ainda numa solução para o problema. A mera idéia disso ser verdade faz o Homem de Pedra sentir, pela segunda vez na vida, a sensação de fim. Um fim inevitável.
O Doutor suspirou, lembrando-se também de um outro longínquo vôo.

- Senhores, à nave. Dentro de dezoito minutos estaremos indo onde nenhum homem jamais esteve. Estaremos indo ao centro que deu origem ao nosso universo. Deter o processo entropia.
- Em linguagem de gente, Doutor. Pelo amor de Deus.
- Deter Deus e interromper o fim de tudo que existe.

Fim do Capítulo 01

 

“Na vida, como na arte, é tudo uma questão de perspectiva.” – Will Eisner.