Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 02
"A Teoria da Borracha Universal"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa
Foi prosaico. Foi em um banco de praça decadente e esquecido.
Um era negro, perto dos 60 anos, e aquele rosto de quem já viu tudo que há de ver na vida, enquanto folheava seu jornal matinal. O outro era um pouco mais jovem, talvez uma ou duas décadas, bigode bem cuidado, vigiava seu pequeno filho brincar com o sobrinho.
O mais novo se perguntou se ele já não estava, preferiu calar. Não gostava de discutir com idosos e seus pontos de vista inflexíveis. Preferiu sorver a atenção na brincadeira infantil à sua frente, um novo mundo onde estranhas onomatopéias verbais eram disparos de pistolas, e atingidos por balas imaginárias, cowboy bom e cowboy mal – que eram super-herói e super-vilão cerca de 10 minutos atrás - se recusavam a morrer.
O mundo poderia ser assim, pensou o homem. Mais simples. Uma brincadeira inventada.
Mas sempre há a política que estraga a poesia. E sobrevivência que estraga a simplicidade.
Um mundo cão.
Infelizmente.
Na verdade Shakespeare nunca disse isso. Mas não deixou de ser bonito.
Silêncio.
Estranhou a demora em concluir a frase, o velho se virou.
E o homem não estava mais lá.
Apenas seus sapatos no chão. Sapatos vazios posicionados onde antes haviam pés. Rapidamente o velho olhou ao seu redor, era impossível o homem ter sumido. Não tão rápido a ponto de desaparecer de todo seu raio de visão.
Então notou o silenciar da praça. Estava sozinho, as duas crianças também sumiram naqueles microssegundos.
A pistola de brinquedo repousando, solitária no chão.
Esqueceu o jornal e se pôs a correr para casa.
Uma história interessante para narrar nos anos vindouros se a Terra sobrevivesse.
***
Curitiba, 22:01h. O homem mais rápido do mundo cumprimentava o Paladino das Araucárias. Uma jornada de mais de 380 km completadas em 27 segundos.
Poderiam ter sido 12, mas o Velocista gastou um tempo vasculhando Curitiba atrás do amigo.
Estavam ambos nos arredores da Santa Casa.
Avaliando os rastros deixados na mata, rastros que até um cego poderia seguir, Gralha não se virou, apenas falou em tom duro e lacônico.
Havia uma raiva contida e indisfarçada no tom de voz.
Diplomacia e bom tato nunca fora o forte daquele homem, especialmente nos últimos anos.
O Velocista ficara em dúvida se deveria voltar as costas e correr de volta para sua cidade. Optou por bater o pé. Sentindo-se péssimo. Uma criança repreendida.
Deus do céu. Como ele se sentiu idiota. Agradeceu pelas máscaras que ambos usavam.
Pensou em dizer um “ei, não sou mais criança” mas não viu muita utilidade nisso. Calado, avançou pela trilha no bosque. Seguindo arranhões e espirros de sangue ressecado pelas árvores.
Apesar de tudo, Velocista ainda não vira muito sangue e cadáveres em sua vida. O contexto de tudo aquilo lhe incomodava muito ainda. Ainda teria que provar seu valor futuramente.
Calado, seguiu o vigilante pela trilha.
Uma trilha que até um cego poderia seguir.
***
Presídio do Ahú. Lopez apreciava a ajuda do Gralha, mas ainda assim era um detetive e tinha que fazer seu trabalho. Sem muitas pistas, decidiu visitar o homem que sabia tudo sobre o submundo do crime da cidade. Mesmo atrás das grades.
O guarda abriu a porta. Lopez e Vaz adentraram ao corredor, e de repente sentiram um cheio podre que os fazia ter ânsia de vômito.
Os três protegeram sua narinas. Não havia mais ninguém naquelas celas, apenas o vilão vivia ali, na solitária, sem nunca receber visitas.
Até hoje.
Ao chegarem até a cela e presenciarem a cena, o guarda não agüentou. Virou-se e começou a vomitar ali mesmo. Saiu correndo após deixar cair o molho de chaves, enquanto o detetive e seu parceiro estampavam surpresa e horror.
O fedor de limo, fezes, sangue ressecado e o cadáver apodrecido misturavam-se, mas esta era a menor preocupação dos dois enquanto fitavam o interior da cela, onde jazia o corpo de Craniano com a cabeça pendendo partida.
Restos de miolos impregnados na parede, misturados ao limo da fétida cela, sangue escorrendo pela mesma parede e encharcando os lençóis da cama, o corpo caído para trás, no chão, de barriga para cima, a perna esquerda dobrada, passando por baixo da direita, que ainda pendia com o pé em cima da cama.
Vaz pegou o molho de chaves e abriu a cela. Ambos entraram.
O parceiro não respondeu. Apenas sentiu temor pelo que o futuro irá lhes trazer.
O Himalaia desaparecera, sem explicação alguma. Os rumores e boatos espalham-se entre as pessoas. Um gás venenoso num campo de concentração, infectando todos os degraus da escala hierárquica da sociedade. E do degrau mais baixo ao mais elevado, o sentimento é o mesmo: medo. Medo e a certeza de que as coisas estão mudando. O medo palpável da única certeza possível sobre o futuro: não há certezas.
Naquela noite, duas videntes haviam cometido suicídio. Fazendo de seu sangue vertido, o prenúncio negro do futuro. Ninguém sabia o que estava acontecendo, mas sabiam que não poderia ser coisa boa.
***
Enquanto isso, em Osasco City, o espetacular Homem-Grilo, assolado pela maior diarréia dos últimos cinco anos, saltava sem ter percebido o desaparecimento do Shopping Osasco atrás dele, preocupado com o próprio umbigo... literalmente.
Enquanto divagava sozinho, ouviu um movimento incomum nas ruas. Bem, claro que, em Osasco, sendo quem ele é, o inseto já estava acostumado a este tipo de situação: dezenas de pessoas correndo pelas ruas, sem saber direito que direção seguir, fugindo com um desespero palpável, de algo que o herói não fazia a menor idéia do que poderia ser.
E as pessoas corriam em direções diversas, gritando nomes de pessoas, possivelmente de parentes ou amigos. Intrigado, e com seus intestinos em convulsões, o herói não conseguiu ficar só assistindo e desceu para averiguar.
Parou no meio do arrastão de gente e, corajoso, arriscou:
Nisso, uma mulher que vinha correndo de salto alto, olhando para trás, acabou esbarrando no herói.
A mulher seguiu caminhando. Em meio à multidão correndo. Grilo sentia-se perdido com a terceira guerra mundial acontecendo em seus intestinos.
Com essas e outras perguntas em mente, o inseto saltou, determinado.
O Grilo pára, abismado. Prédios começando a desaparecer à sua frente, aleatoriamente. Simplesmente, sumir, deixando espaços vazios entre as quadras. Apavoradas com o fato completamente incomum, as pessoas começaram a correr, alguns simplesmente brancos, outros chorando... foi quando o Homem-Grilo se deu conta de que não eram apenas os prédios que estavam desaparecendo, mas as pessoas também!!!
Sem saber o que fazer, empoleirou-se num dos prédios, olhando em todas as direções, tentando encontrar algum meio de ajudar. O nervosismo da situação e a guerra intestinal dificultavam seu raciocínio. Foi quando percebeu que o prédio onde estava também começava a desaparecer!
Puxando com força, o herói conseguiu tirar o homem do prédio antes que ele desaparecesse por completo, aterrissando com segurança do outro lado da rua. Quando sentiu seus pés em terra firme, o homem pôs-se a chorar...
Um menino solitário, que andava a passos vagarosos pela rua, inconformado com a situação, assustado com o desespero das pessoas. Seu rosto estava molhado de lágrimas, mas ele já não chorava, sua boca estava aberta porque ele não sabia o que poderia fazer para parar tudo aquilo, para que tudo o mais voltasse a ser como era antes. E enquanto esses pensamentos passavam pela sua cabeça, o menino não viu a multidão que vinha correndo em sua direção, prestes a atropelá-lo.
Mas o Homem-Grilo viu.
Com a agilidade que lhe é característica, o herói esticou-se da forma como pôde, agarrando o menino instantes antes da multidão desesperada passar por ali. Levou-o rapidamente até o topo do edifício, onde pôde parar e encará-lo. Por um instante, esqueceu a diarréia.
O menino começou a chorar novamente.
O Homem-Grilo não obteve resposta. O guri continuou a chorar e o herói não teve outra reação a não ser abraçá-lo. Apertou os olhos tentando controlar o corpo.
- Guri, estamos com um problemão. Aliás, dois, se eu não achar um banheiro agora.
***
Esgotos de Curitiba, 23:55h.
Um intrincado mecanismo de túneis, onde um homem menos preparado seria capaz de perder-se irremediavelmente.
Antiga rota de fuga de escravos e tráfego de bebida em tempos doutos, eram as veias pútridas ocultas sobre a derme pecaminosa da cidade.
Sem trocar uma palavra, o paladino das araucárias e o homem mais rápido do mundo vasculhavam os túneis. Sem pedir permissão, um Velocista incomodado e querendo provar seu valor arrancou em velocidade extrema indo vasculhar o labirinto fétido, assustando populações de ratos em seu caminho.
Um ruído parecido com um sônico se fez ouvir pelo Gralha, seguida pela lufada de vento. Ele havia, ao longo dos anos, memorizado cada passagem dos intrincados túneis.
Cada passagem.
Constava em sua memória todas as doenças que um homem poderia pegar nestes túneis.
98 ao todo, com variações que poderiam fazer este número chegar a 137.
Em poucos segundos, o jovem retornara...
Ainda irriquieto, o herói acelerou o passo, memorizando as instruções. Lhe desagradava Lopez ter avisado o Velocista. Ainda sem saber exatamente o porquê dessa irritação.
Ao todo, demorou seis minutos para percorrer o trajeto. Não deixou de ficar surpreso.
Imerso nas sombras, estava o Bagre. Sua mutação havia piorado cada vez mais ao longo dos anos. Já não havia vestígio algum de um corpo humano sobre a cabeça de bagre e sim, uma pele escamosa e garras, que agora se encontravam sujas de sangue. Havia entrado em uma tubulação sem saída.
Não havia sinal do Velocista. Não havia sinal nem sequer que ele havia estado lá nestes poucos momentos.
Ele se virou, com um misto de fúria e medo infantil. Banhado pela luz da lanterna do vigilante. Sua sombra, uma projeção assustadora na parede imunda de excrementos.
Gralha avançou mais um passo. Olhou as mãos sujas de sangue seco que tentavam bloquear a luz direta.
O imenso ser abjeto recuou mais um passo.
Seus olhos de peixe se estreitaram, prenunciando o ataque.
Com os anos de experiência antecipando a resposta do monstro, o vigilante puxou uma granada de gás do cinto enquanto pedia para que ele se entregasse.
Em vão. Nunca mudava.
Jogou a granada nos pés do Bagre, com uma mão, enquanto colocava uma máscara de gás, com outra. Aproveitando a surpresa e confusão do monstro, partiu pra cima dele, dando-lhe um cruzado de direita que arrancaria os dentes de qualquer um.
O grito foi mais de raiva do que de dor. Prendendo a respiração, o vilão revidou em um rápido giro, desferindo um golpe com suas garras que rasgou o uniforme e a pele do Gralha, na altura das costelas. Ignorou a dor, ocupando-se de rapidamente revidar. Seus poderes já não eram mais os mesmos... o poder das gemas diminuíram com o passar dos anos. Ele tinha que vencer seu inimigo rápido, antes que se cansasse.
Desferiu um murro no pescoço do animal, aproveitando um balé sincronizado para agarrar-lhe o braço e puxar-lhe.
Sua mente em modo de combate. Listando, agindo, selecionando. Afastando os pensamentos que lhe incomodavam.
Os dois caíram no chão, afundando nas águas de esgoto e iniciando uma luta selvagem, na qual um cansado vigilante não tem a menor chance contra um Bagre Humano gigante com adrenalina nas veias.
O vilão conseguiu, com mãos que eram como um áspero alicate de ferro, apanhar a nuca de Gralha em um momento e afundar sua cara na parede, quebrando a máscara de gás que ele estava usando e o bico. Mais uma batida na parede quebrou-lhe o nariz.
Ele não era lá muito criativo.
Depois que a nuvem de fumaça se dissipou, agarrou o derrotado Gralha pelo pescoço, apertando firme enquanto, com a outra mão, segurou sua perna e ergueu seu corpo acima de sua cabeça. Jogou ele com todas as suas forças, fazendo-o voar por vários metros até colidir numa parede no fim de um corredor que terminava numa bifurcação em “T”. O vigilante bateu de costas na parede e afundou nas águas podres, enquanto seu inimigo lhe deu as costas e começou a correr para o outro lado.
Num esforço incrível, Gralha levantou-se, enxugando o rosto e pondo-se a correr, ainda que mancando, atrás do Crocodilo. Cuspiu sangue nos três primeiros passos, mas continuou. A dor nas costelas era lacerante e ele ainda parecia sentir a mão do Bagre em sua perna, lhe apertando com tal força que ela começava a formigar.
Minutos depois, ele saía por um bueiro, torcendo para ter escolhido o caminho certo nos túneis. Infelizmente...
Cuspiu sangue novamente depois de respirar o ar frio da madrugada pela primeira vez. Sem sinal do inimigo.
Ouviu a voz do Velocista, fraca pelos túneis.
Vinha do extremo oposto para onde tinha fugido o Crocodilo.
Desceu novamente pela escada, de volta pelos esgotos, a lanterna seguindo a voz.
Andou cinco passos, até achar o compaheiro deitado entre as fezes. Estava em estado de choque.
Suas duas pernas haviam desaparecido.
***
Osasco City.
Os gritos continuavam, persistentes, nas ruas. Ao mesmo tempo, um Homem-Grilo já mais aliviado de sua agonia estomacal saía de trás de uma laje adjacente após uma rápida liberação de resíduos.
Para ser elegante dizer.
Suas pernas continuavam fracas e seus intestinos quentes. Ouviu o relato do menino. Cada palavra.
O herói silenciou por um momento, fitando a pequena criatura que o encarava, com medo e, ao mesmo tempo, com esperança. Um paradoxo que ele não estava nem um pouco tentado a procurar entender nesse momento. Só pôde pensar em deixar seus pensamentos e indagações para mais tarde.
Em seu íntimo sabia que o menino dizia a verdade. E isto era o mais absurdo. Simplesmente sabia. Como um dogma enraizado. Uma verdade sapiente.
O garoto baixou o braço, que permanecera com o indicador apontado para a direção das pessoas. Fez um beiço e baixou a cabeça, decepcionado. O Grilo se ajoelhou na frente dele:
Um tanto quanto relutante, o garoto obedeceu. O herói virou-se e começou a saltar, levemente trêmulo, na direção do edifício Bexter.
***
Saiu novamente pelo bueiro carregando o Velocista nas costas.
Neste momento, um carro se aproximava do bueiro por onde Gralha saiu. O carro parou, com os faróis acesos na direção deles. O homem saiu do carro:
Gordon obedece, eles colocam Velocista no assento de trás do carro. Lopez dirige e Gralha vai ao seu lado, aproveitando para descansar.
Gralha silenciou. Não podia acreditar.
“A vida caminha em círculos e é complicada demais para ser compreendida. Mas a nova vida está se tornando sinistra, plena de confusão e equívocos.” – Brett Ewins