Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 03

"Um Grande Pedaço de Nada"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

O sol não apareceu no nordeste hoje, como mais um prenúncio, simbolismo, maus agouros do dia. O céu nublado fazia par com o humor de alguns dos maiores heróis do planeta, os heróis conhecidos como Ultrax e Guepardo.
Calados, eles apenas observam a marca de giz na rua, que contornava um corpo o qual se encontrava caído havia poucos minutos. Um corpo agora a caminho do necrotério. O corpo de uma heroína, de uma companheira. Brutalmente assassinada e o mais estranho: através de tiros de um revólver.
A marca de giz, uma estranha obra de arte, a debochar deles em plena rua.
Uma marca em branco onde houvera vida.

- Bala nenhuma poderia matá-la – Se limitara a dizer Ultrax, imerso em suas próprias conjecturas que quebraram o silêncio com uma voz metálica enquanto os curiosos e policiais se dissipam da cena do crime.
- Foram apenas cinco tiros. Ela se regeneraria antes que o ferimento tirasse muito sangue.
- Exatamente.
- Vamos ver o apartamento dela novamente.

***

Eles não observam nada que já não tenham visto antes: o caos da destruição habitual, presente em móveis revirados, nas partes descoloridas das paredes brancas, em uma janela quebrada, nas cortinas pelo chão. Aparentemente, Velta fora surpreendia em seu apartamento e tentara fugir pela rua, quando foi abordada por alguém com alguma arma capaz de matá-la.

- Foram pelo menos dois atacantes. – Conclui Guepardo, agachado, procurando pistas.
- Sim. Araucária? Elas andaram se estranhando tempos atrás
- E quem mais?
- Araucária tem algum parceiro?
- Não que eu saiba. Bate-Estaca?
- Um pouco longe da terra dele.
- Bestial?
- Ah, diabos. Pode ter sido qualquer um! Como vamos saber?
- Só o que sabemos é que foram dois. Ou mais.
- Isso não nos basta, Guepardo.
- Mas é o que temos. Infelizmente, temos que esperar a necropsia.

Esperar. Nenhum herói gosta de esperar para fazer a justiça. Eles preferem agir logo, para preencher o vazio em seus âmagos.
Um vazio que corrói a alma.

***

Em Curitiba. Na sala do Detetive Lopez. A televisão, velha, caótica e irritante, noticiava mais uma vez a estranha morte da Velta.

- Quatro assassinatos em dois dias. – o Detetive revisou os fatos amassando o final de seu cigarro no cinzeiro e sorvendo um gole de café. – E somente de superseres.
- Não faz sentido. – Falou a voz rouca do Paladino das Araucárias, cansado da luta e das horas de trabalho incessante.
- Nada nesta cidade faz. Nada neste mundo faz. - Passou as mãos pelos cabelos, Lopez, o olhar baixo, pensando por um momento em semideuses coloridos que desafiavam a Física.

Estava mais cansado e amargo do que deveria aquela manhã. E a úlcera incipiente ameaçava. Deveria parar com o café. Sabia.

- Pode parecer absurdo, mas deve haver uma conexão.
- Coringa cai de um prédio. Craniano se mata. Bagre Humano mata Pirata Mental. Velta assassinada. Não há nenhum padrão reconhecível nesses crimes, Lopez.
- Em que você acredita?

Demorou um pouco a responder.

- Estou propenso a acreditar, num primeiro momento, em crimes aleatórios, sem necessariamente um responsável em comum. Não existem maiores similaridades entre eles além de vítimas peculiares e notórias.
- Mas você pode estar errado?
- Sim.

Lopez sorriu, cansado. Mais para si mesmo.
Pegou o jornal.

- Bem... estamos cansados, não vamos conseguir pensar em nada agora. Você está acordado há mais de 24 horas. O dia está amanhecendo. Por que não vai para casa... caverna... toca... sei lá onde você se esconde... e descansa um pouco? Conversamos à noite novamente.

A monolítica figura não respondeu e não encarou Lopez. Apenas deu um passo na direção da janela, mas se deteve, erguendo a cabeça a contemplar o canto do teto, como se procurasse algo. Mas seus olhos não estavam no teto.
Estavam no passado.

- Há algo me incomodando ainda.
- O quê?

Havia algo. Por que era tão difícil de falar?
Algo que sabia. Não factualmente, mas intuitivamente. Algo que jamais poderia deixar escapar.
Algo tão terrível que somente pronunciando saberia o que era. Aquela certeza atávica. Algo assustador demais para ser dito. Algo capaz de arruinar.
Em seu íntimo sabia o que era. O que ele encontrara na escada de incêndio volta a invadir sua mente, junto com outras coisas que insistiam a atormentar-lhe.
Mas não poderia falar. Não a um amigo.
O instante passou e ele voltou a caminhar na direção da janela.

- Nada. Conversamos à noite.
- A propósito. – Lopez interrompe. – Estou enganado ou você disse que tinha detido a gangue de Barrio Huerto na noite em que o Coringa morreu?
- Sim. Os prendi e os deixei amarrados no cais.
- Amarrados no cais. Sim. Então, eu ouvi certo.
- Por que?

Lopez deu de ombros, pegando outro cigarro em displicência estudada, mas prestando atenção na reação do vigilante à frase seguinte.

- Porque não os encontramos. Devem ter escapado.

Gralha o encarou por um momento. Pareceu incomodado. Por apenas um momento.
Ele já não deixava mais vazar suas emoções. Seja o que fosse que ele estivesse escondendo, estava realmente o preocupando.

- Me preocupo com eles depois. - Disse e foi embora, sem se despedir.
- Claro... depois... – Lopez divaga sozinho, passando a mão sobre seu farto bigode.

Caminhou pela sala, com o ventilador seguindo a zunir. 
Passou distraído os olhos pelo jornal do dia, a jazer ainda virginal sobre sua mesa, quase escondido sob uma pasta de arquivo.
Afastou a pasta, quase brincando com os dedos, e só então reparou na manchete principal, noticiando com estardalhaço a morte da Velta. Curioso em obter alguma novidade, abriu o jornal e começou a ler a notícia. Não contava nada que ele já não soubesse, mas ele leu assim mesmo. Logo depois, passou os olhos rapidamente sobre as demais notícias e uma, em particular, chamou-lhe a atenção:

NITRON CONTINUA DESAPARECIDO.

Por um momento, o fatalismo foi pesado.
Lembrou-se de um romance de Lovecraft, de nome esquecido, que lera na infância. Sobre um homem que agia de maneira preestabelecida em um livro, sem jamais conseguir romper aquele ciclo. Sentia-se assim, entendia aquele homem. Hoje mais do que nunca. A dimensão de seu horror e tragédia.
Sentia-se um personagem de uma ficção vagabunda.
Ele gastou um longo tempo lendo esta notícia de pouco destaque...
Era o que foi discutido pela internet para o personagem de ficção vagabunda fazer.

***

Um longo e difícil êxodo estava acontecendo no fundo do mar, semanas atrás.
O nível da água estava baixando a níveis desde já assustadores, e a Lemúria inteira havia desaparecido na última semana.
Seguindo o conselho dos sábios, após consultarem o astrolábio sagrado, milhares de atlantes começaram a maior evacuação em massa de sua história.
O povo avançava, penosamente pelo mar, na direção isolada das gélidas águas da Terra Jurássica, onde julgavam que por sua distância, estariam a salvo do epicentro dos caóticos acontecimentos.
Alguns, ainda guiados por parca ignorância, temiam as fossas abissais por onde passariam, acreditando que era ali que residiam os espíritos de atlantes covardes e traidores, a penar eternamente cegos após uma vida indigna. Mitos atávicos, que nem a ciência ainda conseguira extirpar.
Famílias levavam em gaiolas lulas fluorescentes, como uma bonita procissão submarina em sua caminhada. Lulas que, segundo as lendas, afastavam os espíritos desencaminhados a vagar pelas profundezas oceânicas. E sua luz, uma bússola sempre a indicar aos perdidos o caminho de casa.
Mesmo que essa casa estivesse agora a ser abandonada.
Solidão. Vazio.
Era uma jornada fustigada pelo frio e agruras profundas, penosa, alguns se permitiam ter fé, mas a grande maioria sentia um vazio enorme, um grande sentimento de perda que, no fundo, sempre esteve lá, em seus corações, durante todos os dias de suas vidas. Só agora, diante do fim iminente, é que esse sentimento vinha à tona, fazendo gelar seus corações e almas. Naturalmente, ninguém gostava de senti-lo. Mas não havia escolha.
Famílias seguiam. Movidas pela fé.
Velhos cômicos tentavam animá-las.
Hydroman seguia os seus iguais, sem saber ao certo o que fazer.

***

O Homem-Grilo continuava saltando pelos prédios.

- Estou aberto a sugestões. Totalmente aberto. Completamente aberto. Se ficar mais aberto eu viro do avesso. - Falou nervosamente enquanto se balançava por São Paulo, carregando o estranho garoto.

Dois quarteirões já haviam desaparecido.Eles ainda avançavam em direção ao Bexter, rezando para o edifício ainda estar lá.

- Apenas continua indo! Continua indo! - Gritava o menino, agarrado em suas costas, quase sufocando-o pelo pescoço. Não estivesse o mundo ruindo, com certeza ele estaria adorando aquele passeio.

Mas tudo que ele conseguia fazer, quando não estava chorando, era incentivar o desesperado Homem-Grilo a continuar:

- E não olha para trás.

Os gritos continuavam. Insistentes. Pertinentes.
Era difícil ignorá-los.
A hora de crescer estava chegando.

***

O penoso êxodo submarino continuava em sua marcha sofrida e lenta. Já durava dias,
Capitão Arthur comandava as máquinas de transporte, com mão de ferro. Ele próprio se permitia duvidar, nos momentos de fraqueza, do êxito da empreitada.
Se lembrava da lenda de Ron-ann, o atlante que desafiou os céus. Uma lenda, mas era o que tinha para retirar bravura do desespero que ameaçava tomar sua alma na hora mais negra do povo atlante.
As águas da Terra Jurássica estavam perto. Com seus olhos no turvo além, se lembrava da conversa que tivera com Ronan havia dois dias.
Ronan era velho, sábio para uns, louco para outros. Seu corpo não agüentara os rigores da viagem.
Viera a falecer esta manhã, um conceito relativo para os que viviam abaixo do alcance dos raios solares.

- A Atlântida não vai morrer- dissera o velho. Arthur se limitou a escutar com atenção quando isto foi narrado. O ancião falava pausadamente.
- Atlântida não é um reino. Atlântida é um símbolo. Rei jovem. Uma metáfora. Por isso, Atlântida não vai morrer. Metáforas não morrem.
- Atlântida é uma ilha de sabedoria, sabedoria divina afundada pelas guerras para dentro do leito do mais profundos dos oceanos, ali vivendo, escondida e soterrada.
- Atlântida é um símbolo. Uma metáfora da sabedoria e iluminação latente em cada homem, afundada em um mar negro de ignorância.
- Atlântida não é uma cidade. E uma condição. Uma metáfora. Uma história.
- E por isso Atlântida não morrerá.

Arthur avançava, no negrume profundo e oceânico.
As palavras do velho louco a pesar em sua alma.

***

Nos confins distantes do espaço sideral, as coisas não estavam muito diferentes. Os Scatron nada podiam fazer quando o vasto branco veio engolir o outrora glorioso Império Galáctico e apagar suas vidas, cercadas de tecnologia, da existência.
Não havia cartas na mesa para um universo que sempre se esquivou do fim com jogadas miraculosas de última hora.
Não havia probabilidades, havia apenas certeza.
Havia apenas o fim.
Klemnianos e Skreells, cientes do fim iminente, fizeram o que sempre fizeram.
Digladiaram-se mutuamente, até o fim, um culpando o outro pelo fim de tudo.
Morreram odiando.
Foram apagados odiando.
Nem mesmo a velocidade de Sideralman foi suficiente para salvá-lo do branco que era tudo. Seu último pensamento fora interrompido sem misericórdia.
Igual destino teve Cometa, que estava em viagem de regresso a seu planeta natal e sequer viu o que lhe atingiu.
Indiferente, uma figura gigante e de fome implacável, apenas aguardava seu fim. Foi apagado na entropia, seus últimos pensamentos insondáveis. “Muito tempo” - apenas sussurrou para o nada.“Já fazia muito tempo...”.
Meteoro juntou-se a Solar em Titã, ambos encarando o destino inevitável. Meteoro apenas rezou:

- Detenha-o antes que chegue à Terra, Doutor...
- O que é isso, Meteoro? Nós vamos para casa, agora?

Meteoro não conteve a lágrima. Apenas pôs a mão no ombro do amigo:

- Sim. Estamos indo para casa...

E foram tragados sem piedade.
Em outro planeta, deuses que lutaram bravamente em centenas de batalhas e não hesitariam em dar o sangue caso isso pudesse salvá-los, corriam em desespero, ainda que não soubessem para onde ir. Apenas um deles permanecia imóvel. Não em indiferença, mas em consternação...

- Bladger!!! Pelas chamas de Rel, que faz aqui, ainda parado???
- Não há para onde fugir, meu amigo. Eu sei o que se passa. Eu conheço o mal que atinge o Universo de ponta a ponta.
- Tu sabes? Então dizes, homem!!! Que podeis fazer para evitar tal desastre, que faz o Hagnarok parecer uma ceia comemorativa???

O valente guerreiro suspirou por um instante e engoliu um soluço, impedindo que seu amigo visse lágrima alguma escorrer sobre seu rosto.  Só então respondeu, sorrindo, amargo e irônico, para desespero do companheiro de batalhas:

- Nada...

Enquanto cidades de todos os tipos eram engolidas pelo nada, um setor do Universo ainda não atingido era visitado por quatro famosos imaginautas.

- Tá feliz, Doutor? Se tu tá, parabéns, porque EU tô me borrando todo!!!
- Há-há! O que o pessoal da rua Augusta ia dizer se te visse agora, hein?
- Calaboca, palito de fósforo! Se eu tô me borrando, tuas calças tão pesadas desde que a gente saiu da Terra!
- Silêncio, os dois! Será que nem no fim dos tempos vocês param com isso? – Mulher Fantasma volta-se para dar um merecido esporro.
- Curioso. – O Dr. Fantástico comenta enquanto faz algumas leituras no painel do veículo explorador.
- O que foi, Doutor? – Indagou sua fiel esposa.
- Detectei uma forte agitação de contra-energia nas proximidades. Devemos estar próximos da área onde ocorreu o fenômeno.
- Hã... borracha, acho que sei porquê!!!! – Exclama o Homem de Pedra, ao olhar para trás e observar o branco que se aproxima em velocidade espantosa.
- Por Copérnico!!! - se limitou a dizer Fantástico, sua inteligência nível 14 alarmada pelo que via nos sensores.
- Pé na tábua, Doutor!!!! Anda!!!!! Sai dessa apatia, já!!!

Inútil falar, o Doutor ainda tentava processar o que via... não seria possível.

- Extinção, Ben... não é, necessariamente, extinção...
- Não interessa, porrra!!! Eu que não vou ficar aqui pra ver!!!! Hiperserpaço, anda!!!!!!

E a nave começa a se movimentar cada vez mais rápido, mas não tão rápido quanto o desespero dos quatro tripulantes, ainda mais quando eles percebem que o branco que vem de trás também vem de todos os lados.

- PORRA, APERTA LOGO ESSE PROPULSOR, CACETE!!!

Por um instante tudo pareceu se desfazer.
Primeiro veio o empuxo da velocidade.
E a nave estava a salvo, mergulhada em uma dimensão paralela do Hiperespaço.
E logo, onde havia um Universo, há apenas um branco. Um vazio assustador. Um nada. E tudo o que resta, por algum motivo, é apenas o planeta Terra.
E talvez não por muito tempo...

***

Hydroman alegrou-se com seu povo quando a jornada finalmente cessou, hoje. Os olhos do velho Arthur não acreditavam no que viam.
Haviam conseguido, após todo o sofrido êxodo interminável.
Os atlantes haviam conseguido chegar nas gélidas águas da Terra Jurássica. O astrolábio sagrado não mentira, seu rei estava com eles.
Estavam em segurança, nenhum mal poderia se abater sobre suas cabeças.
Em uníssono ergueram as mãos em uma saudação ao seu senhor que os guiara nesta hora de dificuldade.
Targo, o selvagem, estava alheio à chegada de seus novos vizinhos, bem como dos demais acontecimentos que assolavam o planeta. Estava preparando um farto almoço cujo prato principal valia-se de ovos de pterodáctilo.
E foi neste exato momento de júbilo que, por ironia negra do destino, tanto os atlantes quanto a Targo foram pegos de surpresa... sendo instantaneamente apagados da existência. Onde havia um continente, agora havia apenas o mar. Onde haviam pessoas, restava apenas o nível da água continuando a baixar...
E o vazio a comungar com o nada...

***

Inevitavelmente, os heróis estavam reunidos. Juntos, haviam derrotado incontáveis ameaças. Sempre quando o fim era mais uma vez iminente. Capitão 7, sempre o líder, Gralha, o cansado vigilante, Dínamo R, o detentor do anel do poder, Gloriosa, a amazona impiedosa, e Kutang, aquele que se tornava um semideus ao pronunciar uma palavra. Estavam em pesar, devido à ausência do Velocista e Hydroman.
O Gralha não ouvira a preleção feita pelo Capitão 7. Já havia mencionado os assassinatos em Curitiba e contara como o Velocista perdera as pernas e fora levado às pressas para o hospital.
Mas ele não pensava nisso agora. Estranhamente absorto, sua mente vagava por portas lacradas, portas que sabia não querer abrir.
O cansaço físico e vozes fantasmas tomavam sua mente.
“O Palhaço está morto.”
“A capa está rasgada.”
“O que você achou?”
“Onde você esteve?”
“Velta assassinada.”
“Da última vez que o vi, ele estava falando em fugir...”
“Não fui eu! Você não entende!”
“O que você achou, herói?”
“Nós não encontramos a gangue.”
“Herói?”
“O que você achou?”
“Ei, herói?”
“O que você achou?”
“Herói? Gralha?”
“Gralha?”

- Gralha? Você está ouvindo? – Questionou o Capitão 7 enquanto todos os olhares se voltaram para o Paladino das Araucárias.
- Hm. Desculpe - murmurou, pedindo desculpas de maneira atípica- Noite difícil.

Kutang murmurou alguma piada quanto a isso. Sem efeito.

- Bem - Sete notava algo errado. Não era preciso super-poderes para isto - Os assassinatos que você reportou no comunicador e no arquivo compartilhado?
- Pode haver alguma relação entre o que está ocorrendo. Mas é muito cedo para dizer. Ainda preciso de mais dados.

Olhou para a mesa. O olhar fatigado. Não era o Gralha que conheciam. Alguma mudança se operava em seu interior.
Falou o que nenhum esperava um dia ouvir. As palavras cavernosas a boiar na imensidão do saguão.

- Sinto muito... neste caso... não tenho nada a dizer a vocês.
- Bem. – Interrompeu o Capitão, para desviar a tenção de todos sobre Gralha e voltando a se concentrar no problema – Havendo conexão ou não, precisamos definir nosso plano de ação. Como vamos investigar a situação e... o mais importante... se há meios de resolvê-la.
- E quanto tempo temos. – Completou o Dínamo. – Se o Himalaia já desapareceu e São Paulo está em pânico, não demora muito a cidades inteiras começarem a sumir.
- Acho que vamos precisar de ajuda? – Arriscou Gloriosa.
- Está sugerindo... – Completou Kutang – Que peçamos ajuda aos Defensores da Pátria e ao Quarteto Excelente?
- Exatamente.

***

Um portal se abre, vomitando para fora uma nave avariada... ou que sobrara dela. Havia apenas metade do veículo explorador do Quarteto Excelente. Caíram no hangar do Edifício Bexter, sem os trens de pouso habituais. A nave arrastou-se por vários metros, soltando faíscas devido ao atrito, até finalmente colidir na parede.
O Doutor e sua esposa sentiram o coice, mas haviam sobrevivido. A jornada finalmente terminara.
Doutor Fantástico e Mulher Fantasma. O casal excelente. O casal que sempre enfrentou crises cósmicas e devoradores de planetas.
O casal que não encontrava um chão no qual pisar. Os ferimentos doíam menos do que o vazio que os engolia. Desfizeram-se num choro mútuo, abraçados em meio a destroços.

- Oh, não... e-eles... eles... eles não...
- Ssshh, não diga nada agora, querido... não diga nada...

O brilhante Doutor Fantástico. O confuso Doutor Fantástico. O desesperançoso Doutor Fantástico.
Finalmente encontrara um mistério insolúvel.

***

A menos de três quarteirões dali, o Homem-Grilo aterrissava num prédio, um segundo antes dele desaparecer.

- Ah, não!!! – Desesperou-se o guri em suas costas.
- Calma, guri! Anos de prática... se segura!

Em uma manobra mirabolante, o inseto conseguiu agarrar-se a um fio de luz, girar seu corpo e impulsionar-se para frente. Mais algumas acrobacias logo os deixaram à frente do Edifício Bexter.

- Chegamos, guri. É aqui.

***

No QG dos Defensores, os maiores heróis da terra circundavam, com nervosismo na sala de reunião. A equipe já não se resumia mais à original. Além de Chuvisco, Transmutadora, Ogun, Calibre, Marasmo, Srbek, Portal, Aruanã, entraram para o grupo outros heróis que, outrota independentes, tiveram melhor eficácia atuando em equipe. Dois deles eram Ultrax, um homem da tecnologia, e Guepardo, que estavam cuidando do caso de Velta. E o outro, que logo se tornou líder do grupo, era o Capitão Brasil. Ele já era o sétimo ou oitavo indivíduo a usar este nome, mas certamente era o mais determinado em tornar o Brasil um país melhor para se viver.
Ultrax acabava de expor seu relatório a respeito do assassinato de Velta.
Buracos de bala em seu corpo.
Não fazia sentido.
Obra de um gênio do assassinato.
Havia sido atacada em seu apartamento, sinais de luta evidente, e assassinada há cerca de duas quadras dali.
Esta era a única e insuficiente certeza.
Ogun, impaciente, bateu pesadamente na mesa, esbravejando:

- E que importa??

Todos olharam para ele.

- Estamos diante do próprio fim do Universo e insistem em especular sobre a morte de uma mera mortal??? Ou muito me engano, ou todos vocês perderam o juízo!!!
- Calma, Ogun... – Portal tenta apaziguar, pondo a mão no ombro do companheiro de equipe. - ...sei que seus companheiros orixás também desap...

Sem aviso, Portal é surpreendido com um potente golpe do orixá, que o faz voar por sobre a mesa e atravessar uma das janelas da mansão, indo parar no jardim.
Um gesto de violência inesperada.

- Cala-te, cão ignóbil!!! Não ouse falar de meus companheiros!!! Tu não compreendes...
- Ogun, se acalme!!! – Ordena o Capitão Brasil – Todos voltem aos seus lugares! É óbvio que temos uma crise a resolver!!! Discutir entre nós só vai criar mais problemas!!! Sei que acabamos de voltar de uma missão, estamos todos cansados e logo surgiu um problema pior ainda, mas não vamos...
- Hã.... senhor, desculpe interromper...
- É importante, Rodolfo?
- Receio que sim, senhor. Eu teria comunicado antes, mas como vocês estavam em missão...
- O que aconteceu?
- É o patrão Srbek, senhor...
- Ah, não. – Exclamou a Transmutadora, enquanto Portal retornava, limpando o sangue no nariz. – Srbek não estava bem depois da lavagem cerebral que o Dr. Bxtruvik fez nele. O que aconteceu, Rodolfo?
- Deixe o homem falar, Transmutadora. – Suplica Chuvisco.
- Bem, lamento informar que... o Sr. Bek... desapareceu. Ele sumiu da mansão já fazem... alguns dias...

***

Em Belo Horizonte, um detetive fora de sua área entra numa lanchonete mal-frequentada. Sentido os olhares acompanhando sua trajetória até o galpão, ele puxa do bolso do paletó o distintivo de Curitiba.

- Olá. Meu nome é Lopez. Estou investigando um desaparecimento. Já devem ter vindo procurar este homem aqui.

O tom de voz era firme. Embora polido como apenas aqueles que não são nativos sabem fazer.

- Ah, não. De novo? – O barman faz cara feia ao reconhecer o rosto de Nitron da foto. – Já estiveram aqui a semana toda, qualé?
- Desculpe. Só gostaria de fazer algumas perguntas, não deve demorar.
- Eu já falei pros teus amigos, cara. Ele vinha sempre aqui. Da última vez, estava acompanhado com um outro cara, isso é tudo que sei.
- Como era esse outro cara?
- Eu já disse, mais de uma vez! Vocês não têm arquivo, não? Memória, pelo menos? Era aquele cara da tevê, daquele grupo, lá...
- Grupo? Grupo de rock?
- Não, não! Grupo de herói... como é mesmo o nome?
- Quarteto Excelente?
- Não, o outro.
- Defensores da Pátria!

Bateu na própria testa, simplório e animado.

- Isso! Era desse aí. Era aquele magrinho, moreno...
- Portal?
- Não, cara... não viaja!! Esse era herói daqui, aquele mineirinho invocado...
- Srbek?
- Isso, esse aí. Ele estava com o Srbek...

Fim do Capítulo 03

"Eu odeio o branco das páginas." - Lourenço Mutarelli.