Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 04
"Apenas a Verdade"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa
A coceira de uma semana já atingia níveis exorbitantes. Uma comichão impregnada, uma faiscar onipresente. Nas costas, nos pés sujos, na barba fétida carregando seus detritos acumulados, no escroto negro e seboso, em tudo, em tudo, era ele, Roberto Figueiredo. Outrora Roberto Figueiredo. Outrora tivera um nome. Outrora foi considerado pessoa.
Hoje era chamado de Lariço. Mendigo. Louco. Sendo evitado pelos olhares. Incômodo para os transeuntes. Descortês em sua insistência em não morrer, em continuar em pé a vagar, oferecendo á vista alheia a sua infelicidade. Ferida social que band-aid algum seria capaz de ocultar.
Comichão e fome em forma de homem.
O velho Lariço.
Ninguém sabia que duas décadas atrás, a pilha de sujeira humana havia sido um dos gerentes de uma grande empresa. Caído em desgraça. Bode expiatório para corrupção.
Esmagado por mecanismos negros.
Não mais jantares luxuosos. Não mais prostitutas de luxo.
Uma banana achada no lixo no almoço. E fuga de violações bestiais em plena praça.
Mas sua sorte ia mudar. Sabia disso. Sentia isso, ainda mais depois do que encontrara no lixo naquela manhã promissora.
Afastou na lata um velho boneco Donald, sujo e com a cabeça quebrada. Descartado por alguma criança crescida demais para fantasia, e abaixo da cabeça, estava aquilo. A princípio, lhe pareceu um amontoado de carne crua, talvez apodrecida e por isso, havia sido jogada fora. O sangue jorrava por baixo da carne, escorrendo pelo latão e encontrando o chão imundo do beco, misturando-se com gemas de ovos quebrados e cerveja esparramada entre cacos de vidro. Robert olhou melhor e viu que tratava-se de uma cabeça. Uma cabeça humana, cuja face encontrava-se disforme, mas suas deformações não pareciam oriundas de queimaduras, apesar de parte da pele parecer queimada. Robert se lembra de ter visto aquele rosto antes.
Na noite anterior, aquela cabeça se encontrava num bar mal-freqüentado nas redondezas, acima do pescoço de seu dono: o anti-herói conhecido como Carrasco.
Cambaleou pelas ruas, com a carga preciosa que lhe daria todos os martelinhos do mundo. Sorriu em alegria desdentada com a idéia.
Qual não foi sua surpresa ao aproximar-se do bar e ver um tumulto em volta de uma ambulância, na qual jazia o corpo ao qual a cabeça pertencia.
Lariço arriscou olhar para dentro do bar e contemplou paredes queimadas, milhares de cacos de vidro pelo chão, e sangue. Muito sangue.
Aproximou-se do atendente, o Sr. Valentino, um ex-presidiário que fazia de tudo para evitar problemas, sem muito sucesso.
Mostrou a cabeça do Carrasco, como um troféu. Como ouro para comprar comida. O grego contemplou a carne fétida e podre e sentiu uma ânsia imediata. Virou para o lado e correu para o banheiro para vomitar.
O mendigo não entendeu. Ficou contemplando a cabeça. Abriu um largo sorriso enquanto seus pensamentos repetiam para si mesmo: "Eu encontrei você."
Solene, ao encarar o nada.
Uma atração de circo mambembe.
***
Edifício Bexter.
O menino encolhia e esticava as pernas, tentando disfarçar o nervosismo.
Ele estava sendo sincero, palavras de nada adiantariam naquela situação.
Ele havia conhecido o Homem de Pedra e o Bola de Fogo. Parecia impossível que eles tivessem morrido.
O silêncio pesado reinou na sala. Não bastasse as notórias mortes, ela ainda permanecia preocupada com o marido, que trancara-se no laboratório desde então e permanecia imerso em seus próprios estudos.
O menino voltou a encolher os pés, enquanto Grilo abraçou a mulher, um abraço fraterno. A única coisa que poderia fazer.
O menino não quis olhar para os bonecos de Francisco, o filho do casal, soltos ao chão.
Eram quatro paredes. Tudo parecia revestido de súbita e pesada melancolia. Eterna melancolia que só a morte pode apagar, colher, ceifar.
Um silvo pneumático se ouviu, o menino não ergueu os olhos. Finalmente, duas horas depois de terem chegado ali, a porta do laboratório se abriu. O Homem-Grilo e Mulher Fantasma contemplaram-no. Mas duma maneira como nunca fizeram antes. Ele, Dr. Fantástico. Um dos maiores gênios do planeta. Absurdamente, em estado de choque. Com um esforço inimaginável, deu dois passos para fora da laboratório. O olhar distante, perdido em algum lugar, as olheiras latejantes estampadas em seu semblante, a barba por fazer.
O garotinho deslizou pela cadeira e ficou de pé no chão, aproximando-se dele junto com o Homem-Grilo:
O Grilo reluta em criticá-lo, mas dada a gravidade da situação, o faz assim mesmo:
Dr. Fantástico não havia perdido apenas os seus companheiros de equipe, aqueles que eram como uma família para ele.
Havia perdido a pedra angular de seu mundo.
Havia perdido a sua religião.
Dr. Fantástico parou, de costas para os dois. A esposa a seu lado, não tirava os olhos dele. Virou-se lentamente a contemplar o garoto:
O Homem-Grilo e o garoto se entreolharam.
***
Mansão dos Defensores da Pátria.
A nata está reunida. Simplesmente, são os maiores heróis que o mundo já conheceu. Estão todos ali:
Capitão 7, Gralha, Dínamo R, Gloriosa, Velocista e Kutang, Capitão Brasil, Chuvisco, Transmutadora, Ogun, Calibre, Marasmo, Portal, Aruanã, Ultrax e Guepardo. Também compareceram os Y-Men... Raio Negro, Garota Mental, Besta, Tormenta, Noctívago, Colosso, Gatinha e seu líder, o Professor Carlos Yavier, um poderoso telepata. Lobo Guará também era membro da equipe, mas não estava lá.
Havia outros, independentes, que ainda estavam para chegar. A sala de reuniões se tornou pequena para abrigar tanta gente. Precisaram desmontar a mesa e colocá-la num canto, junto com as cadeiras. Ficaram todos de pé, assistindo aos maiorais - Capitão Brasil, Capitão 7 e Gralha - explicarem a situação, revisando os pontos até agora e colocando novas peças no quebra-cabeças.
- Obrigado a todos por terem vindo. - Começou Brasil. Parecia, mais que um soldado, sereno como um guerreiro oriental - Não vou me demorar com as formalidades tradicionais. Passo a palavra ao Gralha, que vai revisar o que temos até agora.
- Obrigado, Capitão.- Pausou, medindo suas palavras, na sua sonoridade lúgubre- Ainda não sabemos qual é a causa dos desaparecimentos, mas... desconfiamos que tenha algo a ver com os recentes assassinatos de indivíduos singulares no nosso mundo. O primeiro foi o Palhaço da Agenda e logo em seguida, o Pirata Mental e Craniano, todos em Curitiba. Apesar da morte do Coringa parecer suicídio, iniciei investigações por conta própria, mas tudo o que descobri é que o Bagre Humano parece estar envolvido na morte do Pirata. Em seguida, como vocês bem sabem, pereceu a Velta. A equipe do Capitão Brasil está empenhada nas investigações e, enquanto falamos, Ultrax e Guepardo foram averiguar sua necropsia.
O Paladino das Araucárias falava enquanto o Capitão Brasil o ajudava a ilustrar os fatos em um monitor da sala de reuniões do tamanho da parede, mostrando fotos das vítimas.
- Ainda não sabemos se há relação com os demais, mas o Detetive Lopez, de Curitiba, descobriu que Nitron, um herói capaz de reproduzir a habilidade dos animais, dentre outras coisas, também está desaparecido. E que o último a ser visto com ele foi Srbek, dos Defensores.
- O quê? - A Transmutadora se surpreende com o comentário.
- Quer seja herói ou não, ele se tornou um suspeito. Além disso, o Capitão Brasil notou a falta de uma cápsula do Protótipo HPY. Trata-se de um gás encolhedor que...
Por um minuto, a heroína pareceu ultrajada. Um rubor rápido irrompeu em sua face.
- Ele estava mentalmente instável, mas eu não acho que ele seja um assassino! E por que roubaria... - protestou.
- Por favor, Transmutadora. – Interrompeu Brasil. – Deixe o Gralha terminar.
- Obrigado, Capitão. E por fim, acabamos de saber do mais recente assassinato, ocorrido ontem à noite: o homem conhecido como o “Carrasco”.
Gralha concluiu a frase e as fotos dos seis preencheram o monitor.
- Testemunhas de um bar nos arredores do Broklynn afirmam que foi briga de bar. O homem envolveu-se com um velho conhecido de vocês.
As 6 fotos desapareceram do monitor e, em seu lugar, surgiu a foto do Lobo Guará.
- Lobo? - Surpreendeu-se o Professor Y.
- Sim. - Responde Gralha, enquanto os cochichos se proliferam entre os heróis. - Como podem ver, temos uma gama bem inusitada de suspeitos.
Ao lado de Lobo, surgiram as fotos de Srbek e do Bagre Humano.
- Não pode ser. - Arriscou Raio Negro - Ainda que tenha se envolvido numa briga com esse Carrasco, Lobo não o assassinaria gratuitamente.
- Assim como Srbek - Retruca o Gralha. - E assim como o Bagre jurava que era inocente quando o confrontei.
- Me desculpe, mas... - Interrompeu Tormenta - Como sabem que as mortes estão relacionadas? E o mais importante, o que isso tem a ver com a ameaça atual ao mundo? Ao que me concerne, esta deveria ser nossa prioridade, por mais que me doa dizer.
Fez uma pausa e encarou os olhares preocupados dos maiores heróis do planeta.
Era o fim do mundo, alguns pensaram.
E será que em vida haviam feito o bastante? Haviam calado a fome? Enfrentado injustiças que punhos não saberiam resolver?
Não era um pensamento confortável.
Se o mundo sobrevivesse...
Se o mundo sobrevivesse, fariam tudo diferente.
***
Edifício Bexter.
Dr. Fantástico, Mulher Fantasma, Homem-Grilo e o garoto estavam sentados na mesa da cozinha. Silêncio. Mulher Fantasma ausente de lágrimas, lágrimas que se foram todas. O Grilo sem mais nada a dizer. E o garoto esperava alguma resposta daquele que chamam de “O Dr. Fantástico”. Alguma esperança. Algo que dissesse que o mundo iria continuar existindo. Que ele não morreria agora.
Soluções para ameaças. Soluções impossíveis. A droga a que este universo era juvenilmente viciado.
- Então... então... é verdade.
Foi tudo que ele conseguiu dizer. E o cientista simplesmente desapareceu, restando apenas um homem aflito e desesperado ante a impossibilidade de salvar o mundo uma vez mais...
- É... tudo... verdade... - Pôs-se a chorar como uma criança que perdera os pais. Um choro descontrolado, que surpreendeu até mesmo sua esposa.
O Homem-Grilo não se conteve, tudo falhara, o fim estava próximo, não haveria nulificador nem viagem no tempo ou Gongo Gama de Kanjar Ro para apelar. Tudo falhara, ponto factual.
Levantou-se. Saiu da cozinha e retirou a máscara, tentando enxugar as lágrimas... mas não conseguiu. Prostrou-se de joelhos e também começou a chorar.
Em breve iria se levantar.
E ligar para sua família.
Mulher Fantasma abraçou o marido enquanto ele se debruçou sobre a mesa, não parando mais de chorar.
E o garoto voltou a sentir aquele vazio congelante no seu peito...
***
Madrugada anterior.
Já não existe mais um Sol nem uma Lua, apenas uma esfera de lama a girar no nada branco.
Um homem baixo, com cabelos espalhados para os lados e as costeletas por fazer, cambaleava bêbado na direção de um beco escuro, afastando transeuntes de seu caminho.
- Aquele puto... eu mostrei pra ele... aquele puto... achou que eu não podia com ele... mas eu mostrei... eu...
Seu aspecto geral, assim como seu linguajar, era deplorável.
O policial parou na esquina, olhando para ele. O baixinho exalava algo. Um cheiro de perigo.
Um cheiro de morte. Algo inexplicável e atávico, capaz de gerar um medo primitivo.
"A corça e o predador". O pensamento pulou na mente do guarda. Tão claro quanto a imagem de um livro infantil.
Um casal oriental apertava seus passos, se afastando da cena.
A caça e o caçador.
- Quequié seu ...seu...puto!- Cuspiu a palavra com asco e um olhar vindo do inferno, ao perceber o olhar do guarda vacilante - Vai...encará...vai...logo eu??? Não vim da Amazônia pra cá... à toa...
Cambaleou.
O policial entendeu o recado. Preferiu não arriscar. E seguiu andando.
Esperava ver um novo amanhã, ainda que a impossibilidade de haver um crescesse a cada instante.
Cansado e ferido, a arma humana entrou no beco e prosseguiu cambaleando em obstáculos imaginários e não...
- ...ainda... sou o melhor... eu mostrei pra ele... - ...até tombar, inconsciente.
Sozinho, abandonado. Acreditando ser algo que não é. Mas ele repete isso para si mesmo constantemente, todos os dias, como que para se convencer. Mesmo agora, desmaiado, ele balbucia as mesmas palavras...
- Eu sou o melhor... sou o Lobo Guará... o melhor...
***
Necrotério.
- Eu também não acreditei. - Disse o médico legista, tirando as luvas cheias de sangue, as descartando como um maço de cigarros vazios.
Ultrax e Guepardo olhavam intrigados, reles balas de 38 numa bandeja ao lado do corpo da Velta.
- Como pode ser possível? - Disse baixo e perturbado o incrédulo Defensor. Sua mente computando possibilidades. Passeando por velhos problemas de balística.
- Venha... - Respondeu o companheiro, pondo a mão em seu ombro. - Vamos sair daqui. Obrigado, doutor.
Saíram no corredor e não sabiam que rumo tomar. Decidiram ir até a recepção, onde poderiam servir-se de um copo d´água.
- Não faz sentido, Guepardo. Nada mais faz sentido... o mundo está acabando e nem ao menos sabemos o porquê.
Queria um gole.
Aproximou-se do bebedouro, pronto para saciar sua sede. Policiais passavam de lá para cá, com seus relatórios. Uma fachada, um momento de normalidade. Um único momento.
O mundo não fazia sentido. Acabando, e eles com seus relatórios. Afoguem-se, nadem em seus malditos relatórios.
É um bom meio de não ver a morte chegar.
Sigam investigando, roubos, mortes, estupros individuais. Não olhem para a morte coletiva que ocorre. O roubo de uma existência. O maior dos roubos. A maior das violações.
Enquanto se curvava para beber a água do bebedouro, Guepardo prestou atenção na televisão ligada.
- Ultrax, acho melhor você ver isso...
***
Mansão dos Defensores.
- Acredito que devemos nos dividir para tentar capturar estes suspeitos e, com isso, tentar encontrar uma solução para todo este mistério. Ou, pelo menos, parte dele. - Sugeriu o Capitão Brasil. - As equipes já estão formadas. A Liga de Heróis do Capitão 7 se encarregará de capturar o Bagre humano. Os Defensores da Pátria continuarão investigando a morte de Velta e procurando por Srbek. Talvez chamemos alguns membros reserva para ajudar. Os Y-Men podem encontrar facilmente Lobo Guará com o Detector Y...
- Receio que não. - Interrompeu Yavier. - Durante nosso último confronto com Magnus, o Mágico, ele conseguiu avariar o Detector consideravelmente.
- Hmm... muito bem. Agora... - Novamente, o Capitão foi interrompido, mas desta vez, pelo chamado de seu comunicador. Era o Ultrax.
- Capitão. Desculpe interromper a reunião, mas sugiro que liguem a Tv.
Um homem trajando uma fantasia com asas, notoriamente feio, esbraveja, impotente, arrastado por policiais.
O noticiário estava anunciando a prisão do Carcará, cujas digitais estavam marcando todo o apartamento de Velta.
- Não fui eu!!! Foi o Relâmpago!!!! O Relâmpago!!! Aquele calhorda me incriminou!!! Vocês estão levando um homem inocente!!!
A âncora. Elegante. Imparcial. Asiática.
- A polícia surpreendeu o Carcará dormindo num hotel há poucas quadras do apartamento de Velta. Ela foi encontrada morta por tiros de 38, um mistério que, até o momento, permanece insolúvel. Vale lembrar que a heroína havia se aposentado depois que toda a sua família morreu num acidente, anos atrás...
Imagens de uma heroína. Uma amiga. Pequena - parecia impossível imaginá-la assim... parecia que por toda a vida ela havia sido... a Velta. As imagens passam. Jovial. Titânica e loira.
Um apartamento devastado.
Dois defensores saindo de um departamento, no mar de pessoas e repórteres.
O âncora. O novo âncora.
- Obrigado, Lídia. E, por falar em Defensores da Pátria, vamos dar uma olhada em como está a situação do lado de fora da mansão dos famosos heróis, onde se encontram reunidos não apenas os Defensoress oficiais, mas também vários outros heróis.
Repórteres a rondar a Mansão.
- Eles reuniram-se para tentar descobrir o que está acontecendo em todo o globo e se há algum meio de evitar a catástrofe final em nosso planeta. No momento, parece que nenhum pronunciamento ainda foi feito, mas continue conosco para saber as novidades...
- Esse povo todo está aí fora? - Disse o Dínamo R enquanto os heróis assistem ao noticiário no telão da sala de reuniões.
Um espectro negro se abatia, com suas longas asas sobre a sala.
- Muito bem. - Disse o Capitão Brasil, desligando o monitor. - Ultrax está a caminho e deve nos trazer novidades. Continuando de onde estávamos, acredito que podemos definir um prazo para voltarmos a nos reunir e averiguarmos os resultados das missões. Acho que 24 horas é bastante coerente, o que me dizem?
- Se tivermos todo esse tempo. - Diz uma voz da porta. Todos viraram-se para ver e contemplam Dr. Fantástico, Mulher Fantasma, o Homem-Grilo e o garoto. - Eu tenho novidades.
Todos silenciaram enquanto Dr. Fantástico caminhava para junto do Capitão Brasil...
***
Melissa era uma garota bonitinha. Loira como um comercial de margarina.
Pequena em seus quatro anos de idade, observava com curiosidade as reações de um mendigo. Magrelo, observando junto com uma multidão, o noticiário em uma loja de televisores usados.
- Não fui eu!!! Foi o Relâmpago!!!! O Relâmpago!!! Aquele calhorda me incriminou!!! Vocês estão levando um homem inocente!!!
- Mãe.
- O que é, Melissa?
-
Aquele mendigo tá ficando maior. Gozado, né?
Se perguntou no topo de sua ingenuidade se foi algo que ele comera. Sua mãe, assustada, segurou sua mão mais forte.
- Relâmpago... Ventus Malus... Ventus Malus!!! Uuuuuurrrrrrrrrrrhhhhhhhhhhh...
Gritou ele enquanto seus músculos começaram a crescer, rasgando suas roupas e revelando a pele rosada começando a mudar de cor... chamando a atenção do povo ali aglomerado, que começou a correr por amor às próprias vidas...
Tratava-se da Besta Humana, um homem de aparência grotesca e pavio curto, que escondia o parentesco com uma certa heroína. Atualmente, sua aparência retornava à forma humana, como há anos ele não era capaz, desde o acidente. Mas um mero pico de adrenalina era capaz de reverter todo o esforço de se parecer normal.
- Eles mataram minha prima!!! Agora, eu vou MATAR eles também!!!
O monstro golpeou o chão com fúria, provocando uma potente onda de choque que tirou carros estacionados do lugar e derrubou pessoas, mas não feriu ninguém gravemente. Silenciando todos os televisores. Depois, começou a correr, tomando impulso para saltar... e pulou longe, desaparecendo na direção do Rio de Janeiro...
Restando apenas homenzinhos caídos ao chão.
E vidro quebrado como as tênues ilusões.
***
Ultraz e Guepardo conversavam com a polícia.
- Olha, vamos interrogá-lo e repassaremos o que descobrirmos, mas por favor, não interfiram no processo.
- Pode nos adiantar o que já descobriu, policial? - Pede Guepardo.
O policial baixo e católico, coçou os óculos. Parecia mais baixo ainda perante os dois titãs.
Parecia apenas humano.
- Bem... tudo que sabemos é que o Carcará provavelmente tinha um comparsa. Pode até ser esse Relâmpago de quem ele falou, mas não vamos tirar conclusões precipitadas. Além disso, testemunhas das redondezas dizem ter ouvido o barulho de tiros. Inclusive, uma senhora daquele prédio disse ter visto um policial correndo. Ele deve ter tentado ajudá-la, mas não conseguimos descobrir quem é. Não havia nenhum dos nossos por essas redondezas naquele horário.
- Hm. Muito obrigado, policial. Manteremos contato.
Os heróis se afastam enquanto tornam a especular sobre o crime.
- É melhor voltarmos logo para a mansão e compartilharmos tudo isso. Com certeza, o Capitão vai querer ir atrás de Relâmpago.
- Certamente.
Partiram.Restando em suas pegadas a sensação que havia algo muito maior por trás disto.
Instinto.
Fica difícil se livrar dele depois de algum tempo.
***
Os Guerreiros da Tempestade estavam em guerra contra uma gangue de vilões que estavam tentando se aproveitar da situação para tomar o poder. Na frente do Palácio do Planalto, via-se trovões, rajadas e seres multicoloridos digladiando-se. Entre os vilões e os políticos temerosos, apenas aqueles heróis.
Não por muito tempo, já que heróis, vilões e o próprio palácio, simplesmente desapareceram. Junto com toda Brasília.
E o país mergulhou no caos.
***
Tóquio, Japão. Dois terços da população simplesmente desaparecera de uma hora para outra. Os japoneses não viam tal tragédia desde Hiroshima e Nagasaki. Muitos correram desesperados enquanto os edifícios mais modernos do mundo viraram vento. Mas alguns, os mais sábios, ficaram exatamente onde estavam. Pois sabiam que não tinham para onde correr.
Amigos de faculdade esperavam olhando o filme preencher seus corações. Juntos numa última sessão de cinema.
Políticos corruptos e membros da Yakuza cometiam seppuku tentando apaziguar deuses vingativos.
Suas cabeças caíam deitadas no solo, unidas em um sono eterno.
***
Oceania. A ilha inteira da Austrália também fora riscada do mapa, levando consigo toda a Micronésia, Polinésia e boa parte da Milanésia. As tribos locais acreditavam que a ira dos deuses finalmente se aplacara sobre a humanidade.
Amantes adúlteros se abraçavam. Crianças choravam na noite branca.
Velhas senhoras destruídas pelo Alzheimer se apagavam. Sem saber o que houve ao seu redor.
Acostumadas em seu limbo branco.
***
Na Rússia, os poucos heróis que serviam ao governo sequer encontraram forças para sair de casa, quando souberam que não havia mais uma população nas ruas. Nem em Moscou, nem em nenhuma outra cidade. Sair de casa para quê? Para defender o país? E sem o seu povo, será que existe uma nação para ser defendida?
Uma população inteira que desaparecera.
Um páis fantasma governada por palácios vazios.
Não existem nações quando o mundo acaba.
Todos são iguais na morte branca e indiferente.
Tais perguntas afligem o coração dela quando olha pela janela e vê apenas a neve nas ruas desertas. E a aflição apertava ainda mais quando olhava para o céu e via um branco ainda mais pálido, prenunciando o fim de tudo o que existia.
Ela sempre amou a Rússia.
Ainda que detestasse o próprio passado...
***
A Europa estava fragmentada, literalmente. Muitos países sucumbiram, desaparecendo por completo, deixando apenas um conglomerado de ilhas gigantes flutuando no oceano, enquanto ainda havia um. Por quanto tempo, ninguém sabe.
Jatos partem no nada branco.
Sem terem onde pousar.
Sem um acima e um abaixo.
Velhos pistoleiros atiram no nada branco.
Cowboys outonais e fora de ambiente, num duelo ao pôr-de-sol apocalíptico.
***
Toda a América do Norte foi se fragmentando gradualmente, como que pagando pelos seus pecados. Heróis já não podiam fazer nada. O chão foi cedendo e caindo num abismo branco sem fim, obrigando a população a correr para o sul para tentar salvar suas vidas... em vão. Famílias foram separadas, amigos perderam amigos, inimigos aproveitaram para se empurrar nos abismos sem fim e caírem juntos, abraçados para a morte.
Eram brinquedos. Bonecos destruídos por uma crescida criança caprichosa.
Histórias que eram apagadas de um livro. Letras que se derretiam, deixando apenas as páginas em branco nuas e expostas.
Histórias desinventadas.
A fragmentação estacionou em metade do México. Os desaparecimentos de todo o mundo haviam cessado, ao menos por um tempo.
Mas o mundo estava morrendo...
***
Na frente da mansão dos Defensores, metade das pessoas ali aglomeradas havia desaparecido, roupas a caírem, vazias e inabitadas ao chão. Aguçando ainda mais a ira e a frustração dos que restaram. Um dos curiosos ali presentes, completamente furioso, agarrou as barras das grades que cercavam a mansão e pôs-se a gritar, fomentando a fúria dos presentes:
- Ei, seu bando de aberrações!!! Estamos morrendo aqui fora, vocês não vão fazer nada??? Vão ficar aí discutindo a porra do sexo dos anjos??? Estamos morrendo, cacete!!!! Estamos morrendoooooooooo...!!!
Lá dentro, Dr. Fantástico começava a falar.
- Isso é infantilidade. - Disse um surpreso Portal. - como assim "nunca enfrentamos nada parecido com isto"? Somos o dream team, Dr. Fantástico, o esquadrão classe A, os veteranos que já passaram por tudo na vida.
Voltou a se recolher, ousado, braços cruzados, se recusando a aceitar o que ouvira. Dr. Fantástico sorriu, amargo.
Hah.
Infantilidade.
Era justamente esse o problema.
- Muito bem. - Continuou, paciente, após a interrupção. - Meteoro havia me procurado para falar dos desaparecimentos que estavam acontecendo em todo o Universo. O “nada”, como assim chamamos, estava se propagando aleatoriamente pelo cosmos, destruindo tudo em seu caminho. Formamos uma expedição para investigar. Foi inútil. Em nossa jornada, perdemos...
Os presentes viram a dificuldade de Fantástico em falar e seus olhos vermelhos deixavam claro que ele havia chorado bastante. Falou pausadamente, tentando conter as emoções, mas continuou:
- ...o Homem de Pedra... e... Bola de Fogo. Apenas eu e... Mulher Fantasma... retornamos.
A sala inteira, que já se encontrava em silêncio, pareceu segurar a respiração. Não se ouvia um som que não fosse a voz de Dr. Fantástico.
- Quando voltei, tentei recuperar os dados coletados com uma sonda quando estivemos no espaço. A sonda foi destruída e por isso, demorei. Mas depois de muito tempo, consegui. E descobri que o Universo foi... desintegrado.
Parou um instante, tomando fôlego para continuar.
Não acreditava nas próprias palavras. Mas era verdade.
Todos esticaram os ouvidos e pescoços, prestando o máximo de atenção para ouvir a conclusão. Dr. Fantástico olhou para a sua esposa uma vez, depois encarou o garoto, que assistia atentamente às explicações, segurando as mãos juntas, abaixo do pescoço, como se rezasse por alguma coisa.
Finalmente, Dr. Fantástico olhou para todos e revelou a bombástica verdade:
- O Universo não é Real.
“Usando linguagem, imaginação e vontade, nós criamos a Realidade.” - Alan Moore.