Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 05

"O Fim"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

O silêncio imperou na Mansão dos Defensores da Pátria. Denso. Pesado.
Estava dito. Nada mais podia ser feito. Era lógico. Uma certeza que todos sentiam.
Mas ninguém queria, em sã consciência, admitir. Porém, dito, posto em palavras, soava
muito mais terrível. Era impossível se esquivar e negar agora.
Era um momento terrível. Muitos desejaram serem possuidores de uma outra vida, uma outra existência mais mundana e ordinária.
Apenas por não ter que atravessar aquele momento.
Os segundos passaram devagar. Carregando milênios entre eles.

- O que você quer dizer com isso, Doutor? - Perguntou o Capitão Brasil. Seu tom de voz disfarçando um vacilo interior.
- Exatamente o que você ouviu, Capitão. Nós não existimos. - Seu tom de voz estava mais firme, voltara a ser o cientista de outrora- E nosso mundo não é real.- A palavra chicoteou. Estalou. Uma nova onda de murmúrios e comentários varreu o salão.

O Espírito da Pátria Amada colocou a mão em seu ombro.

- Doutor... eu sei que você está abalado com a morte de seus...- ela foi prontamente repelida.
- Não!!! Não é esse o ponto! Eles não estão mortos! Eles nunca existiram! Percebe o que isso significa? As implicações disto? A matemática e a física confirmam isto... meu Deus, é tão claro, como nunca vimos isto antes? A resposta é óbvia: por que não deveríamos saber! Por que nossos olhos eram mantidos fechados propositalmente para as incongruências científicas que nos cercam!
- Doutor, o que está dizendo? Quer dizer que nós não estamos aqui? Dizer que nós nunca vivemos nossas vidas... é absurdo!

Doutor Fantástico sorriu, subitamente malicioso.

- Tão absurdo quanto um homem que fica 40 anos congelado e é reanimado com calor sem os cristais congelados do seu sangue explodirem suas veias, Sr. raios-ultra?

O Capitão se calou. O Doutor realmente sabia do que estava falando, embora poucos presentes naquela sala realmente entendessem.

- Nós vivemos nossas vidas, sim, sem dúvida... mas elas não são reais! Estão percebendo?- Encarou olhares confusos, certo de que estava parecendo insano a todos os presentes. Desviou o rosto, procurando uma maneira de fazê-los ver a aterradora e cruel verdade.- Oh, Deus... como posso fazê-los entender?
- É verdade. - Interrompeu o garotinho, para surpresa de todos. - Ele está dizendo a verdade.
- E quem é você, menino? - Questionou o Capitão Brasil.
- O sonhador. – Respondeu, apenas. Aquela simples palavra carregada de terrível. Tocando cordas terríveis na alma. – Um sonhador num mundo de sonhos. Um mundo que sempre pôde ser salvo por vocês. Um mundo onde tudo é possível. Exceto quando o sonho começa a morrer... quando alguém deixa de acreditar!

Mais silêncio. Lentamente, as coisas começam a fazer sentido na cabeça de alguns... o processo estava iniciado. Assentamento.

- Então... - Arriscou a princesa amazona - Quer dizer que nosso mundo não é o mundo real? Que somos apenas fruto da imaginação de alguém em um verdadeiro mundo real? E porque esse “alguém” está se esquecendo de nós... nós seremos destruídos???

O garotinho olha para Gloriosa. E responde, simplesmente:

- É isso aí.

O silêncio foi terrível.

- Desculpe-me, filho... mas é difícil de acreditar em você. - Diz o Capitão 7, ajoelhando-se na frente dele.
- Eu sei... mas é verdade, porcaria! - Diz ele, batendo o pé. - Não entendem? O Dr. Fantástico já disse que a matéria não existe aqui! E que outra explicação vocês vão dar praquele branco lá no céu?

Eles não sabiam responder. Ninguém sabia. E isso dá a certeza de que eles precisavam. A triste, amarga e cruel certeza... de que eles não passam de...

- Personagens de gibis. - Todos olharam para Dínamo R. Sorria. Sem graça ou alegria. - É o que nós somos, não? Não passamos... de reles personagens de histórias em quadrinhos...claro. - Sorriu, com iluminação triste, disfarçando lágrimas que ele não saberia dizer do que eram. - World´s Finnest, Detective Comics, O Gibi, Almanaques de Quadrinhos, Amazing Fantasy... fantasia colorida. Tudo faz sentido agora...
- Amazing Fantasy é uma droga. - falou o menino.

Era verdade. Em seu íntimo, todos eles sentiram, com pesar, que aquilo era verdade.

- Mas então... de que adianta? - Perguntou a Transmutadora, dando voz aos pensamentos gerais - Pra quê ficarmos aqui, discutindo de que jeito vamos salvar o mundo dessa vez, se ele nem sequer existe? Pra quê ficarmos nos desgastando em batalhas contra vilões sádicos ou tramas cósmicas, se nada disso é real?

Era uma questão pertinente.
Alguns sentiram vontade de chorar, outros não sentiam nem as próprias pernas. Apenas um homem melancólico, que estava se resguardando, sabia o que fazer. E caminhou na direção da porta.

- Aonde você vai, Gralha? - Indagou um ainda baqueado Capitão 7.
- Parou. Respondeu sem se virar.
- Quer o mundo seja real ou não, ainda temos um trabalho a fazer. Podemos ficar aqui nos lamentando ou seguir o cronograma. Quem quiser vir comigo, venha. O tempo está passando.

Respondeu e saiu da sala, com pressa, dizendo as últimas palavras quando já se encontrava no corredor:

- Nos vemos em 24 horas, Capitão Brasil.
- Imediatamente, Capitão 7, Gloriosa e Kutang seguiram atrás dele. Antes de continuar, porém, o Capitão 7 parou na porta e olhou para trás, vendo se mais alguém começava a se mexer.
- Vocês não vêm?
- O silêncio respondeu. Frustrado, o maior herói do planeta deixou a Sala de Reuniões.
- Depois que eles saíram, os outros heróis que compartilhavam a idéia de que era inútil resistir, começaram a se movimentar para fora da mansão.

Em silêncio. Um funeral para as almas. Para a esperança. E principalmente, para a fé. Transmutadora, Dínamo R, Marasmo, X-Man e alguns outros logo ganharam os céus ou saltaram os limites da mansão, buscando um alívio, um conforto que jamais viria. Ultrapassaram a multidão de curiosos e repórteres sem dizer uma palavra. As pessoas silenciaram ao verem eles passarem, ainda mais confusas do que outrora.

- Dos que restaram, Ogun começou a caminhar na direção do Capitão Brasil.
- Capitão... lutei bravamente contigo em mais batalhas do que posso me lembrar. Todavia, perdi meus irmãos... minha fé... e acabo de descobrir que não sou um verdadeiro orixá. Apenas um fruto da mitologia e das crenças humanas. Eu não sou mais nada, Capitão. Espero que tu entendas...
- Ogun, eu... - Pensou em dizer “espero que reconsidere”, mas se pôs no lugar do amigo. E mudou de idéia. - ...entendo.

Ogun deixou a sala e foi seguido por Portal, que cumprimentou o Capitão Brasil uma última vez, em respeito.

- Capitão.
- Portal.
- Desculpe.

Depois de muito hesitar, o Besta também começou a caminhar na direção da porta.

- Até você?
- Eu... sinto muito, Capitão. - Respondeu o inumano, um instante antes de olhar para o Professor Yavier e encarar seu olhar de reprovação, temperado com uma certa dose de compreensão. - Eu sinto muito mesmo...

Yavier aproveitou o momento para olhar a seus alunos e alertar:

- Ele não é mais um Y-Men. Mas vocês, sim. E não tolerarei mais nenhuma deserção. Neste momento de discórdia, temos que nos apegar ao que nos resta.
- Ao quê, Herr Professor? - Indagou Noctívago.
- Ao sonho, meu amigo. Sempre ao sonho...
- Mais alguém? - Perguntou o Capitão Brasil aos que restaram na sala.

Neste momento, Ultrax e Guepardo retornaram, surpresos ao encontrar a sala quase vazia...

- Desculpem o atraso, pesso... al? - Encararam os olhares penosos de cada um deles. - Hã... perdemos alguma coisa?

*** 

Atordoado, Guepardo saiu da Mansão pelos portões da frente.

- Guepardo está saindo!
- Vamos ver se conseguimos, finalmente, uma declaração...
- Guepardo!
- Guepardo!
- Olhe pra cá!

Flashes pipocando.

- O que está havendo?
- Por que todos os heróis foram embora?
- Guepardo...
- O que foi decidido?
- Aonde você vai?

Todos ficaram quietos quando o herói começou a falar para todos os microfones, um demônio trajado de super-herói prestes a destrancar a assustadora caixa de pandora:

- Eu estou indo para casa. Morrer com minha família, em paz.

As pessoas se afastaram para dar passagem a ele, sem saber ao certo o que fazer e o que significavam aquelas palavras, enquanto concluía:

- Sugiro que vocês façam o mesmo.

E de repente o mundo era um lugar muito, muito pequeno.

***

Numa cidade tranqüila no interior do Rio de Janeiro, as notícias fervilhavam pela primeira vez em anos quando o rádio não parava de fazer alarde. Sentado do lado de fora de sua casa, o Sr. Killberry ouvia atentamente...

-  O que o Guepardo quis dizer com isso? Será que os heróis não encon... - O rádio tremeu uma vez. - ...a solução? Será que n... - tremeu novamente. - ...realmente condenado? Será que finalmente enc... - E uma vez mais, junto com toda a terra, tirando o Sr. Killberry de sua cadeira. - ...destino final?

“Malditos punks marcianos”, Pensou o sr. Killberry.Ele nunca tinha confiado em punks. Sabia que todos vieram de Marte. E agora isto, eles iam acabar com o mundo. Ah, se ele não tivesse penhorado sua espingarda... ia salvar o mundo à bala. Eles iam ver só.
Novos tremores. Pensou que fossem as cólicas. Mas não eram. Enfiou a cabeça pela janela, já em pé novamente e conseguiu ver, ao longe, um monstro disforme desaparecer no horizonte... e por um instante, pensou em dias mais calmos...

*** 

De volta ao lar, Dínamo R percorreu os céus de sua cidade. O porto com seus barcos à vela, os angares e braços e abraços por onde ele passara... se tudo era uma ilusão... havia sido uma boa ilusão. Uma bela e perfeita ilusão. Por um momento, percebeu que Deus havia sido bom com ele. Sentiu-se em paz com este pensamento. Acolhedor como um mantra materno. Sentiu-se terno. E sentiu um forte ímpeto de passar os momentos finais com a família.
Seu irmão estava entre os desaparecidos... só lhe restava seu tio Ricardo e a tia Luísa. Fazia anos que não os via... mas não importava... Era o mais próximo que possuía de uma família. Deixou sua cidade para trás e voou uns poucos quilômetros para o interior, até aterrissar numa pequena fazenda nos arredores de Goiânia. Os comuns membros da família Souza foram pegos de surpresa quando a figura imponente desceu dos céus para ir parar ali, na entrada da casa deles.

-     M-Meu Deus! - exclamou tio Ricardo, um homem robusto, já de idade, as mãos calejadas pelo serviço da roça - É o Dínamo R! N-no que posso ajudá-lo, senhor?

Era estranha aquela reação entre familiares. O Dínamo R, sempre soara como um herói divinizado aos olhos daqueles homens comuns. O herói aproximou-se do homem velho, enquanto Luísa e seus três filhos avançaram para lá, com curiosidade. Todos eles vêem o herói retirar a máscara e sorrir, com um olhar estranho, repleto de paz, melancólica e afetuosa paz...

-     Oi, tio...

O velho demora a entender. Mas quando o homem à sua frente diz a palavra “tio”, ele esforça-se em reconhecer aqueles traços. E, embora envelhecido, ele sabe de quem se trata.

-     N...Nando?

*** 

A bordo do jato, um quarteto procurava não conversar. Procuram evitar tocar no assunto, mas cada qual a seu modo, eles acabam entrando em um conflito silencioso em suas mentes. Eram os últimos cowboys, indo enfrentar seu último duelo ao pôr do sol.
Gloriosa ainda não conseguira digerir a idéia. Repassou em sua mente o conceito de mitologia com o qual sempre vivera. Era estranho como era adequado. Mas fosse real ou não, ela era uma guerreira. E jamais fugiria à luta.
Kutang simplesmente não sabia o que sentia. Fã assumido das histórias em quadrinhos, ele parecia ainda mais empolgado ao perceber que estava realmente fazendo parte de uma, como sempre sonhara. Mas sentia pesar por seus companheiros, e sentia-se culpado por estar feliz neste momento que, para eles, era desolador.
Para o Capitão 7, a aceitação era mais difícil. Ele só era um herói porque alguém quis que ele fosse. Isso não foi fruto da educação dada por seus pais, ou de sua boa índole. Nem de seu amor por Luísa. Foi tudo arquitetado por alguma mente insana no verdadeiro mundo real. E isto o frustra imensamente, como nada havia conseguido até então. Em seu íntimo, era difícil de aceitar a idéia.
Ironicamente, o homem que sempre permanece em silêncio foi quem quebrou a quietude desta vez:

- Eles sabiam.
- Como disse? - Perguntou Sete, puxado abruptamente de seus pensamentos.
- As vítimas. Todos eles sabiam que o mundo não era real.
- Está sugerindo que eles foram silenciados? - Arrisca Gloriosa.
- Sim.
- Por quê? - Perguntou Kutang.
- Esta é a questão. - Concluiu Gralha, sinistramente. - Aparentemente, alguém não queria que soubéssemos a verdade até que o fim estivesse consumado.
- Alguém que quer todo o Universo destruído. - Completa Gloriosa.
- Quem pode ser? Bxtruvik? Malus? Tem tantos... - Arriscou o Capitão 7.
- Mas... - Interrompeu Gralha. - Se é isso é verdade, por que ele não matou o garoto?
- Que garoto? - Pergunta Kutang.
- O garoto que sabia a verdade.
- Hmm... talvez ele não soubesse dele. - Respondeu o Capitão 7.
- Ou talvez tenha esquecido. - Falou Gloriosa, se contradizendo em seguida. - Não, pouco provável...
- Ou talvez... - Gralha respondeu à própria pergunta - O garoto seja mais poderoso do que ele...

Enquanto avançam na direção de Curitiba, eles continuavam a especular...
Abaixo, pessoas seguiam suas vidas.

*** 

Uma favela no Rio de Janeiro.

- Que diabos te deu, Relâmpago??? Sai sem falar nada e ainda mata a Velta!!! Logo a Velta!!!
- Eu já disse, Ventus!!! Não fui eu! Deve ter sido o Carcará mesmo! Ele só falou aquilo para me incriminar!!!

O líder da gangue recriminava seu subalterno, enquanto Komandante Yá exercitava-se numa sala adjacente, dando murros em um saco de pancadas improvisado com algumas centenas de sacos de areia e destroços metálicos do sucatão adjacente, o que provocava uma barulheira infernal e fazia a favela inteira tremer. Vera, uma transmorfa, era a única mulher do grupo, substituindo o falecido Karontino. Assistia à conversa sem saber dos paradeiros de Camaleon e do Sr. Erro.

- Komandante!!! Pare com esse maldito barulho aí atrás!!! - Disse antes de voltar-se para Relâmpago novamente. - Suponha que eu acredite. Que diabos você foi fazer no Nordeste???
- Ventus, pela vigésima vez... eu não faço a menor idéia... Komandante! Não ouviu o chefe? Pára com essa porra de barulho!!! Eu não consigo ouvir o som da minha própria voz!!!
Mas eu já parei!!!

Ventus e Relâmpago olharam um para o outro.

- Já parou? Mas que...

E ouviram o barulho uma vez mais, aterrissando destrutivamente à sua frente, provocando uma onda de choque que fez todo o chão tremer. Era o Besta Humana.

- Finalmente!!!! Eu sabia que vocês estavam aqui!!! Agora, o Besta Humana vai esmagar!!!
-
Se sobrevivermos, Relâmpago, me lembre de te agradecer!- Resmungou Ventus antes de ser atingido por um murro que o fez atravessar todas as paredes da base, indo parar nos pés do Cristo Redentor.
- Ventus é um idiota mesmo! - Disse a mulher enquanto se transformava em uma harpia e avançava na direção do monstro. - Usar o mesmo esconderijo de sempre!

O golias não se deteve, batendo as palmas com fúria, o que fez Vera voltar para trás com força e, de quebra, afastar Relâmpago, que começava a levitar. Feito isso, preparou-se para avançar e golpear Relâmpago com toda sua força, mas Komandante surgiu atravessando a parede atrás dele e o surpreendeu com um ataque repentino.

A batalha foi levada para fora. Dois gigantes digladiando-se com uma selvageria bestial ao pé da grandiosa estátua que servia de cartão postal para o Rio. Sr. Erro e Camaleon logo viram o que estava acontecendo e assumiram posição de batalha.
O vilão já tinha enfrentado o Besta Humana antes, mas nunca o vira desta forma... tão selvagem... tão irracional. Isso acabou lhe dando medo... e o medo o deixou descuidado... Komandante recebeu um soco no estômago, o que lhe abalou ainda mais. O Besta tirou vantagem, agarrando sua cabeça... e a girando 180º.
Vera recuperou a forma humana e foi até o líder da gangue, tentar ajudá-lo.

Estou bem, Vera... agora, só me ajude a... Vera!!! Cuidado!!!

O aviso veio tarde. Ventus viu o corpo do Komandante vindo na direção da mulher, mas pega de surpresa, ela não teve tempo de se transformar em uma fumaça que fosse. Morreu esmagada com o corpo do amigo, arremessado pelo furioso monstro disforme, que vinha acertar as contas com Ventus...

- Vera!!! Você matou Vera!!! Desgraçado!!!

Sr. Erro e Camaleon entreolharam-se, certos de que não haveria grandes chances de vitória. Olharam ao redor e viram centenas de pessoas atropelarem-se umas às outras para fugir do morro enquanto não fosse tarde demais. De repente, essa pareceu ser uma boa idéia
Desesperado, o vilão começou a disparar rajadas que arrancavam a carne do Besta Humana. Mas a dor aumentava ainda mais sua fúria... e isso lhe dava mais força. Bateu no chão com os dois punhos, desequilibrando seu inimigo. Ventus mal caiu no chão e o monstro já estava sobre ele. Deu um murro apenas, que esmagou sua cabeça no chão.
Relâmpago saiu dos destroços do escondeijo atordoado, ainda com os ouvidos zunindo, atravessando o rombo na parede aberto pelo Komandante e o Besta Humana. Mal teve tempo de sair, o gigante estava aterrissando atrás dele, destruindo de vez o teto e uma das paredes da base. O vilão cambaleou para frente, tentou manter o equilíbrio, mas acabou caindo, de costas para o chão.
Aterrorizado, ele viu o monstro se aproximar. Se ainda houvesse um Sol, uma sombra estaria crescendo sobre ele...
Não hesitou em erguer o corpo de seu inimigo e parti-lo em duas metades, como se não fosse nada. Banhado em sangue, pôde ver os outros dois fugindo em meio à multidão. Olhou para o Cristo, estático, apático, indiferente como sempre esteve, em meio a todo o caos que se espalhava sobre seus pés.
Ao menos uma vez, ele serviria para alguma coisa...

*** 

Arredores de Goiânia. A Família do Dínamo R.
Tio Ricardo falava sobre seus filhos, o pequeno Leandro, de três anos, Sara, uma magricela de 16, e José, o mais velho, o antigo devorador de pulps e gibis, que trabalhava na cidade.

- ...e o José está feliz, conseguiu um emprego no jornal da cidade e já está lá há um bom tempo.
- É mesmo, José? – Rafael Fernando, alter ego do Dínamo, sorri para o primo ainda um pouco envergonhado. - E o que você faz lá?
- Estou treinando para ser repórter!

Na televisão passava uma reprise de Bonanza. “Bonanza, deus do céu...”, pensou “Nando”, como era carinhosamente chamado. Bonanza, chá e biscoitos... era impossível não se sentir em casa.O homem escolhido para ser o Dínamo R sentiu-se bem. Pela primeira vez em muito tempo. Não sentiu-se bem por ter vencido um inimigo ou salvado o Universo. Sentiu-se bem por ser um homem comum.
Então era esta a vida que tinha trocado.

- Que bom, José. Que bom... - Tomou um gole do chá que esfriava na xícara, sentindo pena do garoto, sabendo que seus sonhos jamais seriam realizados.
- E o que vocês decidiram, seu Dínamo? - Perguntou o aprendiz de repórter, empolgado. - Ouvi dizer que os heróis estavam reunidos! O que aconteceu?
- Heh. Pode me chamar de Nando, primo. - Respondeu ele, hesitante em continuar. Mas decidiu que sua família tinha o direito de saber. - Bem... não foi decidido nada. Os heróis saíram de lá porque... porque viram que não tem solução para essa crise. Não dessa vez.

Toda a família se espantou com a afirmação e tia Luísa rapidamente se adiantou:

- Mas... por quê? O que está acontecendo, afinal de contas?

O bravo Dínamo R viu a aflição nos olhos de todos eles e tremeu. Seus pêlos se eriçaram. Um calafrio diferente percorreu sua espinha.
Deixou a xícara de lado e começou a tentar lembrar das palavras do Doutor Fantástico...

*** 

Hospital de Curitiba.
Homem Lua e Homem de Plástico avançaram pelos corredores na busca por um companheiro. Depois da tradicional frustração burocrática, conseguiram descobrir o quarto onde estava o Velocista. Mas se surpreenderam ao encontrar o quarto vazio...

- Oh, não!
- Era só o que faltava...
- Ele também desapareceu!!! E... por completo dessa vez!
- Eu tô aqui. - Disse um cabisbaixo corredor, atrás deles. Ambos os heróis respiraram aliviados ao ver o amigo, ainda que ele estivesse numa cadeira de rodas, sem as pernas.
- Ufa! Velocista... como você está? - Perguntou Plástico.
- Levando... estava dando um “rolé” para testar a cadeira... parece... que vou ter que me acostumar...cara, minha vida sexual vai ficar uma droga depois disto...- Sorriu, amargo.

Ficaram quietos por alguns instantes.

- Calma, amigo... - Disse Lua, pondo a mão sobre seu ombro. - Isso não vai durar muito tempo.
- É sério? - Velocista estranhou a afirmação. - Os maiorais já encontraram um meio de resolver a situação? Eu já esperava! Bem... - Esfregou as mãos velozmente, produzindo um estranho efeito sônico - Qual é o plano da vez?
- Hã... – Os recém-chegados se entreolham enquanto Lua seguiu dizendo: - Na verdade, não. Na verdade, nós viemos aqui para te deixar a par das... más notícias...

Depois que eles entraram no quarto, uma enfermeira curiosa passou a ouvir o estranho diálogo...

*** 

Goiânia. Noite.
Os pneus cantavam. Quase atropelou uma ambulância em seu Fusca velho, dirigindo como um demônio extasiado.

- Olha por onde anda, cretino do caralho!!! - Gritou o homem da ambulância. O autodenominado Foca, o jornalista que – segundo suas fantasias de futuro, claro - nunca perderia uma matéria, esticou a cara para fora de sua carcaça móvel e enferrujada. Uma das suas particularidades.
- Eu tenho um furo!!!- Exclamou, empolgado.

Um furo. Era assim que ele encarava o fato. Vendo ele como um furo bombástico não teria tempo de enlouquecer pensando em todas suas implicações. Nestas horas, deveria ser bom ser jornalista.
O jornal da cidade continua em polvorosa, há 2 dias, sem parar. Este cenário turbulento é visitado por José Souza, que entrou correndo e soltando a fumaça branca pela boca, devido ao frio.
José Souza.
O Foca.
Rapidamente, tentava chamar a atenção dos repórteres com os quais tinha mais contato, mas muitos deles estavam ocupados demais para dar atenção às dúvidas de um pretenso novato.
José perdeu a paciência...

-     EU SEI QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO COM A PORRA DO UNIVERSO, CACETE!!!

 ...e a redação silenciou...
O Foca nunca perdia uma.

***

Mansão Yavier.

Muito bem... nosso papel é encontrar e capturar Lobo Guará. Como membro mais perigoso da equipe, sugiro que tomem extremo cuidado. Ele pode estar descontrolado, à mercê de seu lado animal... então, ataquem primeiro e perguntem depois.
Senhor... - Indagou Raio Negro. – O Detector Y não parecia tão avariado quando...
Mas está. Tentarei concertá-lo enquanto estiverem fora. Agora, carreguem o jato com o que julgarem necessário e podem partir.- Falou, com uma energia e uma irritação fora do comum.

O Professor afasta-se, deixando todos os seus alunos preocupados. Todos estavam evitando tocar no assunto. Raio Negro, o veterano, via aquele sonhador se arrastar para o quarto com uma melancolia que não lhe era pertinente. Também, pudera. De todos ali presentes, talvez Carlos Yavier fosse o que mais tinha motivos para sofrer. E não obstante isso seja verdade, ele continuava firme em seus ideais.
E eles não poderiam traí-lo. Por isso, obedeciam prontamente e começavam a buscar coragem em algum lugar dentro de si mesmos, para encarar sua última e funesta missão.

***

Jato dos Defensores da Pátria. Capitão Brasil, Ultrax, Chuvisco, Calibre e Aruanã seguiam o rastro de radiação de Relâmpago e, igualmente à equipe do Capitão 7, viajavam em silêncio.
Brasil já estava tenso antes de saber toda a verdade declarada pelo Doutor e pelo garoto sem nome. Agora, além de saber que a morte de seus entes queridos... de inocentes que ele não pôde salvar... que nada disso existiu realmente... e que todo seu sofrimento foi apenas fictício, ele tem de lidar com a deserção de grandes heróis. Mas não pode culpá-los por isso.
Ultrax só não ri da situação por ser trágico. Mas a ironia de tudo isso lhe dá vontade de gargalhar. A tecnologia alienígena, seus problemas com o álcool, as preocupações de manter uma identidade secreta, toda a farsa... tudo inventado, tudo arquitetado para divertir uma massa de pessoas que ele nunca vai conhecer.
“Que futilidade”, pensou, por um momento satisfeito com o próprio pensamento.
“Que estúpida futilidade”.
Chuvisco tentava não pensar muito em tudo aquilo. Ele finalmente encontrara lugar para sua vida na equipe. Finalmente tinha um propósito... e alguém queria tirar isso dele. Se pensasse demais nisso, iria chorar sem parar e enlouqueceria.
Calibre não se importava. Para ele, não fazia diferença se o mundo era real ou não, lhe interessava era um bom quebra. Ou, ao menos, era essa a imagem que ele passava. Que pensamentos realmente residiam em seu inteiror?
Aruanã, por outro lado, era um fiel guerreiro, que jamais desistiria. “Conte comigo” foram as palavras que o Capitão Brasil ouviu dele. E ele foi o primeiro a dizê-las. Enquanto ele pensava que o melhor jeito de morrer era morrer lutando, olhou sem perceber para a devastação através do vidro da janela.

- Meu Deus!!!

O Besta Humana havia regredido sua transformação. Podiam distinguí-lo a quilômetros de distância apesar disso, já que era o único ponto negro sobre imensos destroços brancos. Ele estava sentado, encolhido, sobre o que restara do Cristo Redentor. A gigantesca estátua soterrava vilões e centenas de outras pessoas.
Ele ainda estava coberto de sangue.
O jato aterrissou e o Capitão Brasil já desceu dele esbravejando:

Seu Maniaco!!! Será que percebe o que fez? Percebe?- Agarrou o magrelo, lhe desferindo dois socos no rosto. Ele cambaleou sem reagir e caiu pelo soco, um halo de sangue saltando de seu nariz.

Ultrax assumiu poisção de combate, pronto para a fúria vindoura.
O homem apenas limpou calmamente o sangue do nariz, conferiu o estrago dos dentes e se pôs de pé.
Não respondeu. Apenas ficou ouvindo o Capitão reclamar e gritar, dizer algo sobre o fim do mundo e sobre assassinatos, mas ele não se importava. Pela primeira vez em anos, estava calmo como um lago num dia sem vento.
Não havia mais fúria.
Toda a fúria havia ido embora, descarregada em um gesto homicida. Restava apenas o vazio.

Precisávamos de Relâmpago para desvendar o que aconteceu! E agora, ele está aí, debaixo de um dos monumentos mais importantes de nosso país!!! O que vamos... ei, está me ouvindo? Besta Humana, está me ouvindo??
- Sim, Capitão. Estou ouvindo. E não me importo nem um pouco.

E ficaram ali, em meio a destroços e corpos dilacerados, em silêncio.
À beira do precipício.

***

Mansão dos Defensores da Pátria.
O garotinho finalmente dormira, depois de um conturbado dia. Mulher Fantasma precisou fechar as cortinas do quarto para impedir que a claridade do céu entrasse e ele pudesse dormir.
A claridade o incomodava.
Ficou ali, sentada na cama, ao seu lado, fazendo carinho em seu rosto até ele adormecer. Só então percebeu que Doutor a contemplava, da porta do quarto. Ela deixou o garoto com seus sonhos - se é que eles ainda existiam - e se aproximou do marido.
Era incrível como ele lembrava Francisco, que lanchava na cozinha.

-     Querida...
-     Ele está dormindo. - Disse, fechando a porta.

E se beijaram. Beijaram-se ardentemente, como um casal de adolescentes. A certeza do fim eminente e de que aquele momento não duraria por muito tempo.
O mundo podia ser o sonho. Mas o amor -  aquele amor - era real.
Essa era a única certeza que tinham. O cárcere que os mantinha ao mesmo tempo algemados e livres.
Foram até a cozinha, onde encontraram Rodolfo, o mordomo, cortando algumas verduras e legumes para preparar uma sopa.
Francisco atacava outro sanduíche.

- Patrões... por favor, sentem-se.
- Oi, Rodolfo. O que está fazendo? - Perguntou Doutor, mais para puxar assunto do que por curiosidade.
- Apenas preparando o jantar... caso eles voltem...
- Parece bom. - Comentou a heroína, sentando-se ao lado do marido.
- Que coisa, não? - Rodolfo começou a divagar. - Num dia, eles estão enfrentando Byxtruvik ou Craniano ou qualquer um desses maníacos com sede de vingança ou com vontade de dominar o mundo. No outro... tudo acaba. Tudo o que a gente acreditava era só de brincadeira...

O casal não respondeu, estavam cansados daquela conversa.

- Por que não foram com os demais? - Insistiu o mordomo.
- Preferi não interferir na busca. - Respondeu Doutor, estático. - Cada um dos grupos já estava com alguma missão pré-definida, eu só iria atrapalhar. E talvez algumas horas de descanso me ajudem a me conformar com a situação.

Rodolfo parou de cortar uma cenoura.

- Se confortar... Dr. Fantástico, me perdoe... mas não parece o senhor falando.
- Eu sei, Rodolfo. - Consentiu. - Eu sei...

***

O dia amanheceu da mesma forma que havia anoitecido. O céu totalmente branco, continuava ameaçando a continuidade dos poucos milhões de vidas que ainda restavam no planeta todo.
Em Goiânia, algumas dessas pessoas, otimistas por natureza, acordaram para, rotineiramente, irem trabalhar. Para elas, era apenas questão de tempo até que os heróis encontrassem um meio de resolver a crise e tudo voltasse ao normal.
Levantaram-se sonolentos. Zumbis lentamente estabelecendo conexões mortas e se preparando para mais um dia.
Embainhando suas facas em formas de diplomas e pastas. Prontas, em fileira para a batalha cotidiana de mais um dia.
Pessoas esperançosas que não deixavam sua fé se abalar por nada.
Neste dia, estas pessoas passariam por bancas de jornais e veriam a seguinte notícia estampada na primeira página do principal jornal da cidade:

EXCLUSIVO! TODA A VERDADE SOBRE O FIM DO UNIVERSO!

Fim do Capítulo 05

"Se não mandarmos a literatura à frente como batedora, como poderemos
algum dia olhar além das fronteiras do mundo?" - Terry Moore.