Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 06

"O Mais longo dos Dias"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

As pessoas olhavam para o céu, ou ao que restara dele, em busca de alguma resposta. O branco enigmático, que não era noite nem dia, apenas continuava a atormentá-los. Pessoas comuns, desesperançadas, à espera dos deuses.
Mas não havia nenhum deus ou semideus voando sobre suas cabeças naquele dia.
Havia apenas o longo e arrasador nada.
As notícias logo espalharam-se como pólen ao vento, embora infinitamente menos belas. E embora parecesse absurdo a princípio, havia algo naquelas palavras dos jornais que dava às pessoas a certeza de que era verdade.
Não haveria combates nos próximos dias.
Vilões ficaram em suas casas, tentando absorver as informações e temendo pelo futuro.
O mundo pareceu, ainda que por pouco tempo, um lugar menos surreal.
Na noite branca, que não era noite - em absoluto - pessoas não jantaram, deixaram seus pratos e talheres intocados.
Havia muito o que pensar e corrigir.
Muito o que fazer. Muito a culpar. Muito a perdoar. No rádio, apenas as ondas vazias.
E a cruel certeza de que suas vidas jamais existiram. Embora as dúvidas ainda pairassem no ar, em seu âmago elas sabiam.
O mais cruel não era saber que não se era real. O mais cruel era o fato de sua existência estar cada vez mais próxima do fim.

***

Do lado de fora da Mansão dos Defensores da Pátria, a multidão aumentara. Mais repórteres chegavam de todas as partes, mais curiosos aglomeravam-se esperando um pronunciamento oficial.
Dentro, Doutor Fantástico não sabia o que fazer.

-     Eles estão me pressionando, Capitão.
-     Agora é tarde para esconder a verdade, Doutor. - Respondeu o Capitão Brasil no monitor da sala de comunicações. - Fale com eles. Só você pode tranqüilizá-los.- seu tom era neutro. Não havia vilões. Havia apenas a maior das crises.
-     Eu? Capitão... – riu, nervoso- ...eu nunca estive tão próximo de um ataque de nervos em toda a minha vida!
-     Eles vão ouvi-lo, Doutor. A tragédia já está feita. Apenas explique que não há motivo para pânico. Estamos trabalhando para...
-     Para tornar as vidas deles mais reais? Não! Estamos trabalhando para tentar salvar mais uma vez esse mundo de ilusão. Para protelar ainda mais o sofrimento de cada uma dessas pessoas lá fora.

Pausou por alguns segundos, pesando o que deveria dizer.

- Estamos trabalhando para acreditar em uma mentira, Capitão. Eu sou um cientista. A verdade é minha busca pessoal. E esta é minha desgraça. – Acrescentou.

Continuou, tremendo:

- Eu não posso, como homem e cientista, olhar para os olhos do mundo e mentir! Por Deus, Capitão, não me peça isto. Podemos e devemos salvar o mundo. Mas mentir... não, isto não.
-     Doutor... você, melhor do que ninguém, deveria saber.
-     O quê?
-     Esse é o nosso papel.

As palavras do Capitão Brasil foram duras, mas verdadeiras. Doutor baixou a cabeça, consternado. O líder dos Defensores desligou sem se despedir.
Saiu da sala a passos arrastados, passando por uma esposa aflita.

-     O que você vai fazer?
-     Falar com eles. - Respondeu sem delongas, continuando a arrastar-se até a porta da mansão.

O garotinho assistiu à cena em silêncio. Ele ainda aguardava um milagre.
Quando as portas da mansão se abriram, a multidão ficou ainda mais agitada. Disparavam perguntas ininterruptas, mal dando tempo para que o Dr. Fantástico pensasse em respondê-las. Em silêncio, ele aproximou-se e fez sinal com as mãos, pedindo silêncio.
Saiu da mansão e foi cercado pelos repórteres e seus microfones.
Os flashes pararam, as conversas pararam, o mundo parou. Centrado nas palavras definitivas que sairiam daquela boca.
E em algum lugar o diabo salivou em contentamento próprio.

- Senhoras, senhores...- começou o cientista.

Olhou todos aqueles rostos. Canetas paradas em blocos de notas. O mundo parou. O tempo parou. Tudo parou por aquele segundo insustentável.

- ...eu não trago boas notícias.

O discurso foi relativamente curto e brutal. Uma exposição de fatos, fria, imparcial, dissociada de qualquer sentimento pessoal que o cientista poderia nutrir pelo assunto.
Aquela foi sua última missão. Revelar ao mundo o que ele era. Aquele foi o peso final que carregou sobre os ombros naquela fatídica tarde: ser o Judas da existência, proferir um beijo traidor na face da esperança para em seguida entregá-la a algozes romanos.
Aquele foi o papel escrito para ele. O ingrato papel que como bom intérprete, vestiu e, com dignidade, desferiu suas falas, na medida e no tom necessário.
Acabou de falar e sem um adeus ou despedida, voltou para dentro da mansão. Silenciosos, os repórteres largaram seus equipamentos no chão e foram para suas casas.
A televisão não mostraria mais nada além de chuviscos. Nenhum outro jornal seria impresso. As pessoas apenas foram para suas casas, esperar pelo fim.
Um a um, os figurantes saíam de suas marcações para dar alguma dignidade às suas falas e atos finais.

***

Fiéis devotos não mais preenchiam as igrejas, apenas o vento batia nas janelas abandonadas. Escolas, universidades e creches permaneceram igualmente vazias.
Em prisões e sanatórios, começou uma revolta entre os funcionários. Alguns acreditavam que não havia mais sentido em manter os bandidos e os pacientes presos. Outros acreditavam piamente que esta era uma idéia absurda e que, mesmo diante do fim, eles deveriam permanecer lá ao invés de propagar o caos, além da balbúrdia que a sociedade havia se transformado.
Presos vagavam, como mortos sem rumos, por rodovias vazias.
Não havia nada. Não havia ninguém.
Nos cais, barcos batiam nas ondas. Ninguém ligava. Ninguém estava lá.
Funcionários de empresas já não foram mais trabalhar. Alguns ficaram com as famílias, outros foram afogar suas mágoas em bares cujos donos não se sentiam mais à vontade de cobrar pelas bebidas e decidiram acabar com seus estoques.
Outros tomaram decisões mais trágicas e decidiram acelerar o próprio fim.

***

O Vigilante permanecia frio. Indiferente ao que quer que estivesse acontecendo com o mundo, ele tinha plena convicção de que as pessoas certas acabariam resolvendo tudo, como sempre. Para ele, todo o papo de “não somos reais” era besteira.
Era o que a voz persistente dizia em sua cabeça. Suava. E seus joelhos doíam devido às três horas de tocaia.
A fera que o devorava insistentemente em seu peito jamais pararia. Por nada que fosse menos que a própria morte.
Essa era sua sina. Essa era sua maldição.
Passou a mão pela calva recém raspada. Olhos injetados.
“Minha esposa era real. Meus filhos eram reais. E enquanto eu viver, meu ódio pelo que aconteceu a eles permanecerá real. Ponto. Qualquer teoria que aponta alguma coisa contra isso sequer merece ser ouvida”, pensava ele sentindo o peso real da UZI em suas mãos.

***

Um de seus velhos antagonistas sentia exatamente o oposto. Devastador, o herói cego, jamais concordou com os métodos do Vigilante e agora se perguntava de que isso realmente havia adiantado. Poderia ter vingado seu pai, sua amada. E jamais seria punido por isso, pois sequer seu Deus era real. Ele era católico apenas porque alguém quis que fosse assim. Mas ele poderia ter sido qualquer outra coisa. Um sádico, um assassino. Ele poderia ter sido o Dronn e esse, poderia ter sido o “herói”.
Era um cartum. Um personagem de desenho animado. Palavras em um papel.
A sensação de futilidade de tudo quase o esmagou.
Deixou um terço cair no chão, vestiu seu uniforme - certo de que seria a última vez - e saiu pela janela do apartamento. Consigo, não levava nada além de sua própria amargura.
Saltou, sem sua famosa máscara. O rosto nu a sentir o vento cortante.

***

No topo do arranha-céu mais alto de Osasco City, Carlos Parducci olhava o movimento, sem vê-lo, realmente. Seus olhos lacrimejantes estavam longe.
À distância, alguém executava em plena rua Real Love, uma canção fantasma, feita com alguém morto há muito tempo.
Uma canção fantasma para um mundo fantasma.
"Tudo poderia ter sido diferente", dizia em silêncio, para uma pessoa amada, morta há muito tempo, de forma cruel e injusta.
Pôs a máscara e se pôs a cavalgar os céus de Osasco.
Iria passar um último dia perfeito com sua tia.

***

Zatverya, um país pequeno da Europa, mas que foi tomado à força por um homem cruel e sem escrúpulos. Um homem de outro mundo, um tirano. Sozinho em seu castelo, Dr. Bxtruvik passeava descrente entre as ruínas de seu reino e os poucos sobreviventes da catástrofe que abalara o mundo, que imploravam a seu mestre que os salvasse.
O vilão não prestava atenção em suas lamúrias. Cercado de aparelhos implausíveis e agora inúteis, completamente inúteis, não parava de pensar na inabalável verdade que a todos assombrara.
“Doutor”, pensava sozinho. “Isso só pode ser algum outro estratagema dele para confundir o globo e, de alguma forma, sair triunfante. Mas por quê? O que ele está ganhando com isso?”. E caminhando entre frangalhos, pisando em cacos de esperança, tentava encontrar uma resposta que nunca viria.
Nunca se convenceria de que sua vida não era real.
Nunca.
Gotas de vinho abundante pingavam em seus pés.
Sem notar, estilhaçara a taça de vidro em suas mãos.

***

-     Então, nós não somos reais. - Concluiu o Velocista com seu olhar consternado atravessando a janela do quarto de hospital, sentado em sua nova cadeira de rodas. - Nunca fomos. E estamos morrendo porque alguém no mundo real deixou de acreditar em nós.
-     Mais ou menos isso. - Concordou prontamente o Homem-Plástico.
-     Então, quer dizer... que foi tudo em vão?

Homem Lua mantinha-se em silêncio no canto do quarto. Não queria dizer “sim”, embora partilhasse dessa opinião. Velocista continuou.

-     Não foi? De que valeram as batalhas? O sangue derramado? Os inocentes que foram salvos? Adiantou de alguma coisa?

O quarto continuou em silêncio enquanto Velocista permanecia olhando para fora. Sentindo a futilidade esmagadora e onipresente de tudo.
Não havia mais nenhuma pessoa na rua. As caixas dos mímicos franceses que se apresentavam, caídas mortas e esquecidas há dias no chão.
Instrumento de almas mortas.
Deus Ex Machina, sem alma. Sem deuses.
Outros companheiros chegaram, trazendo flores e almas vazias de esperança. Era Crânio, Lagarto Negro, Capitão Anti-Agonizante, o Homem de Preto e Lança.
Foram recebidos com alegria disfarçada, num esforço de esquecer o fim que se aproximava a cada segundo. Dadas as formalidades iniciais, Plástico olhou para aquela sala cheia de personagens incomuns, e compreendeu, sozinho, a ironia da situação.
Seu riso começou modesto, mas logo transformou-se em gargalhada. Ele chorava de rir, sem ninguém entender qual era a graça.

-     Pelo amor de Deus, homem, o que foi? – Implorou Anti-Agonizante.
-   Hah, hah... vejam... vejam pelo lado bom! Pelo menos, temos o consolo... hah, hah, hah! O consolo de não termos sido nós mesmos a inventar esses nomes e uniformes ridículos!!! Hah, hah, hah...

Entreolharam-se, imaginando se a insanidade não havia tomado a mente de seu colega. Mas só por um instante. Logo as gargalhadas estavam ecoando por todo o corredor do hospital.

***

Em algum lugar da Europa fragmentada, um desesperançoso orixá jazia imerso em pensamentos, sentado sobre um rochedo.
Em poucos dias, ele perdera tudo. Seu lar, seus amigos, seus parentes... seu status .

-     Lia... - Disse ele ao vento, apenas para lembrar-se do som da voz dela em seus lábios.

“Tanto sofrimento”, pensou.
“Não.”
“Não deveria ser assim.”

Levantou-se. Determinado novamente, com a decisão que tomara.

“Nunca mais. Se tal universo não passa de uma farsa... que ele se encerre de vez...”

Tomou impulso para alçar vôo uma vez mais. Uma das últimas, se ele estivesse certo e o fim realmente estiver tão próximo...
Com pensamentos sombrios, o guerreiro vagou para o norte.

***

Fazenda dos Souza.
Nando já havia tirado o uniforme e pego emprestado algumas vestes antigas de seu tio. Andavam pela fazenda abaixo do véu branco no qual o céu havia se transformado. José os observava de longe, receoso.

-     Sei que quer repreendê-lo, Nando... mas não o culpe. José ainda é jovem... ainda tem muito o que aprender... - Dizia tio Ricardo enquanto duvidava das próprias palavras, já que não havia a mínima certeza de que haveria tempo para José amadurecer. Muito pelo contrário. Os indícios indicavam que o tempo era cada vez mais curto.

Nando parou, estudava uma aranha em sua teia, a pender na relva próxima.

-     Pelo contrário, tio. Não sei se quero repreendê-lo ou agradecê-lo. Estou chateado que ele tenha feito isso sem me pedir, é verdade... mas as pessoas tinham o direito de saber. E se não fosse ele, talvez outro herói tivesse ido à imprensa e dito a verdade.
-     Eu ainda não acredito em nada disso, sobrinho. Como pode? Minha fazenda... meu gado... minhas plantas... lutei a vida inteira para preservar tudo isso. Pra cuidar de Luísa e das crianças... e agora tudo acaba assim, de repente? Sem mais nem menos? É essa a tal justiça divina?
-     Já não estou mais certo de que Deus exista, tio.

Ricardo silenciou. Teimava em não se render.

-     Pode ser que aqui Ele não exista, sobrinho... mas em algum lugar, há de existir...

***

Magnus, o Mágico
Não podia ser verdade. Não aceitava o fato de tanto sofrimento ser irreal. O que tornava tudo muito, muito pior. Campos de concentração. Preconceito. Judeus. Seu povo.
E os heróis. Os teimosos heróis insistiam em lutar para salvar essa realidade. Essa ilusão toda de sofrimento e morte. Esse pesadelo vivo criado para entreter uma minoria.
Magnus estava ainda mais determinado. Pela primeira vez, parecia tudo tão simples. Não precisava dominar o planeta.
Bastaria deixar que o planeta se destruísse...
Visitaria velhos amigos – se é que os poderia chamar assim -  naquela noite.
Parecia um bom começo.

***

Mansão Y.
Raio Negro passara a noite em claro, pensando no que fazer. Não partiram imediatamente, como ordenado pelo professor. Precisava de tempo para absorver as más notícias, assim como sabia que os demais também precisavam. Andava de um lado para outro pelos cômodos da mansão, por vezes saía para passear no jardim. Sozinho. Inquieto. Tentava não pensar em Jenifer, a Garota Mental, sozinha na cama com sua camisola sensual. Tentava não pensar na jovem Gatinha, que havia ali chegado há poucos dias. Ou na morte de um colega de equipe em sua primeira missão ao lado dos Y-Men. Ou em tudo na sua vida.
Há pouco tentara meditar, em vão, não conseguia se concentrar. Não conseguia se isolar das nuvens negras que pairavam.
Só tentava pensar no futuro. Enquanto os demais dormiam - pelo menos, ele acreditava que os outros estavam dormindo - ele passou um bom tempo sentado no jardim. Quando olhou no relógio em seu pulso, percebeu que já passava das oito da manhã. Levantou-se, decidido a falar com o professor.
Caminhou até a biblioteca, meio sonolento, a passos vagarosos. Sentiu vontade de tomar um gole de café, mas resolveu deixar isso para depois. Abriu a porta.
E viu apenas uma cadeira de rodas vazia.

-     Jeeeeeeennnnnnnnn!!!

Acordou todos os demais, em desespero. A maioria também havia passado a noite ou pelo menos boa parte dela em claro. Colosso saltou da cama e atravessou a porta de seu quarto a tempo de ver Raio subindo as escadas e encontrando Jenny no corredor. Ao seu lado, o odor de enxofre revelava Noctívago acabando de se teleportar. Um pouco mais à frente, Tormenta também saía de seu quarto e, atravessando uma parede em sua forma intangível, a jovem Gatinha estava estagnada.

-     Raio? Que foi? Que acont... oh, não!!! - Sondou rapidamente a mente de seu amado e descobriu. No instante seguinte, varreu toda a propriedade. Não encontrou sinal do Professor Yavier.
-     Ele sumiu, Jen!!! Ele desapareceu!!! Junto com todos os outros!!!
-     E-eu não estou encontrando sinal dele em lugar nenhum da mansão, Raio!!!
-     O professor sumiu? - Colosso indagou o óbvio, sentindo-se meio idiota, mas precisava ter certeza.
-     O Detector. - Disse Noctívago, apressado.

Desceram até a câmara do computador que localizava qualquer um de quem Yavier já tivesse recolhido uma amostra de DNA. Mas Carlos tinha razão. Ele se encontrava avariado e totalmente fora de uso. Levaria dias para consertá-lo.

-     E-e... e agora? - Perguntou a mais jovem da equipe.

Ninguém soube responder. Em silêncio, caminharam para a sala.
O desjejum perdera toda a importância.

***

Curitiba.
Seu sonho sempre foi o de ser o novo Gralha. Ele seria um pupilo, viveria aventuras ao lado de seu ídolo, aprenderia tudo que pudesse e, um dia, o substituiria. Daniel Moro olhava a cidade sem alma abaixo. Pela primeira vez não encontrara um crime para combater, mas não estava feliz com isso.
Estava debruçado sobre um toldo, parecia mais do que nunca, uma gárgula surreal naquela cidade vazia.
Chovia uma garoa fina, e ele sequer se perguntava como isso era possível.
Havia descoberto que não passara de um mero coadjuvante.
“O parceiro do herói”, pensava, levemente irritado, mesmo sem saber direito o porquê.
Seu comunicador tocou e ele não tinha certeza se queria ou não atender.

***

Porta-aviões aéreo da ESCUDO.
Para aquele homem, só podia ser piada. “O que é que o Doutor está aprontando dessa vez?”, não parava de pensar. Tinha fumado mais charutos em dois dias do que em toda a sua vida, mas não sem justificativa. Era a primeira vez na vida do Coronel Cobra que ele não sabia o que fazer ou o que pensar.

“Dê-me uma guerra”, pensava, “Que eu sei o que fazer. Sei de que lado ficar e que bundas chutar. Mas isso...”

Um militar sem uma guerra era um artigo desprezível, sabia.
Isso fugia totalmente de seus paradigmas tradicionais.
Mas Cobra teria sua guerra.
Mais cedo do que imaginava.
Antes do branco engoli-lo, o mundo iria se pintar de vermelho.

***

Questões existenciais nem passaram pela mente do Dr. Botânico.
Havia bancos.
E ninguém para guardá-los.

***

Garra Cinzenta havia se protegido em seu bunker subterrâneo no meio oeste.
Com o vinho nas mãos, gastou as horas pensando no meio de tirar o melhor proveito da situação.
Cansado e deprimido, resolveu se embebedar.

***

O Bruxo olhava em seu espelho o passado e ponderava sobre como as coisas haviam chegado àquele ponto.
Dispensara seus discípulos para ficar sozinho. Mas não em paz.
Não, a paz era um luxo, a essa altura. E ele não poderia se dar a esse luxo. Não até tudo terminar. Já não se preocupava mais se tudo era real ou não. Ele sabia e tinha plena certeza de seu papel ali. O que o preocupava era a catástrofe eminente. E como poderia ajudar a evitá-la.
O espelho que mostrava o futuro jazia coberto.
Manchas rubras emergiam pelo pano.

***

A bordo do jato, Gralha desistia de entrar em contato com seu parceiro.
-     Não atende.
-     Será que... ele... - Gloriosa ia arriscar um trágico palpite, mas foi cortada pelo vigilante:
-     Ou isso ou desertou, como os outros.
-     Isso tudo me preocupa. - Frisou Capitão 7. - Colegas que lutaram ao nosso lado por anos, desertarem assim... e para piorar, o resto da população fica sabendo o que não deveria.
-     Quem terá contado a verdade pra imprensa? - Indagou Kutang.
-     E que importa isso agora? - Respondeu Gralha. - O passado não importa. Eles iam ficar sabendo, de uma forma ou de outra. Vamos nos concentrar na missão. Estamos chegando no local de meu último encontro com o Bagre Humano. Existe um crime a ser solucionado e punido. - Completou, sinistro.
Todos silenciaram enquanto a nave aterrissava no Parque Tanguá.
Em todos os lugares do mundo, um a um, jardins de inocência desabavam.

***

Raio e Garota Mental cochichavam algo no canto da sala, Gatinha tentava encontrar coragem para pedir que Colosso a abraçasse. Noctívago estava irriquieto e Tormenta sentia-se como um peixe fora d´água enquanto olhava o céu - o seu céu - todo esbranquiçado lá fora, em uma aurora surreal.
Raio abraçou sua amada e a beijou rapidamente antes dela sentar-se no sofá. Ele aproximou-se dos demais, certo do que dizer. Certo do líder que era, neste momento cruel.

-     O professor nos incumbiu uma missão. Ele gostaria que a realizássemos... mesmo que fosse a última. Vamos atrás do Lobo. Noctívago, se puder me ajudar a preparar o jato...
-     Desculpe, Raio Negro.
-     O quê?
-     Eu... não vou com vocês.
-     O quê? Por quê, Noctívago? - Perguntou a Garota.
-     Vão ter que me desculpar, meus amigos. Mas eu passei a noite inteira pensando... eu não acho que isso tudo vale a pena. Eu... quero dizer... parece que Deus ficou brincando conosco o tempo inteiro, percebem? E a gente continua fazendo o jogo Dele, só para divertí-lo. Eu não quero mais...
-     Noctívago... logo você dizendo isso? - Indagou Tormenta.

Envergonhado, o desertor apressou-se em se retirar, sem mais nada a dizer. Colosso se levantou em seguida.

- Eu entendo o que ele quis dizer. Também pensei muito e... eu não quero ir com vocês. Desculpem... e boa sorte.

Deu três passos e parou.

- Existe uma fazenda...- falou com dificuldade - Meu lar. E é lá que eu deveria estar. – Sentenciou, medindo as palavras com cuidado. E partiu.

Tormenta olhou para o casal de amigos. Não sabia o que dizer. Gatinha seguiu Colosso.

-     O-olha, não levem a mal... vocês são muito gente boa, mas... e-eu vou pra casa...

Os três saíram, deixando apenas o casal e sua amiga na sala, com suas idiossincrasias.
Raio olhou para o chão por um momento.
Arremessou algo para o alto. Noctívago apanhou.
Uma chave de carro.

- Condução. - disse Raio - Não quero que vocês andem por aí a pé. - Sorriu, amargo- As coisas vão ficar perigosas.

Tormenta hesitava. Por mais que desejasse ficar ali com o casal, as palavras de Colosso a atingiram no âmago de sua alma. E seu lar a chamava.

- Jenny, eu...
- Tudo bem. Pode ir.

Abraçaram-se em meio a lágrimas. E saiu sem se despedir.
Agora, eram apenas os dois.
Contra o mundo.

***

Uma estrada na saída de Belo Horizonte.
Um caroneiro franzino estendia o polegar para um caminhão, pela vigésima ou vigésima-primeira vez. Já perdera a conta. Mas este é solidário e acaba parando no acostamento da estrada fantasma. Aliviado, o homem correu rapidamente até a cabine do caminhão, sem carregar bagagem alguma.
Rezava para que não fosse um motorista chato.

-     Opa! Tá indo praonde, amigo?
-     São Paulo.
-     São Paulo? Longe, hein? Peraí! Você é aquele cara da tevê, não é, não?
Fechou a porta da cabine, envergonhado.
-     É você, sim! Srbek, não é isso?
-     É, sou eu, mesmo.
-     Poxa vida!!! É uma honra!!! O mundo acabando e a última carona que eu vou dar vai ser pra um Defensor da Pátria!!!
-     Como assim, o “mundo acabando”?
-     Tá de sacanagem comigo, cara? - Perguntou o motorista, pondo o caminhão para andar.
-     Desculpe... eu não sei o que houve... acordei há pouco tempo e percebi que estava aqui, sem ter a menor idéia de como vim parar na minha velha terrinha. Sabe me dizer o que está havendo?
-     É ruim, hein? Tem certeza de que você tá legal, cara?
-     Não.
-     É, tô vendo. Por que não ligou pros teus amigos virem te buscar?
-     Eu tenho meus motivos.
-     Sei... olha, tudo o que eu sei é o que saiu nos jornais... o mundo todo tá se despedaçando, pessoas tão sumindo... não faço a menor idéia do que está acontecendo. Aí apareceu um cara na tevê, aquele, do Quarteto Excelente...
-     Doutor Fantástico?
-     Esse aí. Falou um monte. Disse que o mundo não é real e mais um monte de palhaçada e conversa fiada. Só besteira. Seguinte, conheço uma pensão aqui perto, talvez nem teja aberto, mas se tiver...tá a fim de jogatina, mulher e umas canas?
-     Peraí... ele disse o quê?

***

Acima, um jato cruzava os céus em direção contrária.

-     A polícia não conseguiu nada com o Carcará. - Dizia Ultrax ao encerrar uma ligação recebida em seu capacete.
-     Lamentável. - Respondeu o Capitão Brasil.

Besta Humana permanecia entre eles, com as mesmas calças rasgadas e com o mesmo olhar distante. Viu um caminhão na estrada abaixo e imaginou o que o motorista estaria pensando sobre toda essa situação caótica.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz carregada de sotaque paulista de Chuvisco.

-     Atenção. Estamos chegando em BH. Possivelmente, ele está oculto em centros com grandes concentrações de pessoas, como shoppings e coisas assim.

- Não vai ser fácil.
- Não. Não vai.
- Assim que eu aterrissar, espalhem-se. Procurem por tudo. - Ordenava um vacilante Capitão Brasil – E você... – virou-se para o Besta Humana, ar repressor - ...você fica no jato, ouviu bem?
- Ouvi.

Calou-se e colocou uma música ambiente a rodar no sistema de som do jato.
Parecia absurdamente inadequada neste momento.
E enquanto caçador e presa seguiam direções contrárias, o relógio universal cuspia mais um “tac” na cara de todos os espectadores da tragédia cósmica.

***

Um beco imundo em São Paulo.
A rua estava deserta, habitada apenas por lojas vazias saqueadas e um lava-rápido abandonado.
Um homem de passos apressados, corria com seus manuscritos. Ele tinha que achar um editor.
Tinha que escrever a última história antes que o mundo acabasse.
O Y-Man finalmente se levantava, uma sensação de ressaca, os instintos lhe dizendo que perdera muita coisa.

-     Puta que o pariu... que porra de lugar é esse? Eu passei a noite aqui?

Saiu cambaleante do beco, o fedor vindo de seu próprio corpo o incomodava.

-     Caralho... pra que lado fica a mansão, hein?

Um escritor deixou cair seus manuscritos no chão. Não conseguiu responder à figura homicida, mesmo sabendo que a pergunta não era para ele.
Ignorando os olhares surpresos de alguns transeuntes, o homem começou a caminhar.
Em rota de colisão...

Fim do Capítulo 06

“Não importa quantos ‘Guerra e Paz’ e ‘Leons Trótski’ nós lemos. No fim, o que fica na memória são os malditos gibis de heróis da infância.” - Grant Morrison.