Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 07
"Universo Sitiado"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa
Belo Horizonte, Minas Gerais.
Chuvisco implorava para que os poucos transeuntes que via na rua parassem e pelo menos dessem uma olhada na foto do homem franzino que tinha em mãos. Segurava-se para não chorar, concentrando todos os esforços no trabalho.
Aruanã percorria quadras o mais rápido que podia, olhando em todas as direções. Atravessou quarteirões olhando em pouco tempo, mas não encontrou nem sombra de seu desaparecido colega de equipe.
O Defensor da Pátria sobrevoava a cidade na direção oposta.
Aproximou-se com receio dos frentistas e tentou parecer amigável. Um homem negro o encarou com olhar frio enquanto ele se dirigia à porta da loja de conveniência. Evitou encará-lo. Um outro frentista mal-encarado e com a barba por fazer o viu passar mas ignorou-o.
Quando passou pela porta, entretanto, deu sorte. O homem por trás do balcão era seu fã.
E deixou o homem sozinho atrás de seu balcão empoeirado.
O Capitão Brasil corria pela avenida fazendo o caminho de volta.
- Atenção, Defensores!!! Atenção, Defensores!!! Tenho uma pista!!! Voltem para o jato já!!! Ultrax, entre em contato com a polícia rodoviária e peça para bloquearem as saídas do estado!!! É urgente!!! Repito: é urgente!!!
- Ok, Capitão, estou ajustando a freqüência de rádio e voltando pro jato. Câmbio, desligo!
***
- Tá e pode me explicar pra que porra esse merda enrolado na porra da nossa bandeira de merda quer que a gente bloqueie a porra das estradas?
-
Vai lavar a boca e faz o que eu tô mandando, Rodriguez!
-
Mas nem fodendo capitão!!! A porra do mundo tá acabando, não se ligou, não?? Eu vou é pra casa com a minha família! Quem está comigo???
Alguns policiais do posto na estrada responderam afirmativamente, outros não. Alguns poucos ainda reconheciam a autoridade de seu capitão, ainda que o mundo fosse irreal. Mas a maioria foi embora.
Felizmente, os que ficaram estavam em número suficiente para fazer um bloqueio.
Srbek suou frio ao seu lado enquanto o caminhão foi diminuindo a velocidade, até parar.
Enquanto o policial explicava para o motorista, Srbek ouviu um ruído familiar. Pôs a cabeça para fora e teve certeza. Não esperou o jato aterrissar à frente do bloqueio. Abriu a porta e pôs-se a correr pelo acostamento.
O jato mal aterrissou e os Defensores da Pátria saltaram. O Besta, ainda em sua forma humana, assistia à cena com um quê de curiosidade.
Ultrax gritou, mas foi o mesmo que dizer nada. Srbek continuou correndo e pulou o arame farpado da cerca de uma fazenda.
Correu pelo mato e jogou-se no chão, rastejando. Ultrax perdeu-o de vista.
***
Um imundo Lobo Guará andava por ruelas de São Paulo que ele conhecia bem. Reconheceu uma motocicleta estacionada próxima a um bar.
Colocou a mão no bolso da calça. As chaves ainda estavam ali. Sem hesitar, subiu em cima da máquina e ligou o motor.
***
Ao lado de uma gárgula, Devastador hesitava. Ele vestia um uniforme e uma porção de dúvidas. Deus realmente não existia? Deus estava brincando com todo mundo? Era isso? Estava brincando e dando risada?
Não sabia. O herói cego não tinha respostas. Ergueu-se, de pé. Estava pronto. Iria pular. Iria desvendar esse mistério de uma vez por todas. Se o mundo fosse irreal, ele não tinha nada a perder. Se fosse tudo besteira, então ele ainda poderia encontrar Deus do outro lado e exigir uma resposta.
Na pior das hipóteses, se livraria do pesado fardo que sua vida se tornou.
Mas foi então que ouviu uma voz.
Não havia prestado atenção nos batimentos cardíacos que se aproximavam. Mas soube de quem era a voz assim que a ouviu. Era a voz que lhe atormentava em seus pesadelos.
O herói esboçou um sorriso sem graça, enquanto pensava que suas dúvidas estavam se dissipando. “Não”, pensava. “Deus existe, de fato.”
Dronn chegara à Terra anos antes, e logo viu a oportunidade perfeita para enriquecer oferecendo seus serviços ao submundo. Mas atuava no território do Devastador, o que fez de ambos inimigos declarados. Não tardou para que Dronn descobrisse sua identidade secreta. O resto, como dizem, é história.
Devastador lembrava da história. E decidiu, pela primeira vez em toda sua vida, dar vazão à sua fúria, e saltou para cima do Mercenário. Os dois nêmesis começaram a se emaranhar numa violenta batalha, sabendo que seria a derradeira.
O vilão acertou as costelas do herói, mas este conseguiu atingir-lhe o queixo. Dronn não se deu por vencido. Aplicou uma chave de braço no pescoço de seu inimigo, que desequilibrou-se por um instante.
O suficiente para os dois precipitarem-se numa queda de mais de 30 andares. O vilão não ligou, sabia que o Devastador iria salvar a ambos.
Em verdade, ele hesitou por um instante. Dronn percebeu, mas respirou aliviado ao ver seu antagonista disparar o cabo de seu bastão, que prendeu-se numa gárgula e balançou os dois. Mal sabia ele que o herói estava tramando algo ainda pior.
Usou o impulso para livrar-se de Dronn e jogá-lo para baixo. Ele bateu numa parede antes de cair em frente à entrada do metrô. O demônio-herói aterrissou com segurança à sua frente e não perdeu tempo. Agarrou-o e os dois caíram pelas escadas, quebrando-se pelo caminho.
O Mercenário cuspiu sangue.
Acertou mais um murro e os dois atravessaram as catracas. Foram trocando golpes até ficarem perto do metrô.
Não havia ninguém lá.
Mas Devastador ouviu o metrô chegando.
E sorriu.
E foi jogado com força nos trilhos do metrô. Matt pulou junto dele e continuou agarrando seu pescoço com o cabo, de forma que ele não conseguisse fugir. O metrô estava vindo.
E a última coisa que o vilão ouviu, com a luz do metrô já cegando seus olhos, foi:
E o barulho do metrô passando ecoou pelos corredores vazios.
***
Curitiba.
Tal como os Defensores da Pátria, a Liga de Heróis do Capitão 7 separou-se para tentar encontrar o seu suspeito. Mas eles não tiveram tanta sorte quanto a outra equipe.
Gloriosa foi atingida por um tomate. Kutang estava a seu lado e não soube o que fazer.
O Capitão 7 estava num beco sendo cercado por uma população com cara de poucos amigos.
- Hã... não muito melhores...
***
Em outra parte, Gralha finalmente encontrava seu parceiro.
Ou ex-parceiro...
Daniel Moro virou o rosto, evitando encará-lo.
Segundos depois, um irritado vigilante cruzava sozinho os arranha-céus de sua cidade.
***
Mansão dos Defensores da Pátria.
Doutor havia adormecido no sofá, ao lado da esposa, sentado. Exausto. Caíra para o lado abraçado à esposa e sua cabeça espalhou-se pelo chão, mas não acordou de tão pesado que estava o sono.
Abriu os olhos em um momento, entretanto. E o pequeno garoto loiro estava de pé ali na sala, observando-os.
Recompôs-se, surpreso.
Lá chegando, Doutor preparou um achocolatado para o garoto enquanto ele contava seu pesadelo sobre o fim do mundo.
Doutor recostou-se na cadeira, procurando uma resposta. Hesitou alguns segundos e o que lhe veio à mente não foi uma explicação, mas sim, outro questionamento.
Doutor sorriu. Uma mistura de graça e embaraço. Até que algo estalou em sua mente.
Saiu da cozinha rapidamente, assustando o garoto.
A Mulher despertou, assustada.
Rodolfo olhou pelos fundos a decolagem da Excelenave. Assim que partiram, voltou-se para dentro, com um sorriso que não lhe era pertinente.
- É claro que eu tomo conta dele, Doutor...- Entrou na cozinha e pegou uma faca afiada. – Afinal, nas histórias policiais... o assassino é sempre o mordomo...
***
Mansão Y.
A mansão estava perto. Lobo sorriu de alívio ao ver os portões a menos de um quilômetro. Mas estranhou o fato de Raio Negro estar ali, de uniforme.
A frase foi interrompida por uma rajada de Raio Negro, que destruiu sua moto e fez Lobo beijar o asfalto, rolando e rasgando-se por metros a fio.
Recuperando-se da surpresa, logo foi tentando se levantar...
A resposta foi um ataque telecinético que jogou Lobo Guará no ar, colidindo com um tronco de árvore, tirando-lhe o fôlego.
E um brilho negro apossou-se dos olhos de Jenny...
***
- Ei, Rodolfo, não tinha um quarto com brinquedos nessa casa antigamente?
O garoto andava pelos corredores, que pareceram-lhe mais sombrios do que antes.
Não obteve resposta. Tentou se convencer de que não havia motivo para ficar assustado. Estava seguro ali.
Não estava?
***
O veículo aterrissou no Edifício Bexter e Doutor saiu em disparada em direção ao laboratório, seguido da esposa.
Digitou coisas aleatórias em um computador, intrigado, enquanto Mulher Fantasma observava curiosa, um mapa se formar no monitor.
Um mapa de dimensões. Até que encontrou o que procurava.
Digitou algumas coordenadas no computador e deu o comando para ativar uma das máquinas. Ela começou a funcionar com energia pulsante, até finalmente abrir um portal.
Mulher Fantasma não compreendeu direito as palavras do marido. Mas até aí, não havia muita novidade.
Doutor desligou o portal e saiu dali tão rápido quanto havia chegado.
Nenhum dos dois percebeu uma figura que os observava. Uma figura que aproximou-se do computador...
E ligou novamente a máquina, reabrindo o portal.
Sem mais delongas, adentrou-o, mas não sem antes deixar algo para trás.
Uma bomba-relógio programada para explodir em 5 minutos...
***
E deu, mas o garoto foi rápido e conseguiu escapar. Correu em desespero. As pernas curtas não o impediram de ganhar velocidade, conseguida com a vontade de quem quer viver.
Rodolfo gritou. Não poderia ser ele. Não o doce e gentil Rodolfo de sempre.
Puxou uma fruteira que estava no caminho, que caiu atrás dele, interpondo-se entre ele e o mordomo que o perseguira. As frutas esparramaram-se pelo chão, ao passo que a fruteira trancou a porta da cozinha enquanto o garoto fugia pela porta dos fundos.
Mas pôde. Quando Rodolfo saiu pela porta, não viu mais sinal do garoto. Caminhou pela grama com pressa, mas era inútil. Não havia mais tempo.
Largou a faca e voltou para dentro da mansão.
Pouco tempo depois, ouviu-se uma explosão.
***
Em Curitiba, o Capitão 7 alçava vôo para evitar um conflito desnecessário com uma multidão ensandecida. Voltou a concentrar-se na missão e passou a procurar um sinal do Bagre Humano. Qualquer coisa...
Não foi difícil chegar até o monstro enquanto comunicava a posição aos demais.
Gralha chegou ao local a tempo de ver o Bagre Humano atravessando o chão ao ser empurrado pelo Capitão 7. Mulher Maravilha e Ájax também não demoraram.
Ele viu que estava encurralado. Não havia mais o que fazer a não ser se entregar.
Disse isso encarando o olhar frio do Paladino das Araucárias...
***
Em outra parte da cidade, o Ogun aproximava-se das janelas do Hospital. Após uma rápida procura, encontrou o que procurava e entrou no quarto.
O quarto de hospital silenciou. Velocista baixou a cabeça, seguido de todos os outros.
Homem-Plástico interviu:
Partiram com pressa e Velocista agradeceu a companhia do amigo.
- Cara, o que eles pretendem? Você sabe qual o plano? Como pretendem deter a destruição?
-
Não vai me dizer que...
-
Não, não quero participar. Era... só... curiosidade...
***
Em BH, Calibre acendeu um fósforo e a plantação pegou fogo. Srbek se viu obrigado a correr de pé novamente, mas colidiu em cheio com o peito do Capitão Brasil.
Não deu ouvidos a ele, virou para o outro lado e continuou a correr, mas foi então que uma rajada propulsora explodiu à sua frente.
Srbek caiu, afundando-se na terra. Olhou para os lados enquanto levantava-se e percebeu que estava cercado. Não havia mais para onde fugir.
Viraram-se para encarar seu dono dela e viram um homem estranho num uniforme rasgado. Parecia cansado, sujo de lama e de sangue. Mas mais do que isso, parecia extremamente irritado e chegava correndo.
Assim disse Nitron, prestes a golpear Srbek...
“A função do artista não é apenas retratar a realidade. Mas lutar para torná-la melhor.” – Fernando Lopes.