Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 08
"Revelação"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa
Os policiais já não entendiam mais por que estavam ali. Por que a loucura havia engolindo o mundo. Por que nada mais fazia sentido.
Por que heróis estavam atacando heróis?
Nitron aproximou-se tão rápido que ninguém conseguiu detê-lo. Desferiu um cruzado de esquerda que quase deslocou o queixo de Srbek.
Srbek cuspiu dentes e sangue. Não soube o porquê daquilo, mas sentiu que era merecido.
Os heróis entreolharam-se. Ninguém entedia mais nada. Srbek limpou o sangue e as lágrimas, mais surpreso do que os demais com as acusações.
***
Mansão Y.
Jenny voltara a seu aspecto normal. Ela e Raio Negro se entreolharam.
Passou no meio dos dois, naturalmente irritado.
Jenny viu a pergunta abalar Raio Negro e se deteve. Pôs a mão em seu ombro e os dois seguiram Lobo Guará até a cozinha da mansão.
***
Decepcionados, Doutor Fantástico e Mulher Fantasma aterrissavam uma vez mais no jardim da Mansão dos Defensores da Pátria. Saíram da Excelenave apressados, ávidos por entrar em contato com os Defensores da Pátria e o Capitão 7.
Nesse instante, o mordomo surgia na sala, sonolento e surpreso. Doutor olhou para ele com cara de espanto.
Rodolfo apoiou-se na parede para não cair. Não podia acreditar naquela acusação.
Doutor olhou para a esposa. Em seguida, para os outros dois.
- Hmm...
***
Fazenda dos Souza.
Sara entrou correndo dentro da casa, eufórica. Parecia que tinha visto os deuses descendo à terra.
E de certa forma, tinha mesmo.
Tio Ricardo e Nando saíram curiosos e apressados, seguidos pelo resto da família. Olharam para o céu e viram algo que jamais tinham visto.
Exceto Nando, é claro. Eram eles. Eles estavam de volta. Todos os heróis, reunidos. Aterrissando bem ali, no terreno dos Souza. Ogun à frente.
Por mais que o velho Dínamo R estivesse cansado de lutas, não deixava de admirar aquela bela visão.
***
Osasco City
Haviam conversado o dia inteiro. Falaram sobre os velhos tempos, sobre seu falecido tio. Sobre os dias de colégio, cujas maiores preocupações era estudar para a prova e fugir dos grandalhões que queriam roubar seu lanche. Quem diria que o mundo um dia foi mais simples?
A senhora cansada sorriu da piada sem graça do sobrinho e o abraçou enquanto ele terminava de lavar a louça. Conversariam mais um pouco e depois ele a deixaria dormindo na cama.
A casa estava toda arrumada. Sentia-se feliz de ter vindo ajudar e ter passado seus momentos finais com a melhor tia do mundo. Olhou para as paredes uma última vez antes de subir para o quarto. Deitou-se e ficou olhando para o teto, a mente a divagar sem rumo.
Queria ficar em paz pelo menos uma vez na vida.
***
Curitiba.
Os heróis olharam para o herói, sem entender a acusação.
Mas Gralha entendeu.
No fundo, ele entendeu.
As palavras incomodaram o vigilante, trazendo à tona tudo o que ele estava lutando para esconder.
Hesitou. Virou de costas, não queria encará-los. Não queria – como dissera o Bagre Humano – encarar sua maior vergonha.
Parou de falar. Aquele não parecia mais o Gralha, mas um homem.
Um homem desesperado.
- Parece improvável, mas eu acho que o assassino do Palhaço da Agenda... fui eu mesmo.
***
- Não fui eu!!! – Gritou mais uma vez Srbek, segurando seu choro.
-
Pare de mentir, desgraçado!!! Você foi lá! Me encontrou na lanchonete! Me enganou!!! E me deixou pra morrer!!! Pra ser devorado por formigas!!!
-
Srbek? – Chuvisco olhou para ele, duvidoso. – Você fez isso?
-
Não! Eu juro, cara, eu não faço a menor idéia de como vim parar aqui... por favor... uhhh... huh...
Desfez-se em choro. Estavam de volta à estaca zero.
***
Um hotel de luxo em São Paulo.
Portal abriu a porta.
Desceu as escadas e viu uma legião de super-heróis esperando-lhe.
- É brincadeira... isso aqui tá pior do que carnaval...
-
Portal.
-
Qual é, Ogun? Veio dar outro murro na minha cara? Tá zangadinho?
-
Peço para que apenas me ouça. Vim desculpar-me por minha vergonhosa atitude. V
ocê sabe...
-
Eu sei. Não precisa se desculpar. Só me diz o que essa galera está fazendo aqui.
-
Nós viemos... lhe fazer uma proposta...
***
Em outra parte, uma coalizão similar estava se formando. Magnus e uma irmandade de vilões invadiram uma prisão especial e libertaram todos os criminosos. Alguns deram ouvidos ao que ele tinha a dizer, outros não.
“Vilões”, eram assim chamados. Vilões sempre fadados ao fracasso.
Homens.
Homens ávidos por acabar com o ciclo vicioso que suas vidas haviam se tornado.
***
Os três estavam reunidos na sua lanchonete preferida, embora a encontrassem pela primeira vez, deserta. Não havia mesmo nenhuma pessoa para atendê-los, então tiveram de se servir sozinhos. Cercados pelos fantasmas daquele lugar.
Fantasmas de tempos mais alegres e jovens. Quando faziam piadas para tirar sarro um do outro. Quando Lobo Guará enchia a cara para comemorar alguma vitória. Quando Raio e Jenny conversavam sobre a infância enquanto os demais procuravam saber o que iria passar no cinema no final de semana.
Tudo acabou.
E um sino revelava a porta abrindo-se. Uma deusa negra de cabelos brancos passava pela porta e caminhou até a mesa deles.
Gatinha não sabia o que dizer.
Sorriu.
Em seguida, cumprimentou cada um dos três. Não havia mais palavras a dizer ou lágrimas a chorar. Só restara o vazio de suas vidas.
Tormenta mal havia partido quando o exército de superseres aproximou-se do lugar.
Colosso reconheceu o Besta entre eles. Foi ele quem entrou na lanchonete para conversar enquanto os demais esperavam do lado de fora. Explicou quais eram as intenções do grupo.
- Isso não vai acabar bem. – Profetizou Noctívago.
-
Também não gosto da idéia. – Concordou Colosso. – Se é só conversar, pra quê toda essa gente aí fora?
-
Escutem, eu também não estou me sentindo à vontade. Mas temos que convencer eles a parararem com isso! Ogun acredita que quanto mais gente estiver do nosso lado, mais fácil será fazer isso. – Explicou o colega.
-
E se... – Gatinha decidiu arriscar. – E se as coisas fugirem do controle?
-
Então, minha cara... – Respondeu o Besta - ...que Deus, se é que Ele existe, nos ajude...
***
A tensão não estava mais amena na Mansão dos Defensores da Pátria. Rodolfo permanecia de pé, no canto, enquanto Mulher Fantasma estava sentada no sofá, abraçando o garotinho. Doutor andava de um lado para outro, pensando. Avaliando possibilidades e probabilidades, o que parecia aumentar ainda mais a tensão e o suspense.
E caminhou para lá, determinado. Rodolfo e o garoto evitavam se encarar. O garoto, em especial, lutava para continuar olhando para o chão enquanto sentia os dedos de Mulher Fantasma acariciando seus cabelos.
Doutor entrou na sala e abriu a freqüência para contatar o Capitão Brasil.
***
Besta Humana cansara de esperar no jato e fora assistir ao “espetáculo” junto aos policiais.
Sorriu.
Os policiais tremeram, mas lentamente, foram baixando suas armas.
Eles olhavam para ele, desconfiados. Mas o capitão decidiu confiar nele e guardou a arma. Ainda um tanto desconfiado, voltou a ficar a seu lado – mas mais um pouco distante, por precaução – e apoiaram-se na viatura para continuar assistindo.
- Lamento por sua prima...
-
Eu, também.
***
- Alô
- Capitão 7, é Doutor Fantástico. Tiveram sucesso na missão de vocês?
- Pode-se dizer que sim... – Respondeu o herói, ainda em Curitiba.
- Ótimo. Quais as novidades?
- As coisas foram estranhas por aqui, Doutor. O Bagre diz não se lembrar de ter atacado o Pirata Mental, apesar de todas as evidências apontarem para isso. O mesmo aconteceu com o Gralha.
- Gralha?
- Sim... aparentemente, foi ele o assassino do Palhaço da Agenda.
- E ele diz não se lembrar?
- Sim, também.
- Certo... continue na linha, sim? Eu já falo com você.
Mansão Y.
- Senhores, finalmente temos um padrão nos assassinatos. Todos foram executados por pessoas que dizem não se lembrar do que aconteceu.
- Sim, mas isso... é bastante oportuno, não concorda?
- Sim e não! Não acredito que eles estejam mentindo, Capitão!
- Espere um segundo. – Interrompeu o Capitão 7. – Está sugerindo que alguém os manipulou e depois apagou suas memórias?
- Exato.
- Só um poderoso telepata poderia fazer isso. – Concluiu o Capitão 7.
- Não. – Raio Negro entendeu aonde Doutor queria chegar.
-
Qual é o maior telepata que conhecemos? – Perguntou Doutor.
Todos pensaram no mesmo nome. Mas foi o Capitão Brasil quem o disse:
- Carlos Yavier.
“Não acho que podemos motivar ninguém. Ou você tem dentro de si o que é necessário para fazer um trabalho, ou não tem.” – Joe Kubert.