Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 08

"Revelação"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

Os policiais já não entendiam mais por que estavam ali. Por que a loucura havia engolindo o mundo. Por que nada mais fazia sentido.
Por que heróis estavam atacando heróis?
Nitron aproximou-se tão rápido que ninguém conseguiu detê-lo. Desferiu um cruzado de esquerda que quase deslocou o queixo de Srbek.
Srbek cuspiu dentes e sangue. Não soube o porquê daquilo, mas sentiu que era merecido.

- Ei!!! Mas o que é isso?? – Bradou o Capitão Brasil, segurando o atacante ensandecido.
- Me deixa, Brasil! Eu vou arrebentar esse desgraçado até dizer chega!!!
- Será que pode, ao menos, explicar por quê? – Indagou Ultrax.
- Você não estava morto? – Perguntou Chuvisco.
- Estaria, se o bunda-mole aí fizesse as coisas direito!!!

Os heróis entreolharam-se. Ninguém entedia mais nada. Srbek limpou o sangue e as lágrimas, mais surpreso do que os demais com as acusações.

***

Mansão Y.

- Aááááááághhhh!!! Pára com isso, Jenny!!! Cacete!!! Que foi que deu em vocês???
- Você está sendo procurado, Lobo. Assassinato. – Raio Negro interveio.
- Tá, me conta uma coisa que eu não sei.
- Um tal de Carrasco.
- Carrasco? Isso lá é nome de gente?
- Onde esteve na noite anterior?
- Sei lá!

Jenny voltara a seu aspecto normal. Ela e Raio Negro se entreolharam.

- Olha, acabei de acordar num beco imundo de São Paulo, não faço a menor idéia de como fui parar lá. Alguém pode me explicar o que está havendo?
- Jenny, sonde a mente dele.
- Qualé, porra? Tá duvidando de mim, cacete? Quando foi que eu menti pra vocês? Hein? Posso não ir com a tua cara, Raio Negro, mas eu também tenho a minha honra.

Passou no meio dos dois, naturalmente irritado.

- E saiam da minha frente que minha garganta tá pedindo uma cerva!
- Lobo! Volte aqui! Nós não terminamos!
- E cadê o resto do povo, hein?

Jenny viu a pergunta abalar Raio Negro e se deteve. Pôs a mão em seu ombro e os dois seguiram Lobo Guará até a cozinha da mansão.

***

Decepcionados, Doutor Fantástico e Mulher Fantasma aterrissavam uma vez mais no jardim da Mansão dos Defensores da Pátria. Saíram da Excelenave apressados, ávidos por entrar em contato com os Defensores da Pátria e o Capitão 7.

- Rodolfo? Garoto? Onde vocês etão?
- Doutor!!! – O menino irrompeu de seu esconderijo improvisado e agarrou a perna do Dr. Fantástico, apavorado.
- Garoto? Que aconteceu?
- Me protege dele, Doutor! Me protege dele!!
- Quem?
- Do Rodolfo!!!

Nesse instante, o mordomo surgia na sala, sonolento e surpreso. Doutor olhou para ele com cara de espanto.

- Do Rodolfo?
- Ele tentou me matar!!!

Rodolfo apoiou-se na parede para não cair. Não podia acreditar naquela acusação.

- M-Matá-lo? – sentiu dificuldade em pronunciar a palavra. – Eu devo ter cochilado em meu quarto por um instante, mas... eu jamais iria ferí-lo, meu rapaz!
- Mentira!!! Mentira!!! Bate nele, Doutor!!! Bate nele!!!

Doutor olhou para a esposa. Em seguida, para os outros dois.

- Hmm...

***

Fazenda dos Souza.
Sara entrou correndo dentro da casa, eufórica. Parecia que tinha visto os deuses descendo à terra.
E de certa forma, tinha mesmo.

- Pai!!! Pai!!! Vem ver!!! Vem ver!!! Eles estão vindo!!!
- Quem filha? Quem está vindo?
- Eles!!! Vem!!! Vem!!!

Tio Ricardo e Nando saíram curiosos e apressados, seguidos pelo resto da família. Olharam para o céu e viram algo que jamais tinham visto.
Exceto Nando, é claro. Eram eles. Eles estavam de volta. Todos os heróis, reunidos. Aterrissando bem ali, no terreno dos Souza. Ogun à frente.
Por mais que o velho Dínamo R estivesse cansado de lutas, não deixava de admirar aquela bela visão.

- Dínamo.
- Ogun.
- O que esse povo todo está fazendo aqui?
- Vamos conversar...

***

Osasco City
Haviam conversado o dia inteiro. Falaram sobre os velhos tempos, sobre seu falecido tio. Sobre os dias de colégio, cujas maiores preocupações era estudar para a prova e fugir dos grandalhões que queriam roubar seu lanche. Quem diria que o mundo um dia foi mais simples?

- Cadu, sobraram algumas bolachas no forno. Por que não leva para comê-las mais tarde?
- Está brincando? Se eu apareço no meu barraco com as famosas bolachas da tia Maria, vão me torturar até eu entregar o pacote todo!
- Oh, Cadu, você é tão bobo...

A senhora cansada sorriu da piada sem graça do sobrinho e o abraçou enquanto ele terminava de lavar a louça. Conversariam mais um pouco e depois ele a deixaria dormindo na cama.
A casa estava toda arrumada. Sentia-se feliz de ter vindo ajudar e ter passado seus momentos finais com a melhor tia do mundo. Olhou para as paredes uma última vez antes de subir para o quarto. Deitou-se e ficou olhando para o teto, a mente a divagar sem rumo.
Queria ficar em paz pelo menos uma vez na vida.

***

Curitiba.

- Você quer a verdade, Capitão 7? Claro que eu digo! Ou quer contar você, GRALHA???

Os heróis olharam para o herói, sem entender a acusação.
Mas Gralha entendeu.
No fundo, ele entendeu.

- Do que está falando?
- Ah, não sabe? Será que só eu cometi um crime e ainda assim, sou inocente? Será que não percebeu ainda?

As palavras incomodaram o vigilante, trazendo à tona tudo o que ele estava lutando para esconder.

- Ah, você percebeu... percebeu sim!!! Você é o maior dos heróis dessa cidade, não é, “Sr. Fodão”? Você sabe!!! Mas não quer admitir!!!
- Do que ele está falando, Gralha? – Encarou Gloriosa.

Hesitou. Virou de costas, não queria encará-los. Não queria – como dissera o Bagre Humano – encarar sua maior vergonha.

- Está falando de coisas que não se encaixam na minha mente. Está falando de uma lembrança minha de ter prendido uma gangue que não foi encontrada pela polícia. Está falando de um pedaço de uma capa minha que encontrei no beco onde meu inimigo foi morto. Está falando que eu não sei o que eu estava fazendo quando aconteceu.

Parou de falar. Aquele não parecia mais o Gralha, mas um homem.
Um homem desesperado.

- Parece improvável, mas eu acho que o assassino do Palhaço da Agenda... fui eu mesmo.

***

- Não fui eu!!! – Gritou mais uma vez Srbek, segurando seu choro.
- Pare de mentir, desgraçado!!! Você foi lá! Me encontrou na lanchonete! Me enganou!!! E me deixou pra morrer!!! Pra ser devorado por formigas!!!
- Srbek? – Chuvisco olhou para ele, duvidoso. – Você fez isso?
- Não! Eu juro, cara, eu não faço a menor idéia de como vim parar aqui... por favor... uhhh... huh...

Desfez-se em choro. Estavam de volta à estaca zero.

***

Um hotel de luxo em São Paulo.

- Quem é? – Perguntava a voz sem paciência de dentro do quarto.
- Perdoe o incômodo, senhor. – Explicava o gerente do hotel – Mas há alguns amigos seus no saguão do hotel... eles solicitam a sua presença.

Portal abriu a porta.

- Amigos, é?

Desceu as escadas e viu uma legião de super-heróis esperando-lhe.

- É brincadeira... isso aqui tá pior do que carnaval...
- Portal.
- Qual é, Ogun? Veio dar outro murro na minha cara? Tá zangadinho?
- Peço para que apenas me ouça. Vim desculpar-me por minha vergonhosa atitude. V ocê sabe...
- Eu sei. Não precisa se desculpar. Só me diz o que essa galera está fazendo aqui.
- Nós viemos... lhe fazer uma proposta...

***

Em outra parte, uma coalizão similar estava se formando. Magnus e uma irmandade de vilões invadiram uma prisão especial e libertaram todos os criminosos. Alguns deram ouvidos ao que ele tinha a dizer, outros não.
“Vilões”, eram assim chamados. Vilões sempre fadados ao fracasso.
Homens.
Homens ávidos por acabar com o ciclo vicioso que suas vidas haviam se tornado.

***

Os três estavam reunidos na sua lanchonete preferida, embora a encontrassem pela primeira vez, deserta. Não havia mesmo nenhuma pessoa para atendê-los, então tiveram de se servir sozinhos. Cercados pelos fantasmas daquele lugar.
Fantasmas de tempos mais alegres e jovens. Quando faziam piadas para tirar sarro um do outro. Quando Lobo Guará enchia a cara para comemorar alguma vitória. Quando Raio e Jenny conversavam sobre a infância enquanto os demais procuravam saber o que iria passar no cinema no final de semana.
Tudo acabou.
E um sino revelava a porta abrindo-se. Uma deusa negra de cabelos brancos passava pela porta e caminhou até a mesa deles.

- Tormenta, nós não vamos voltar. – Disse Noctívago antes que ela dissesse qualquer coisa.
- Eu sei. Eu vim me despedir de vocês.
- Despedir? – Surpreendeu-se Colosso.

Gatinha não sabia o que dizer.

- Eu também não vou ficar, meus amigos. Vou voltar para a África. Lá é meu lugar.
- Por que... não fica um pouco?

Sorriu.

- O tempo urge.

Em seguida, cumprimentou cada um dos três. Não havia mais palavras a dizer ou lágrimas a chorar. Só restara o vazio de suas vidas.
Tormenta mal havia partido quando o exército de superseres aproximou-se do lugar.
Colosso reconheceu o Besta entre eles. Foi ele quem entrou na lanchonete para conversar enquanto os demais esperavam do lado de fora. Explicou quais eram as intenções do grupo.

- Isso não vai acabar bem. – Profetizou Noctívago.
- Também não gosto da idéia. – Concordou Colosso. – Se é só conversar, pra quê toda essa gente aí fora?
- Escutem, eu também não estou me sentindo à vontade. Mas temos que convencer eles a parararem com isso! Ogun acredita que quanto mais gente estiver do nosso lado, mais fácil será fazer isso. – Explicou o colega.
- E se... – Gatinha decidiu arriscar. – E se as coisas fugirem do controle?
- Então, minha cara... – Respondeu o Besta - ...que Deus, se é que Ele existe, nos ajude...

***

A tensão não estava mais amena na Mansão dos Defensores da Pátria. Rodolfo permanecia de pé, no canto, enquanto Mulher Fantasma estava sentada no sofá, abraçando o garotinho. Doutor andava de um lado para outro, pensando. Avaliando possibilidades e probabilidades, o que parecia aumentar ainda mais a tensão e o suspense.

- Hmm... isso tudo... é muito...
- Louco? Insano? Caótico? – Arriscou Mulher Fantasma.
- “Curioso” era o que eu ia dizer. Fiquem aqui, sim? Estarei na sala de comunicações.

E caminhou para lá, determinado. Rodolfo e o garoto evitavam se encarar. O garoto, em especial, lutava para continuar olhando para o chão enquanto sentia os dedos de Mulher Fantasma acariciando seus cabelos.
Doutor entrou na sala e abriu a freqüência para contatar o Capitão Brasil.

- Olá, Capitão. Como vão as coisas por aí?
- Doutor, não é um bom momento. Encontramos Srbek e... e o Nitron.
-
O Nitron? Vivo? O que ele alegou?
- Aparentemente, o que já sabíamos. Srbek atacou ele e tentou matá-lo, mas Srbek nega até a morte. Escute, Doutor... conversamos depois, ok?
-
Espere, Capitão! O que Srbek disse? Que palavras ele usou?
- Disse que não se lembra de ter atacado o Nitron e que não faz a menor idéia de como veio parar aqui.
-
Hmm...
- Por quê?
-
Continue na linha, Capitão, deixe-me confirmar algo...
- Certo. – O Capitão Brasil respondia enquanto o drama se desenrolava em BH.

***

Besta Humana cansara de esperar no jato e fora assistir ao “espetáculo” junto aos policiais.

- Como vamos indo, capitão?
- Eu sei lá... nada mais faz sentido, cara. Os malditos heróis lá discutindo e nós aqui, assistindo ao fim de tudo, de camarote.
- E por que não vai embora? Com a família?
- Ah... eu sei lá. Sabe que, mesmo agora, tem uma parte de mim que acredita naqueles safados. Que quer ter esperança que eles vão salvar a gente de novo. Essa parte, sabe... a melhor... ela ainda sente que tem um dever a cumprir. É por isso que eu estou aqui.

Sorriu.


- Sei o que quer dizer. Sabe, Capitão, mesmo agora eu ainda acredito que todos nós temos um papel a cumprir nesse... nessa.... em nossas vidas, entende? Acho que você entende o que eu quero dizer...
- Sei... ei, mas quem é você, afinal? O Homem-Grilo sem o uniforme?
- Não, não... eu sou o Besta Humana.
- O Be... Meu Deus!!! – Sacou a arma, seguido dos poucos policiais que ali estavam. Todos apontaram suas pistolas para o franzino e pálido homem. – Parado! Parado! Não mexa um músculo sequer!!!
- Ei...
- Parado!!!
- Ei!!! Se acalma, ta? Tá tudo sobre controle agora! Se acalma!

Os policiais tremeram, mas lentamente, foram baixando suas armas.

- Não vou machucar vocês. Eu... minha fúria... se exauriu. Sabe, a Velta... ela era minha prima. Por isso e fiz tudo aquilo no Rio. Para punir os assassinos.

Eles olhavam para ele, desconfiados. Mas o capitão decidiu confiar nele e guardou a arma. Ainda um tanto desconfiado, voltou a ficar a seu lado – mas mais um pouco distante, por precaução – e apoiaram-se na viatura para continuar assistindo.

- Lamento por sua prima...
- Eu, também.

***

- Alô
- Capitão 7, é Doutor Fantástico. Tiveram sucesso na missão de vocês?
-
Pode-se dizer que sim... – Respondeu o herói, ainda em Curitiba.
- Ótimo. Quais as novidades?
-
As coisas foram estranhas por aqui, Doutor. O Bagre diz não se lembrar de ter atacado o Pirata Mental, apesar de todas as evidências apontarem para isso. O mesmo aconteceu com o Gralha.
- Gralha?
-
Sim... aparentemente, foi ele o assassino do Palhaço da Agenda.
- E ele diz não se lembrar?
-
Sim, também.
- Certo... continue na linha, sim? Eu já falo com você.

Mansão Y.


Doutor falava com os três ao mesmo tempo da Mansão.

- Senhores, finalmente temos um padrão nos assassinatos. Todos foram executados por pessoas que dizem não se lembrar do que aconteceu.
- Sim, mas isso... é bastante oportuno, não concorda?
-
Sim e não! Não acredito que eles estejam mentindo, Capitão!
- Espere um segundo. – Interrompeu o Capitão 7. – Está sugerindo que alguém os manipulou e depois apagou suas memórias?
-
Exato.
- Só um poderoso telepata poderia fazer isso. – Concluiu o Capitão 7.
- Não. – Raio Negro entendeu aonde Doutor queria chegar.
- Qual é o maior telepata que conhecemos? – Perguntou Doutor.

Todos pensaram no mesmo nome. Mas foi o Capitão Brasil quem o disse:

- Carlos Yavier.

Fim do Capítulo 08

 

“Não acho que podemos motivar ninguém. Ou você tem dentro de si o que é necessário para fazer um trabalho, ou não tem.” – Joe Kubert.