Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 10

"O Homem que Matou o Universo"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

Sentiam-se estranhos naquela biblioteca. Algo não parecia certo. As máscaras pareciam sufocá-los, não se sentiam mais confortáveis naquelas roupas ou armaduras. Alguns decidiram tirá-las enquanto Raio Negro aproximava-se de seu mentor.
Descobrir o que havia de errado em tudo aquilo era algo para depois. Agora era hora de confrontar o assassino.

- Professor!
- Raio.
- Por Deus, Carlos... por quê? – Raio Negro aproximou-se, a indignação fervilhando em seu sangue.

Fez-se um longo silêncio até que a voz do Professor Yavier fosse ouvida novamente. Ele evitava encarar os heróis e seu olhar perdido parecia caçar palavras, procurando desesperadamente por onde começar.

- Raio... não espero que você ou os demais entendam. Mas vou tentar explicar. Não sei bem onde tudo começou. Na minha infância, talvez. Não paro de pensar nela, na verdade. Eu era uma criança retraída, mesmo antes de manifestar meus dons. Quando adolescente, enquanto os demais preocupavam-se com espinhas e hormônios, eu me perguntava por quê o mundo era daquele jeito. Errado. Injusto. Cruel. Bem, eu cresci.  E depois que aprendi a controlar meus dons, naturalmente veio a dúvida sobre o que poderia ser feito com eles. Como usá-los de forma a ajudar o mundo? O que fazer para deixar alguma contribuição à humanidade? Com o tempo, percebi que tinha obrigações com a sociedade como um todo. E daí veio a idéia de criar a escola... e os Y-Men.

Carlos engoliu em seco antes de continuar.

- Nos primeiros anos, eu estava muito empolgado. Reuni você, Raio... um herói experiente, um modelo que os demais iriam seguir. Jenny, Beto, Henrique, Guilherme… todos os outros, você conhece a história. E eu realmente acreditava que estávamos fazendo alguma diferença. Debelamos tantas ameaças que cheguei a perder a conta.

Raio lembrou-se dos bons tempos... a equipe original, as aventuras. Mas decidiu não interromper. Afastou a nostalgia e esforçou-se em se concentrar no presente.

- Eram bons tempos. Mas com o passar dos anos, me perguntei se realmente fazíamos uma diferença. Tantos amigos e parentes morrendo e nós... lá... lutando. E para quê? O que fizemos de bom? E voltei a me perguntar por que, apesar de tanta luta, o mundo continuava igual. Errado! Injusto! Cruel! Ainda existia racismo contra nós, contra os negros e contra os judeus. Ainda existiam assassinatos, estupros e roubos. E guerras! Guerras sem o menor sentido, por disputas de terras, visões religiosas ou por meros interesses capitalistas! E não me entrava na cabeça que o mundo continuava em decadência mesmo com milhares de heróis cercando o globo! Não me conformava que tínhamos que nos contentar em combater o crime ou ameaças cósmicas por ESPORTE, ao invés de usar nossos poderes para o bem da humanidade! Tudo por causa daquele maldito pacto! – Os olhos de Yavier lacrimejam e, avermelhados, encaram Dr. Fantástico, como se o culpasse. Doutor respondeu em silêncio.

O pacto proposto pelo Doutor anos atrás garantia a não-interferência dos seres sobre-humanos no curso natural do planeta, seja na área política ou econômica, pois isso poderia causar um impacto cataclísmico na humanidade em pouquíssimo tempo. Teoricamente, seria melhor que eles não interferissem. Obviamente que ouvia discórdia nesse ponto, mas a maioria procurava respeitar o pacto. Inconformado com isso, Carlos prosseguiu:

- E não suportava a idéia de tantos governos serem corruptos ou oprimirem a massa! Me dava vontade de TOMAR O PODER DAS MÃOS DELES!!! Mas, não! Heróis não agem assim, não é mesmo?
- Professor... – Raio ia começar a argumentar, mas Carlos continuou:
- Isso mesmo, não agem.

Silenciaram. Carlos continuou a história.

***

O passado. Carlos saía de casa rotineiramente, melancólico. Passeava pela cidade. Todos os dias, o mesmo itinerário. E sempre notava o garotinho lá, brincando no parque sem qualquer companhia. Solitário. Parecia triste como ele, por algum motivo.
Até que o viu ser atingido por uma aflição fora do comum um dia, como que tivesse se perdido dos pais. Não pôde deixar de ter compaixão com o garoto que chorava descontrolado.
Curioso, Carlos aproximou-se para ajudar e, inadvertidamente, leu sua mente. Foi quando descobriu. Foi quando se deu conta de que o mundo onde vivia não era real. Mas apenas... fantasia.
Aterrorizado com a verdade, Carlos ficou paralisado, enquanto o garoto foi embora, correndo.
Lentamente, o Professor retornou à mansão, começando a pensar. E pensar. Recusava-se a acreditar, ligou sua mente a todas as demais, procurando desesperadamente um indicio de que eram reais. Acabou removendo as barreiras de sua mente e enlouqueceu. Provar que o mundo era real tornou-se uma obsessão.
Não demorou a descobrir que outros sabiam da verdade. Nitron. Palhaço da Agenda. Craniano. Pirata Mental. Velta. Carrasco.
Tentando restaurar sua sanidade, tentou conversar com eles, o que só piorou a situação. Passou a beber com freqüência, para desespero de seus alunos, que não entendiam o que se passava com seu mentor.
Não demorou muito, o enlouquecido Yavier confrontou os Y-Men.
E foi derrotado.
Naquele fatídico dia, Carlos abrigou-se em seu quarto... e traçou o plano sádico.

***

- Tendo de aceitar a situação, passei a olhar as coisas sob outra ótica. E me permiti... ter esperança! – Dizia ele aos heróis na biblioteca. – De repente, senti um grande alívio ao saber que tudo poderia ser um pesadelo e eu poderia acordar se quisesse! Eu só precisava ser ousado o suficiente! Mataria aqueles seis para que eles não espalhassem a verdade! Não importava, eles não existiam mesmo! Mas se espalhassem a verdade, eu sabia que vocês tentariam impedir a destruição. E eu não queria isso! Eu queria aquele mundo DESTRUÍDO!

Carlos começou a se lembrar de cada assassinato, cuidadosamente planejado.

- Apaguei a mente dos Y-Men para que eles não lembrassem de nada... nem de minha depressão, nem de nosso confronto. Garota Mental com certeza foi a mais difícil, mas consegui estabelecer bloqueios. Depois, estudei como se daria a morte daqueles seis. Eu poderia ter feito cada um deles ter se suicidado, mas preferi um caminho mais complexo para que não desconfiassem que havia um telepata por trás de tudo. O primeiro foi o Palhaço. Ele era um assassino sádico que merecia a morte há muito tempo. Contudo, ninguém nunca teve coragem de matá-lo. Sempre iniciamos o mesmo ciclo vicioso com ele e com qualquer outro criminoso. Mas como matá-lo? A resposta não poderia ser mais irônica...

***

Gralha corria atrás de seu inimigo uma vez mais naquela noite, pelos telhados de Curitiba. O Palhaço da Agenda debochava do herói, como sempre. Até chegar no parapeito de um prédio e não ter para onde fugir. Ele logo mudou sua expressão sarcástica, ficando desesperado. Sem saída, encarou Gralha com seu cínico semblante de piedade.

- E-ei, passarinho... tá legal, tá legal... você venceu! Eu me entrego, beleza? Ei!!! – O Palhaço estranhara que Gralha o pegasse pelo colarinho e o erguesse, tirando os pés do vilão do contato com a cobertura do prédio. O vilão olhou para baixo e viu uma queda de trinta andares direto até um beco imundo. – E-ei, qualé, parceiro? N-nós dois sabemos que você não vai fazer isso, certo? Não é?

Gralha não respondeu, o que acabou assustando o Palhaço e lhe dando a certeza da morte. Completamente desesperado, ele agarrou a capa do vigilante.

- Não faça isso, Gralha!!! Nós sempre fomos amigos, não fomos??? Não estrague nossa relação agora!!! Não faça isso!!! Não! NÃO!!!!

E mesmo com o Palhaço implorando pela vida, o Paladino das Araucárias abriu as mãos, deixando que seu velho inimigo se espatifasse no chão.

- Nããããããããããããaãõoooooo.... – Incrédulo, o Palhaço caiu, rasgando a capa do vigilante e soltando o pedaço que ficara em sua mão durante a queda.

O pedaço da capa iria parar na escada de incêndio do prédio adjacente. De madrugada, Gralha acordaria sem lembranças do ocorrido, acreditando ter prendido uma gangue de bandidos comuns durante sua vigília.

***

- O Pirata Mental tinha o mesmo problema que o Palhaço, a Supersanidade. Investiguei a Santa Casa de Curitiba e descobri que sua cela era protegida contra ataques psíquicos. Nada que eu não pudesse driblar, mas naturalmente, não poderia atacar diretamente. Então, decidi usar alguém... eficaz.

***

O Pirata estava em sua cela, preparando-se para dormir, quando ouviu um barulho vindo de fora. Estranhando, aproximou-se da parede. E subitamente, foi surpreendido com dois braços monstruosos atravessando o concreto e agarrando-lhe o pescoço.
Não teve tempo de gritar ou de sentir dor. Bagre Humano arrancou sua cabeça e devorou-a. Yavier liberou toda a fúria do vilão, o que fez com que ele dilacerasse completamente o Pirata em poucos segundos, provocando uma torrente de carne e vísceras na cela, deixando-a pintada de sangue.
Quando não restava mais nada a ser fatiado, o Bagre Humano saiu por onde entrou. Pulou novamente sobre os muros do asilo e desapareceu no bosque. Uma vez lá, Yavier devolveu-lhe o domínio do corpo e ele percebeu o ocorrido. Sabendo que ninguém acreditaria em sua inocência, tratou de fugir.

***

- Craniano era a mesma coisa. Com o passar dos anos, um vilão com sua inteligência avantajada logo descobriu que era um personagem de ficção. Ele era um problema pior do que o Pirata... inacessível por vários meios. O peão mais próximo seria o guarda do corredor, mas se eu o usasse, poderia levantar surpresas. Decidi, então, abrir uma exceção e fazer com que se suicidasse. Era o caminho mais fácil. Já que ele era clinicamente insano, o suicídio não pareceria tão estranho, ainda mais dadas as calamidades que vinham ocorrendo em todo o planeta.

***

Em sua cela, Craniano suava frio, imaginando uma maneira de sair dali e vingar-se de seu arqui-inimigo. Seu ódio aumentava dia após dia e ele não pensava em outra coisa. Era o papel destinado a ele.
Naquele dia, contudo, sua atenção foi subitamente desviada. Foi quando teve a ilusão de piolhos entrando em sua cabeça. A princípio, apenas pôs-se de pé dentro da cela, começando a dar tapas na própria cabeça, esperado que os piolhos saíssem. Os tapas começaram devagar, mas à medida em que ele percebia que não estavam adiantando, começou a aumentar a força. Dava tapas cada vez mais fortes em si mesmo, mas não adiantava.
Logo começou a arranhar seu volumoso crânio, cheio de raiva, mas também não adiantou. Foi quando sentiu os piolhos começando atravessar a carne e o crânio. Podia sentir eles penetrando a pele e o osso. A devorar seu cérebro. E a dor... a angustiante dor... Yavier apenas deu a corda para que ele, com sua própria loucura, se enforcasse.

- Não!!! Não!!! Saiam da minha cabeça, SAIAM!!! SAIAAAAAAAMMMM!!!

Não suportando a dor, ajoelhou-se em cima da cama e começou a bater a cabeça na parede. E bater e bater, cada vez com mais força, na parede imunda infestada pelo limo. Os pedaços de crânio e miolos foram ficando presos na parede e o sangue emplastado enojou Craniano por um mero instante, mas a dor era incrível, ele não podia parar, a dor fora da cabeça ainda era menor do que a de dentro. O desespero e a loucura dançavam juntas como amantes traçando as preliminares do ato sexual. Craniano continuava a bater a cabeça na parede.
A cabeça se abriu, ele seguiu batendo, num automatismo frenético, abastecido pela adrenalina, ignorando o cheiro de suor, a sujeira, a urina e o sangue pela cela.
Até se fazer ouvir um som seco. Seus movimentos cessaram e ele caiu com a cabeça aberta, arroxeada, fiapos de cérebro despedaçado e esfarrapado, fios pendentes espalhando-se pelo chão.
Finalmente, a dor cessara.

***

- Foi mais horripilante do que eu achei que seria, mas estritamente necessário. – Alguns evitaram encarar o professor e imaginavam a crueldade que fizera com Craniano. Ninguém fez nenhum comentário e ele prosseguiu: - Fiquei triste em matar Velta. Mas ela também sabia a verdade, graças a seu criador.

***

Velta estava em seu apartamento, assistindo televisão. Comia pipoca e sentia o vento do ventilador, na velocidade máxima. Obviamente que não esperava aquele ataque.

- Já vai! – Saiu da cama e aproximou-se da porta ao ouvir a campainha.
- Oi! – Era o Relâmpago.
- Mas que... – E sem pestanejar, bateu a porta na cara dele. Contudo, um estilhaçar de janela se fez ouvir. Era o Carcará, fazendo sua entrada triunfal.

Relâmpago logo atravessou a porta e disparou uma rajada que a atingiu em cheio.

- Esse truquezinho já funcionou com outros, moça... deve funcionar com você.
- Ungh... que... está... fazendo...?

Radiação gama. Relâmpago a bombardeou, sabendo que isso anularia temporariamente seus poderes. Tempo o suficiente para Carcará completar o serviço.

- Vai, Carcará! Dá cabo nessa vadia!!!
- Com prazer!!!
- Não!!! – Mesmo enfraquecida, Velta era osso duro de roer. Pegou o ventilador e jogou na cara do velho vilão, atravessando a janela por ele aberta logo em seguida.
- Como você é burro, Carcará! O efeito é temporário! Atrás dela, vamos!
- Cale-se! Ninguém me dá ordens!!!

Velta desceu correndo pela escada de incêndio até chegar na rua. E correu, ofegante. Estava vulnerável uma vez mais. A rua estava deserta, exceto por um policial.

- Seu policial! Que sorte! Ainda bem que você estava fazendo ronda por aqui! Me ajude! Estou sendo perseguida pelo Carcará e pelo Relâmpago! Por favor, me dê cobertura enquanto eu chamo os Defensores da Pátria!
- Claro, Velta, não se preocupe. Eu vou ajudá-la...
- Obrigado! Muito obri...
- ...a ir mais cedo para o cemitério! – Sacou rapidamente a pistola e deu três tiros. Velta tombou no chão, morta.

O policial foi embora calmamente, enquanto Carcará e Relâmpago separaram-se.
O efeito dos raios logo passaria, mas ela já estaria sem vida no chão frio da madrugada.

***

- Outro herói que sabia a verdade era o chamado Nitron. Decidi usar Srbek porque ele já teve problemas psicológicos no passado e eu poderia usar isso como arma.

***

Srbek e o Nitron conversavam alegremente numa lanchonete. Pareciam velhos amigos confraternizando e tomando café juntos. Depois de algumas risadas, saíram e foram dar uma volta no campo. Nitron ia à frente.

- Era por aqui. Estamos quase chegando, eu vou te mostrar...
- Claro... claro que vai... – Disse Srbek, enquanto parava e pegava as cápsulas em seu bolso.
- Como disse?

Não obteve resposta, foi atingido pelas costas pelo gás, que o encolheram quase que instantaneamente.

- Ei! Mas que diabos está fazendo? O que quer provar??

Rapidamente o apanhou enquanto ele ainda estava surpreso, e o jogou num formigueiro.

- É bastante simples, meu caro... quero provar que você não passa de... comida de formiga!!!

Ameaçadas, as formigas começariam a atacar o “agressor”, ameaçando devorá-lo por completo.
Srbek iria embora sem olhar para trás, deixando-o para morrer.
Contudo, Nitron utilizaria o poder das próprias formigas contra elas, enfrentando-as de igual para igual. Quando uma abelha passou por perto, conseguiu duplicar seu poder de vôo e fugir dali.
Aguardou um bom tempo até o efeito das partículas passarem... e ele poder ir atrás de seu pretenso algoz.

***

- Sim, foi um erro usar Srbek. O incompetente poderia ter comprometido todo o plano.

Yavier sentou-se numa cadeira antes de continuar.

- Carrasco era outro verme pertencente à escória da humanidade. Lobo Guará teria adorado dilacerá-lo por conta, mas eu não podia arriscar.

***

O mercenário estava sentado numa mesa bar, espadas embainhadas nas costas, machado escorado na mesa, um copo de cerveja na mão. O barman já de saco cheio do papo de bêbado, só ouvindo ele contar coisas desconexas a um judeu à sua frente.

- Porra, velho... toda essa viagem... fim do mundo... gente sumindo... isso tudo não tá com nada... eu sei exatamente o que tá acontecendo. E quer saber duma coisa? Tô pouco me fudendo!!!
- Bweheheheheh, demôôôôônioooooo... – Disse o judeu antes de sorver um gole de refrigerante.

Carrasco virou a caneca e não notou o homem que se aproximava. Não até que as garras dele estivessem atravessando as costas do judeu e saindo pelo peito.

- Carrasco... tu sempre falou demais...
- Mas o que...
- Agora você vai conversar é com o capeta!

Carrasco limpou o rastro de cerveja na boca enquanto Lobo jogou o judeu morto para o lado. Seu oponente desembainhou as espadas e Lobo jogou a mesa para o lado. Os dois digladiaram-se num confronto feroz. Garras e espadas rasgando carne, golpes pesados destruindo as mesas ao invés de acertarem seus alvos.

- Não!!! No meu bar, não!!! No meu bar, não!!!
- Argh!!! – Lobo gritou ao sentir a lâmina atravessando-lhe o ombro, mas não deu a mínima. – É isso aí, verme... dá o melhor de si! Porque tu não passa dessa noite!!! – E revidou ao enfiar as garras no peito de Carrasco, forçando-o a largar a outra espada.

E jogou o Carrasco por sobre o balcão, fazendo ele atingir dezenas de garrafas de bebida na prateleira, para desespero do dono do bar, que corria dali junto com os outros clientes.
Lobo tirou o fósforo do bolso, que usava para acender charutos. Riscou um deles.
E jogou em cima de Carrasco.

- Aaaaaarrrrghhh!!! Isso arde, cacete!!!
-
Não brinca.

Correu na direção da janela, mas Lobo já esperava que ele fizesse isso. Esperou ele lá e, quando seu inimigo ameaçou saltar, passou as garras pelo pescoço do mesmo. Seu corpo seguiu em frente, devido à inércia. Atravessou a janela e foi cair na rua, incandescente.
Lobo acendeu um charuto nas chamas da cabeça de Carrasco. Em seguida chutou-a e ela rolou pelo chão do bar até o fogo se apagar. Juntou-a e encarou-a, como se ainda estivesse viva.

- Velho, como tu é feio...

Depois disso, saiu pela entrada. Deixaria a cabeça no lixo e seguiria em frente...

***

Na biblioteca do mundo real, Yavier prosseguia seu relato:

- Então, depois que os matei, destruí o Detector Y para manter vocês ocupados com Lobo. Ainda controlei Rodolfo para tentar matar a criança interior do nosso protagonista e assegurar a destruição do Universo. Mesmo sem sucesso, segui com o plano e fugi para cá... para a liberdade! – Carlos virou o rosto. Não conteve as lágrimas. Não queria que eles o vissem chorar, mas não suportou mais.

Chorava e soluçava descontroladamente, de uma forma que mesmo Raio Negro não tinha visto. Esforçou-se para concluir.

- Até descobrir que... o mundo real... é muito pior... – Ergueu a cabeça na direção da janela, encarando o mundo lá fora. – Aqui eles têm todos os problemas que tínhamos lá. Mas não existem... heróis...

E ficaram em silêncio, ouvindo apenas os murmúrios de um homem desesperado...
Como poderiam culpá-lo, sabendo que ele tinha razão?
Como poderiam culpa-lo... se eles mesmos sabiam exatamente como Carlos Yavier estava se sentindo?

Fim do Capítulo 10

 

"Para não ser tocado por uma crise, é sempre preciso estar acima dos demais. Porque, quando "passam a espada", cortam a cabeça do pelotão, mas se você estiver acima vão cortar, no máximo, seus pés.” - Eduardo Risso.