Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 11

"A Busca"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

Estavam perdidos. Não sabiam ao certo o que fazer ou o que pensar.
Bxtruvik removera a máscara e encarava-se no espelho. Não havia cicatrizes.
“Será possível?”, pensava. “Fui mesmo criado como um personagem de ficção e agora estou no verdadeiro mundo real?”
Se fosse verdade, deveria haver algum meio de tirar proveito dessa situação.
Ouviram os pedaços da armadura de Ultrax serem jogadas no chão. Em seguida, um homem comum sentou-se numa cadeira, em silêncio.
Carlos Parducci fez o mesmo, jogando máscara, uniforme e todo o resto no chão. Ficou apenas com sua calça verde, sentando-se ao lado de Ultrax, igualmente quieto.
Doutor e Mulher Fantasma estavam abraçados, enquanto o pequeno Francisco dormia. Esperavam alguém dizer o que fazer.
O Professor Yavier parara de chorar e dissera a Raio que poderia retirar os óculos. Ele o fez e abriu os olhos, surpreso em ver que não saíram rajadas óticas de suas órbitas. Ainda assim, a claridade o incomodava.
Velocista estava feliz em ter as pernas de volta, mas ficara chocado com o discurso do Professor Yavier. Cochichava alguma coisa junto ao Homem-Plástico, eventualmente.
Daniel também estava perdido e perguntava ao Gralha o que fariam. Não obteve resposta.
Finalmente, o Capitão 7 pôs o assunto em pauta:

- E então? Qual é o plano?

Doutor desvencilhou-se de sua esposa por um instante.

- Devemos encontrar a mente da qual saímos. Se o problema é falta de sonhos... vamos convencer ele a voltar a sonhar.
- Isso é perda de tempo, Fantástico. – Interrompeu Bxtruvik. – Nosso Universo já morreu a essa altura. Vamos cuidar de nossas próprias vidas.

Disse isso e dirigiu-se à porta de saída.

- Bxtruvik, aonde você vai? Bxtruvik? – Fantasma tentou chamá-lo de volta, mas foi ignorada.
- Hah. Não esperava menos desse babaca. – Frisou Daniel.
- Bem. – Emendou Gralha. – Se vamos fazer isso, vamos de uma vez.

E eles foram. Um a um, os onze heróis saíram da sala.
Não demorou muito para um funcionário da biblioteca aparecer ali e perceber algo estranho.
Capas, máscaras e pedaços de armadura de super-heróis de gibi jogados no chão.

***

Eles procuraram por um bom tempo, seguindo instintos e o elo que eles ainda detinham com o a pessoa que teve eles na mente por tanto tempo. O homem, mulher, criança ou adolescente que havia deixado de sonhar.
E eles chegaram em um lugar.
Chegaram até onde você está.
E eles conversaram com você. Explicaram a situação.
No começo você não acreditou, pensou ser alguma espécie de golpe publicitário para comprar algum novo título de quadrinhos.
Mas algo no tom de voz deles lhe soou familiar. De alguma forma, você sentiu que eles tinham origem de dentro de você. De sua mente. De sua alma. Dos seus sonhos.
Era isso a chave de tudo, no final das contas. Os sonhos da infância e adolescência, fomentados por personagens de histórias em quadrinhos, videogames e desenhos animados. Não era fantástico passar a tarde inteira fingindo ser seu super-herói favorito? Não era emocionante reunir seus amigos e brincar com eles até o dia escurecer e sua mãe sair correndo de casa atrás de você?
Sim, era fabuloso. Você não sentia sede, fome, ou vontade de ir ao banheiro. Poderia ter passado sua vida inteira naquela idade, não é mesmo? Sem se preocupar com o trabalho estressante que tem hoje. Sem se preocupar com seu namorado ou sua namorada, ou sua família. Sem ter de correr atrás da matéria da faculdade, perdida porque precisou faltar uma semana por precisar viajar pela empresa. Sem ter provas para estudar ou apresentações para fazer.
Sair de casa, do conforto do lar de seus pais, parecia algo tão distante. O tempo passou rápido e quando você se deu conta, não tinha mais tempo para nada. Não tinha mais tempo para eles. Não podia mais brincar, tinha que correr contra o relógio.
Você trocou seus velhos sonhos por novos. A casa própria. O carro. As belas mulheres ou um rico namorado. Viagens pelo mundo afora ou desejos de ser promovido na empresa. Você já não tem mais a saúde que tinha no passado e precisou contratar um plano. Mais uma conta para pagar, no fim. Luz, água, telefone, cartão de crédito, juros de banco. Você não folheia mais revistas em quadrinhos, mas talões de cheques. Não lê mais as gags das tiras, mas seu saldo bancário.
E tudo... tudo se foi.
Tudo acabou, junto com a infância. Você fica triste com isso, mas simplesmente responde a eles, dando de ombros: “É a vida, não há nada que eu possa fazer. Desculpe, mas eu preciso ir. Estou... sem tempo agora.”
“Estou sem tempo agora.”
Isso lhes corta os corações, se é que eles realmente existem.
Você vai embora e eles não podem fazer nada a não ser ficar olhando.
E velar pelo Universo que era destruído em seu interior.

***

Lá, o Capitão Brasil ainda lutava bravamente para resistir à fúria avassaladora de centenas de superseres.

- Pra cima deles!!! Não desistam!!! Não desitam!!! Tudo depende da gente!!!

Bruxo foi pego de surpresa e teve o crânio esmagado por Ogun. Besta Humana estava ferido, mas ficava mais irado a cada instante. Lobo Guará estava exausto, suas mãos formigavam, enquanto Cobra descobriu que a munição acabara e foi engolfado pela onda de violência.
Kutang e Gloriosa resistiam bem, até que... desapareceram.
E junto com eles, vários outros. Começaram a desaparecer, simplesmente, do campo de batalha, em velocidade assustadora. Apagados da existência.
O Capitão ficou estático, não sabia o que fazer. Até que viu todos eles sumirem, junto com todas as construções ao redor. Ajoelhou-se, sozinho. Apenas o branco a seu redor. O nada a engolir o que restara.
Viu-se sufocado pela destruição... e nada pôde fazer.

- Espero que isso seja reversível, Dout...

E então, acabou.
Restava apenas o vazio, onde antes havia a infinidade do fantástico.

***

- Sentiram isso? – Indagou o ex-Homem-Grilo, certo de que jamais veria sua tia e sua amada novamente.

Doutor Fantástico e Mulher Fantasma abraçaram-se, aos prantos.

- F-falhamos com eles, Fantasma... nós falhamos... com todos...

Ela não conseguia falar, tão forte chorava. As lágrimas encharcaram o que restara do uniforme de ambos.
Gralha sentou-se na grama, não sentia firmeza nas pernas. Daniel levava as mãos ao rosto, inconformado.
Capitão 7 baixou a cabeça, olhando as próprias mãos. Sentiu-se impotente pela primeira vez na vida.
Velocista queria correr. Correr o mais rápido que pudesse, voltar para casa. Queria estar em casa.
Homem-Plástico sentou-se no banco da praça onde estavam, inconformado. Havia perdido as piadas desde que isso tudo começara. Agora, perdia as palavras.
Ultrax balançava a cabeça, incrédulo, as mãos na cintura. “Inaceitável”, repetia a si mesmo.
Carlos Yavier abraçou Raio Negro.

- É culpa minha, Raio. É tudo culpa minha. - Não parava de repetir.
- O senhor não tinha como saber, Professor.
- Não há desculpa, Raio. Não há...

E ali, em lugar nenhum, velaram a morte de um Universo.

***

Horas depois, o Professor ainda estava tentando se desculpar com todos. Alguns lhe deram ouvidos, outros não.
Gralha ouviu. E sua resposta foi a mais veemente.

- Para ser sincero, Yavier, seu maldito hipócrita, você me enoja. – Disse sem encará-lo. – Não podemos condená-lo por assassinatos que, teoricamente, você não cometeu. Mas por mim, eu te deixava para apodrecer e te condenava a nunca mais vir atrás de nós.

Carlos ficou surpreso, mas não respondeu.

- Para sua sorte, não sou eu quem toma as decisões do grupo. – Falou e afastou-se, sem sequer olhar em seu rosto.

Raio se aproximou.

- Professor, ele não estava...
- Sim, Raio, ele estava. E tem toda razão.

Baixou a cabeça, o olhar perdido. Mas sabia o que fazer. Virou-se sem se despedir e começou a andar.

- Professor... espere. Professor?

Não adiantava, ele sabia. Deixou ele ir. Talvez fosse mesmo a melhor coisa a se fazer. Ninguém protestou.

- Tá. – Velocista voltou-se para os demais. – E agora? Damos um tiro nas nossas cabeças? O que vamos fazer?
- Se vamos tentar sobreviver nesse mundo... – Sugeriu Gralha. – Vamos precisar de identidades falsas.
- Está brincando? – Falou Plástico. – E se nos pegarem?
- Tem alguma idéia melhor?
- E como sugere que façamos isso? – Indagou Ultrax.
- Eu tenho algumas idéias. Mas vamos sair daqui primeiro.
- Certo. Vamos de uma vez. – Daniel começou a andar enquanto eles se levantavam.
- Ei, Sete! Vamos!

Gralha olhou para a areia do parquinho e o chamou, mas o homem que já foi o Capitão 7 não queria ir. Estava lá, fazendo as crianças felizes. Empurrando-as no balanço, ajudando-as a descer no escorregador.

- Sete!
- Já vai!

Um garoto desceu da pirâmide de ferro e se aproximou.

- Ei, moço! Ele te chamou de Sete! Por um acaso, você é o Capitão 7 de verdade?
- Sou, sim! – Sussurrou. – Mas não conte pra ninguém, certo?
- Qualé! Se você é mesmo o Capitão, voa que eu quero ver!
- Não posso! Esse tipo de coisa só funciona no gibi. Quando eu vim pra cá, perdi meus poderes, sabe.
- Sete! – Insistiu Gralha.
- Só um Segundo!
- Mas se você quer me ver voar, tem um jeito, sabia?
- Mesmo? Qual é?

Abaixou-se e falou baixinho ao ouvido dele:

- Nunca deixe de sonhar.

Depois olhou ele nos olhos. Deu um sorriso e andou até Gralha.

- Tchau, Capitão 7!
- Tchau, Capitão 7!
- Tchau, Capitão 7!
- Tchau! Despediu-se das crianças e, antes de seguir seu caminho, deu uma piscadela ao garoto que continuava lhe encarando.

***

Daniel corria freneticamente pelos telhados com uma trouxa de roupas enorme nas mãos. Fez algumas acrobacias, mas tomava cuidado para não tentar saltos tão arriscados quanto o que estava acostumado.
Finalmente, deslizou por uma viga que o levaria até o chão.
Contudo, tropeçou no meio do caminho e acabou desequilibrando-se e caindo de considerável altura.

- Ufh!
- Daniel! – Gralha foi em seu socorro. Estava com falta de ar e talvez tivesse quebrado algo.
- E-estou... bem...
- Não, não está. Fique quieto.
- Vejamos o que o nanico trouxe... – Plástico abriu a trouxa e encontrou roupas para todos. Roupas retiradas dos varais das donas-de-casa.
- E-eu não sabia... os números de vocês... então trouxe vários...

Um vestido ficou perfeito em Mulher Fantasma, enquanto os demais tiveram de se virar para encontrar roupas que servissem. Logo, estavam todos em trajes civis e no fim das contas, o jovem Daniel não havia quebrado nada, mas não conseguiria sentar por um tempo.

- Muito bem. – Gralha começou. – Vou ver o que consigo pra gente. Enquanto isso, ocupem seu tempo. Nos encontramos aqui em 12 horas.
- 12 horas? Eu vou morrer de fome até lá! – Brincou Velocista.
- Corra atrás de alguma lebre. – Gralha respondeu e saiu dali.

Não havia, afinal, perdido seu jeito lacônico de falar.

***

Grilo, Daniel, Plástico e Velocista andavam pela rua para passar o tempo. Tentavam disfarçar o medo ante os novos desafios iminentes.

- Não posso acreditar que estamos aqui. – Daniel começou um assunto.
- É tudo tão... frio. Nunca vejo as pessoas olhando para o céu. – Comentou Grilo.
- Elas não têm muito o que olhar, não é verdade? Não é como o nosso mundo. – Retrucou Velocista.
- Será que eles têm alienígenas? Como será que é a relação com eles?
- Cala a boca, Plástico... – Daniel ia falar alguma coisa, mas um garoto passou correndo entre os quatro. Um homem corria atrás dele, vindo na direção deles:
- Ei, pega!!! Pega, é ladrão!!! O garoto roubou meu caixa!!!

Grilo olhou para o trombadinha correndo, com tristeza.

- Certas coisas parecem iguais, mesmo.
- É... – Exclamou Daniel enquanto corria atrás do garoto.

Não demoraram a alcançá-lo e cercá-lo. Foi Daniel quem conseguiu segurá-lo.

- Ei, guri. Qual é? – Disse. – Vai querer se sujar por essa ninharia?
- Me larga! Vão cuidar da vida de vocês!
- Você não devia estar na escola, não? – Grilo aproveitou.
- Que mané, escola! Ou você me larga ou vou chamar meus bródi! Eles vão fazer peneira de vocês com os trêis-oitão!!!
- “Três-oitão”? Que idade você tem, garoto? – Velocista perguntou.
- Não te interessa! Me larga!

Nisso, o homem que corria atrás do garoto chegava até eles, ofegante.

- O... obrigado... obrigado... eu não conseguiria sem vocês...
- Devolva o dinheiro, guri. – Grilo ordenou. A contragosto, o garoto foi obrigado a devolver.

Depois do devido sermão, deixaram ele ir. O homem agradeceu aos quatro uma vez mais e fez o caminho de volta com o dinheiro na mão.

- Não há nada que possamos fazer? Só isso?
- Imagine quantos casos como esse não há por aí.
- Em nosso mundo, nós não íamos nos conformar só com isso.
- É. Não íamos.
- Será que não há esperança no mundo real?

***

Enquanto os quatro filosofavam, Doutor e sua esposa estavam sentados num banco de praça perto do parquinho de crianças, ao lado de Francisco, que hesitava em ir até lá.

- Não está certo, Mulher Fantasma. Algo não está certo. Minha mente... não está funcionando como deveria. Eu me sinto... me sinto...
- Normal?
- Isso... algo assim.
- Isso é passageiro, querido. Vai demorar para nos ajustarmos nesse novo mundo. Às vezes também tento ficar invisível por instinto, mas esqueço onde estamos.
- Não é só isso. O meu gênio... eu sinto como se tivesse... perdido. Não consigo pensar em Física Quântica sem ter dor de cabeça. E tudo era tão fácil antes...

A conversa foi interrompida com a chegada de uma bola chutada aos pés deles. Um garotinho logo apareceu para pegá-la e viu Francisco ali, sozinho.

- Obrigado, senhor. Ei, você não quer brincar com a gente?

Francisco acenou negativamente com a cabeça, receoso.

- Não quer mesmo, Chico? – Fantasma olhou para o filho. – Pode ir, filho, nós estamos aqui olhando.
- Eu... eu tenho medo... – Falou, baixinho. Fantasma o abraçou e falou ao seu ouvido:
- Ô, minha lindeza, medo de quê? Eu e seu pai estamos aqui, nada demais vai acontecer.
- Medo... deles...
- Das crianças? Ora, não seja bobo, eles são normais, como você, agora. Tudo agora é real. Por que não vai lá brincar com eles pra você perder o medo?

Ainda hesitante, Francisco desceu do banco e seguiu seu novo amigo até o campo improvisado de futebol na grama. Doutor sorriu ao ver que seu filho logo estava adaptando-se.

- Acho... acho que só estou como Francisco. Com medo...

Fantasma sorriu para o marido e ambos beijaram-se ao pôr-do-sol.

***

12 horas depois.
Encontraram-se no ponto combinado e Gralha começou a distribuir as novas identidades.

- Muito bem. Eu me tornei “Sérgio Prata” e Daniel, você agora é “Roberto Green”.
- Nome espanhol? Que porcaria é essa?
- Não é espanhol. Foi o que eu consegui. Doutor, Fantasma...
- “Martin e Eliza F. Wald” – Doutor vê seu nome na nova identidade.
- Por que eles têm nomes estrangeiros?
- Não enche, Daniel.
- E eu? – Indagou Francisco.
- Nós fazemos a sua legalmente quando você tiver idade, filho. – Respondeu Fantasma.
- Plástico, a sua.
- James Carrey. Gostei, posso usar “Jim Carrey”. Que acham?
- Capitão.
- “Eduardo Pascall”?
- Velocista.
- Hm. Douglas... Jo... Ju... como se pronuncia isso?
- Jouglard.
- Vou ter que treinar.
- Deve. Grilo.
- Ricardo Prado? Parece nome de fotógrafo pornô. Não posso ser Carlos Parducci mesmo?
- Não. Ultrax.
- “Al Gore”. Gostei. Parece nome de político.
- Raio.
- “Patrick Englehart”. Acho que combina comigo. Onde diabos você conseguiu esses nomes?
- Bem, estão todos com identidades civis. O resto é com vocês. Acho que teremos mais sucesso se seguirmos sozinhos, mas podemos nos reencontrar aqui daqui a um mês para trocarmos contato. O que acham?

Todos concordaram e, depois das despedidas, seguiram sozinhos. Estavam prontos para suas novas vidas. Partiram com pesar no coração por ter seus lares arruinados.
Mas também com esperança, ao saber que, dentro de cada criança com a qual eles tiveram contato... e muitas outras pelo mundo afora, havia um Universo inteiro.
Lá fora, havia infinitas Terras com as quais sonhar...

Fim do Capítulo 11

 “Mesmo neste inferno em alta octanagem de crueldade e sofrimento, o Amor ainda sobrevive. Um Amor tão puro, brilhante e branco quanto um Sol explodindo e virando uma Nova, brilhante como o sorriso de Deus e duas vezes tão abençoado.” – James O´ Barr.