Crise nos Super-Herós Brasileiros:
Capítulo 12

"Os Sonhos Importam"
Por Leonardo Melo e Fábio Ochôa

Era um dia de céu azul. Eduardo Pascall dormira até tarde, mas não se importava. Gostaria de aproveitar aquele sábado ensolarado para descansar e à noite, sairia com sua bela namorada, Luísa. Saiu da cama, lavou o rosto e pegou o jornal que estava lhe aguardando do lado de fora da casa. Recolheu-o e sentou no sofá enquanto ligava a tevê.
Abriu o jornal e um largo sorriso ao reconhecer a matéria que escrevera no dia anterior. Estava lá, estampada na primeira página. Sua primeira “primeira página”. Merecia uma comemoração, sem dúvida. Sairia para jantar com Luísa, aquela morena de cabelos curtos e olhos firmes, apaixonada por ele. Depois iriam para a casa dela e ela vestiria aquela camisola sensual e provocante, que ele adorava. Tudo regado a um bom vinho, é claro.
Mas agora era hora de parar de sonhar e se preparar para o Cooper matinal. Muito embora já passasse do meio-dia, mas ele não se importava. Era seu dia de folga e iria aproveitar. Um merecido dia de folga.
Colocou a roupa de corrida e logo estava no parque, dando alô a rostos conhecidos que tiravam sarro dele por causa do atraso. Recusava alguns convites para almoçar, mas agradecia educadamente. Lembrou-se de Luísa e do jantar e teve a idéia de irem ao cinema. Decidiu mudar um pouco seu trajeto, saindo do parque e descendo a avenida. Quebrou para a direita duas quadras depois, onde ficava o cinema, para ver que filme estava passando.
Parou de correr na frente do cinema, incrédulo. Quase não acreditou. Seu coração saltou por um instante, cheio de emoção. Não sabia dizer se era lisonjeio ou raiva por terem copiado seu nome. Mas como poderiam saber?
Estava em cartaz “Capitão 7 – o Filme”.
Logo a emoção passou e ele aceitou a situação. Como teve de aceitar tudo desde que chegara. Acabou dando um sorriso e voltou a correr.

***

Era mais um dia cheio de ação para Sérgio Prata e Roberto Green, desde que haviam se tornado parceiros na polícia. Junto com outros policiais, estavam prestes a pôr em prática uma arriscada operação para desbaratar o tráfico de drogas em sua cidade. Iriam invadir o prédio de onde um “barão da droga” exercia seu comando.

- Agora, vai, vai, vai!!!

Ao comando do capitão, os dois, seguidos de mais quinze, invadiram o local, de armas na mão, apontando em todas as direções. Os bandidos logo vieram ao encontro dos policiais e o tiroteio começou.
Roberto foi atingido.

- Beto!!! – Gritou Sérgio, por instinto.
- Pegou no colete, pode ir! Vou ficar bem!!!

Sérgio entrou atirando com tudo. Roberto tirou o colete. Ele mentira. A bala o atravessara e ele estava sangrando muito. Seu velho amigo voltaria em tempo de perceber.

- Oh, não... seu... desgraçado... por quê mentiu? Por quê?
-
Você pararia para me ajudar... e comprometeria... a operação... – Disse, o sangue prestes a sufocá-lo.
- Aguente, eles já chamaram uma ambulância.
- S-Sérgio... Gralha... v... você acha... acha que eu morreria assim? Lá?

Silenciou. Pela milionésima vez, desejou ter continuado no Universo fictício para ter uma resposta.

- Não sei, amigo. Como vamos saber o que um roteirista teria planejado para nós?
- V-valeu a pena, amigo. Tudo... valeu...

No dia seguinte, os jornais diriam que a operação foi um sucesso e que houve apenas uma baixa.

***

Jim Carrey abria a porta de seu apartamento empolgado. Fazia tempo que ele não via seu grande amigo...

- Douglas!!! Mas que surpresa! Que bom que veio, entre, entre!
- Pois é... depois que ficou famoso em Hollywood, você não dá mais bola para os amigos, não é?
- Ah, que papo furado é esse? Senta aí! Quer uma bebida?
- Claro, por que você acha que eu vim?

Sentaram-se no sofá com seus drinques na mão e Jim logo foi interrompido por uma loira descomunal que saía de seu quarto recém vestida:

- Mas então...
- Jim, meu amor... já que seu amigo chegou, eu vou dar uma volta, tudo bem?
- Ah, está bem, querida, mas não demore, certo? Vamos jantar daqui a pouco!
- Hmmm... – Deu um demorado beijo de língua no astro comediante, que deixou Douglas Jouglard com água na boca. – Tchau.
- Tchau.

Douglas não conseguiu dizer nada, apenas a cumprimentou com a cabeça, dando um sorriso amarelo. Jim não escondia o sorriso do rosto e só quanto a loira saiu do apartamento Douglas sentiu-se à vontade para dizer:

- Seu filho da puta... ela não tem umas amigas, não?
- Hah, hah, hah... ah, qualé? Vai dizer que você não pega umas atletasinhas de vez em quando?
- Que nada. Só tenho tempo de treinar e olhe lá.
- Rumo às Olimpíadas?
- Se Deus quiser.
- Se é que ele existe, não é, meu amigo?

Fez-se silêncio. Os dois tomaram goles de seus drinques e suspiraram.

- É, ele aprontou uma boa com a gente, não foi?
- Bem... não temos muito do que reclamar. Eu me tornei um astro de Hollywood, você, um corredor famoso. O que mais a gente queria?
- Você sabe a resposta.
- Ora, Velocista... vamos. Esse papo de “mundo melhor” já encheu. Fazemos o melhor que podemos e, enquanto isso, curtimos a vida. Paciência!
- É. – O ex-herói tomou outro gole. Esse desceu com dificuldade. – Só não sei se é o suficiente.

***

Ricardo Prado estava com um sorriso de orelha a orelha. Depois de tantos anos fotografando modelos, essa, sem dúvida o deixara extasiado. E ela notara que ele não conseguia disfarçar sua empolgação. Falava com ela, conversavam e ele contava piadas enquanto procurava os melhores ângulos para o ensaio. O que quer que acontecesse, aquelas seriam as melhores fotos de sua vida.

- Você é mesmo uma gracinha. Como se chama mesmo?
- Ricardo. E você?
- Kirsten.
- Kirsten. Será que a gente pode... sei lá... – Disse, meio sem jeito. - Sair pra tomar uma café depois daqui?
- Eu adoraria.
- Legal.

***

Patrick Englehart tornara-se piloto de avião e dava aulas como instrutor nos fins de semana. Nunca tirava seus óculos vermelhos e batizara seu avião de “Pássaro Negro”. Diziam que ele era cego. Primeiro, porque nunca tirava os óculos e segundo, porque o avião era branco.
Não obstante, hoje sua aluna era uma ruiva que vestia jeans colado no corpo e uma regata amarela que permitia ver perfeitamente o desenho de seus belos seios. Patrick ficou nervoso ao vê-la, mas logo recompôs-se e dirigiu-se ao avião que estava estacionado na pista.

- Hm-hm. Bem, vamos à aula?
- Oh, sim, claro. Eu estou tão empolgada, sabe? Não vejo a hora de tirar esse brevê. Depois eu quero aprender a saltar de pára-quedas. O senhor sabe?
- Aprendi cedo... – Veio em sua mente uma memória irreal dele e de seu irmão despencando com pára-quedas em chamas presos às costas.
- Ah, deve ser emocionante, não é, não?
- Eu nem tenho palavras...

Entraram no avião e Patrick tomou o lugar do piloto enquanto ela sentou-se ao seu lado.

- Muito bem, ponha os cintos. Hoje, eu decolo e aterrisso. Lá em cima eu dou o avião para você, certo?
- Tudo bem.
- Como é seu nome mesmo?
- Madelyne.
- Ok, Madelyne. Vamos voar...

***

Eliza Wald chorava descontroladamente abraçada a seu filho, na sala de sua casa. No chão, uma carta abandonada...

“Querida Eliza,

Sei que nunca vai me perdoar pelo que estou prestes a fazer. Isso não é mais uma de minhas artimanhas para resolver um impasse cósmico em outra de nossas aventuras. É um jeito egoísta que encontrei de resolver um problema meu.
Isso me corrói, querida. Você se deu maravilhosamente bem como pedagoga e nosso filho progride a cada dia. Ele se dará bem nesse mundo novo. Esse mundo cruel e novo. Mas eu... eu, não. Eu tentei, querida. Juro por Deus que tentei e vocês dois são testemunhas. Mas nada mais é como antes, não consigo raciocinar com a velocidade de antes e não sirvo nem para dar aula de Matemática para a primeira série. É frustrante. Como pode um homem que já salvou o Universo de ameaças cósmicas não conseguir administrar nem as despesas do mês?
Por isso, estou partindo. Do único jeito que eu sei: me esticando.

Com amor,
                                                           Doutor.”

E, no quarto do casal, jazia o corpo de Martin F. Wald, pendurado pelo pescoço por uma corda.

***

Dois funerais em menos de duas semanas. Em ambos, apenas oito pessoas compareceram: Eduardo Pascall, Sérgio Prata, Jim Carrey, Douglas Jouglard, Ricardo Prado, Patrick Englehart, Eliza e Franklin Wald. Al Gore não pôde comparecer em nenhum dos dois, estava por demais comprometido com a campanha política para a presidência dos Estados Unidos. Ele concorria com George W. Bush, mas o que ninguém sabia – exceto aqueles oito – era a identidade real de Bush: Doutor Bxtruvik.
Carlos Yavier, por outro lado, desenvolvera uma escola para jovens excepcionais. Ele havia evitado entrar em contato durante todos esses anos, mas agora, no funeral do antigo Doutor Fantástico, ele decidira aparecer.
Ao chegar, mesmo em uma cadeira de rodas, foi visto com maus olhos pelos presentes.

- O que veio fazer aqui? – Retrucou Sérgio imediatamente. – É tudo culpa sua.
- Eu... eu sei. É por isso que eu vim. Eu... será que um dia vocês... podem... me perdoar?

Sérgio virou-se e saiu do cemitério. Patrick aproximou-se.

- Professor? Como foi que... você...?
- Um acidente de carro.
- Parece que muita coisa do que acontece lá acontece aqui também, não é? – Eliza disse, os olhos encharcados. – Eles deveriam voltar da morte. Como lá...

Ela também saiu, abraçando seu filho. Patrick esperou ela sair.

- Você tinha razão, não tinha, Professor? Esse mundo é muito pior.
- Não sei, Raio Negro. Todo dia eu me faço a mesma pergunta.

Aos poucos, cada um foi se retirando, até restar apenas os dois no cemitério.

- Eles nunca vão me perdoar, não é mesmo, Raio?
- Eles não precisam, Professor. É o senhor que tem de perdoar a si mesmo.

Patrick o respondeu e partiu em seguida.
Para Yavier, a volta para casa nunca foi tão solitária.

***

Ao chegar na escola novamente, já havia uma mulher aguardando para falar com ele.

- Desculpe, Sra. Ferreira, acabei de chegar de viagem, então não estou com muito ânimo para...
- Oh, mas não vou tomar muito do seu tempo, Professor. É o meu filho, sabe... estou pensando em matriculá-lo na sua escola, mas queria conhecer o senhor pessoalmente antes.
- É claro. Pode ter certeza de que seu filho terá todo o cuidado necessário. Se tiver alguma dúvida, pode conversar com as meninas da secretaria.
- Oh, muito obrigada. Eu fico mais confiante conhecendo o senhor.
- É sempre um prazer.
- O prazer é meu, Sr... Yavier, certo? Como é mesmo o seu primeiro nome? – Indagou a mulher, cumprimentando-o.
- Carlos.
- Carlos? Carlos Yavier, que nem naquele gibi? Hah, hah, hah, hah... – Soltou uma gargalhada eufórica, que não foi compartilhada por Yavier. Ao contrário, ele respondeu com melancolia:
- É... que nem no gibi...

***

Eduardo Pascall ganharia o prêmio Pullitzer cinco anos depois e se casaria com a repórter Luísa Lindsay.
Sérgio Prata aposentaria-se com honras e viveria recluso até o fim de seus dias.
Jim Carrey fez sucesso em Hollywood atuando em filmes de comédia, romance e drama.
Douglas Jouglard continuou correndo e ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas dois anos antes de se aposentar.
Ricardo Prado casou-se com a atriz Kirsten Dust. Ficaram dois anos juntos, mas hoje encontram-se divorciados e ele continua atuando como fotógrafo profissional.
Al Gore perdeu as eleições para George W. Bush, fazendo o mundo inteiro lamentar.
Patrick Englehart casou-se com Madelyne e tiveram um casal de gêmeos, que chamaram de Nathan e Rachel. A família vive feliz no interior do Paraná.
Eliza F. Wald começou a fumar compulsivamente depois da morte do marido. Morreu de câncer aos 43 anos. Seu filho formou-se em Ciências Políticas e pretende concorrer ao Congresso no ano que vem.
Carlos Yavier nunca mais viu nenhum de seus ex-colegas. Continua vivo e administra sua escola até hoje.
E em algum lugar, alguém está fechando um livro e colocando numa prateleira, junto a uma imensa coleção de hqs. Vira-se para o computador, que permanecera ligado.
Senta-se na frente dele e começa a escrever...

Fim

“Os sonhos importam. Os sonhos sempre importam.” – Neil Gaiman.