Corpo Fechado 2
Este foi apenas um exercício de criatividade que fiz alguns anos atrás, imaginando uma continuação para o excelente filme "Corpo Fechado", de M. Night Shyalaman, estrelado por Bruce Willis e Samuel l. Jackson. Para ser sincero, não acho que tenha ficado bom. Na verdade, tem umas passagens bem ruins e hoje, há várias coisas que eu mudaria, mas na época, cheguei a pensar até num trailler...
Trailer
Cena 1:
Bruce Willis andando por um corredor mal-iluminado, passando por dois guardas.
Cena 2:
A janela da porta de uma cela é aberta. A câmera “entra” pela janela e focaliza os olhos sérios de quem está lá dentro: Samuel L. Jackson.
Cena 3:
Sam está perto da janela: DAVID. COMO VAI A VIDA DE HERÓI?
Bruce: NÃO TENHO MAIS TEMPO PARA ISSO, ELIJAH. TENHO ESPOSA E FILHO PRA CUIDAR.
Sam: VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO, DAVID.
Bruce: NÃO. É VOCÊ QUEM NÃO ESTÁ ENTENDENDO. A VIDA REAL NÃO É UM GIBI, ELIJAH.
Cena 4:
Bruce se afastando da porta da cela, vindo na direção da câmera. Ao fundo, pode-se ver o rosto furioso de Sam.
Cena 4:
Inverte o ângulo de visão: a câmera passa por cima do ombro direito de Sam. Ao fundo, Bruce se afasta.
Cena 5:
Visão de dentro da cela onde está Sam. A câmera o pega de perfil. A janela aberta faz a luz de fora vir visitar seu rosto. Ele cerra os punhos.
Cena 6:
Vista de frente de Sam. Ele dá um grito de raiva. Em câmera lenta, ele dá um murro na porta, com a mão esquerda.
Cena 7:
O grito ecoa pelos corredores, os dois guardas correm para ajudá-lo.
Cena 8:
Sam caído no chão, o erguendo o punho quebrado. Os guardas entram na cela, aproximando-se dele:
Guarda 1: O QUE FOI? QUE ACONTECEU?
Guarda 2: QUE FOI QUE QUEBROU DESSA VEZ, SR. VIDRO?
Sam: M-MINHA MÃO... MINHA MÃO...
O Guarda 1 se ajoelha perto dele: CALMA, DEIXE-ME VER.
A câmera mostra a outra mão de Sam, mostrando uma lâmina.
Close em seus olhos: ESTÁ TUDO BEM AGORA.
Rapidamente, a mão direita dele cruza o ar na direção do pescoço do guarda.
Cena 09:
Sam está deixando a cela, ao fundo, de costas para a câmera. Ele caminha calmamente, deixando para trás dos dois guardas mortos.
Cena 10:
Um raio no céu. Chuva. Tempestade.
Uma casa iluminada pelos relâmpagos e castigada pela tormenta.
Ouve-se a voz de Bruce: ONDE ESTÁ SUA MÃE, JOSEPH?
Ouve-se a voz de um guri: E-EU NÃO SEI... PENSEI QUE ELA ESTAVA EM CASA...
Cena 11:
Dentro da casa. Um telefone tocando.
Bruce atende: ALÔ?
A voz de Sam no telefone: DAVID.
A câmera mostra a mão de Bruce se fechando. Depois, mostra seu rosto furioso e ele grita enquanto gesticula, como se seu inimigo estivesse à sua frente:
Bruce: SE VOCÊ... OUSAR...
A voz de Sam no telefone: SE VOCÊ LESSE QUADRINHOS, DAVID, SABERIA QUE OS HERÓIS SOFREM PERDAS TRÁGICAS. AGORA, PRESTE ATENÇÃO: NÓS VAMOS JOGAR UM JOGO.
A câmera gira ao redor de Bruce enquanto ele ouve....
A voz de Sam no telefone: EU VOU LHE DIZER O QUE FAZER. CADA VEZ QUE VOCÊ FALHAR, SUA ESPOSA PERDERÁ UM DEDO. SE, AO FINAL DO NOSSO JOGO, ELA TIVER MAIS QUE CINCO DEDOS CONTANDO AS DUAS MÃOS, ELA VIVE. CASO CONTRÁRIO...
Cena 12:
Bruce está correndo desesperado pela rua.
Cena 13:
Uma mulher dirigindo um carro, arregalando os olhos ante seu destino inevitável: ela está prestes a colidir com um ônibus batido.
Cena 14:
Pessoas desesperadas dentro de um elevador que cai.
O elevador visto da fossa, se aproximando do chão.
Cena 15:
Noite, um prédio em chamas. Bruce está ferido, cansado, sujo e olha para o prédio, procurando uma entrada. Ele olha para trás, desesperado. A câmera focaliza sua expressão aflita, a respiração acelerada.
Cena 16:
Um flash. Bruce se afasta de um homem na rua, caminhando para trás, parecendo assustado.
Bruce: E-EU CONHEÇO VOCÊ...
O homem lhe encara e vira as costas.
Cena 17:
Joseph tossindo, na cama, debaixo de vários cobertores.
A voz de Bruce: VOCÊ É DOENTE, ELIJAH! MEU FILHO ESTÁ MORRENDO, NÃO ENTENDE ISSO???
Cena 18:
Sam responde: VOCÊ TEM MEIA HORA.
E bate o telefone.
Cena 19:
Entra a trilha sonora. Bruce está num shopping, cheio de gente. A câmera gira ao seu redor, enquanto ele parece procurar por algo.
BRUCE WILLIS
Cena 20:
Sam olha para a mulher, amordaçada e amarrada: SEU MARIDO É BOM NISSO.
SAMUEL L. JACKSON
Cena 21:
Bruce está parado, num lugar cheio de neblina, sozinho, a respiração ofegante, os olhos lacrimejados, desesperado.
A voz de Sam: VOCÊ NÃO ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO, DAVID!!
Cena 22:
Bruce em outro lugar, escuro, irado: QUANTOS OSSOS VOCÊ DISSE QUE QUEBROU NA SUA VIDA?
Cena 23:
Bruce esmurrando alguém.
Cena 24:
O elevador caindo.
Cena 26:
O prédio explodindo.
Cena 27:
Samuel rindo.
Cena 28:
Bruce gritando: EU MANDEI FICAR EM CASA, JOSEPH!!!
Cena 29:
Audrey gritando: DAVID!
Cena 30:
Joseph gritando: PAII!!!
Cena 31:
Bruce virando a cabeça, em câmera lenta, em desespero, parecendo querer gritar alguma coisa.
Cena 32:
Câmera lenta: Ao fundo, Bruce está se virando, Joseph corre na frente da sua mãe, que também está se virando para ver que uma bala caminha na direção dela.
A voz de Sam: VOCÊ VAI TER QUE APRENDER A SUPERAR AS SUAS PERDAS...
Corta. A tela fica escura. Depois de alguns segundos, começa a iluminar o nome do filme:
(Corpo Fechado 2)
Em seguida, é mostrado Joseph caminhando na densa neblina, sozinho.
Alguém o agarra por trás.
Coming Soon...
Quadrinhópole© 2004 – All Rights Reserved. A Leonard Mell Film.
UNBREAKABLE II
(CORPO FECHADO 2)
Roteiro Escrito por Leonardo Melo - Setembro / 2004
FADE IN
CARACTERES EM SUPERPOSIÇÃO: FILADÉLFIA, 1983.
Trata-se de um treino de futebol americano, do passado de DAVID DUNN. Podemos ver os jogadores correndo freneticamente, há gritos e risos. Ouve-se um apito.
Logo vemos o rosto de DUNN, com aparentemente 20 ANOS de idade. Ele está parado, meio curvado, esperando o time adversário reiniciar o jogo.
Contemplamos agora o rosto de um jogador do time adversário, aparentemente a mesma idade de Dunn, o rosto sério. É NICK TODD.
Ouve-se novamente o apito. Um dos jogadores, que estava segurando a bola perto do chão, joga-a por baixo das pernas. A bola vai parar nas mãos de Todd.
Um dos companheiros de time de Todd grita.
JOGADOR
Corre, Forrest, corre!
Todd sorri com a brincadeira do amigo e põe-se a correr.
Dunn está do lado oposto a Todd. Ele o vê correr para a lateral direita do campo e movimenta-se na direção dele.
Alternamos entre a visão de Dunn e a de Todd.
Finalmente, os dois se encontram, numa violenta colisão.
A bola vai para cima, em SLOW MOTION.
Todd tomba, inerte. Os jogadores dos dois times aglomeram-se ao redor do homem caído.
Vemos os rostos olharem para baixo, tentando enxergar se Todd está bem ou não. Entre eles, está o rosto de Dunn, preocupado.
VOZES DOS JOGADORES
Ele está bem?
Desmaiado...
Todd? Todd? Pode me ouvir?
Médico! Tragam um médico!
Vemos agora o rosto de Todd, desacordado.
Dunn afasta-se, assustado. Um dos jogadores o encara, com olhar de repreensão.
JOGADOR
Dunn, O QUE VOCÊ FEZ?
Vemos Dunn em CLOSE, a respiração ofegante, o olhar apavorado. Ele não responde, simplesmente vai andando para trás enquanto os médicos vão se aproximando.
FADE OUT
Entra a tela-título, acompanhada da música-tema (idêntica à do primeiro filme).
FADE IN
A mão de um guarda gira a chave que abre uma porta. Ele é robusto, a pele meio avermelhada, semblante truncado.
Ele passa por ela, acompanhando David Dunn para dentro de um corredor.
Os passos de ambos ecoam pelo corredor que abriga portas de ferro nas laterais.
Quase no final do corredor, eles param em frente a uma das portas. O guarda abre a pequena janela da porta e berra dentro da cela.
GUARDA
Ei, Sr. Vidro! Visita!
O guarda se afasta, enquanto David tenta enxergar pela pequena fresta. No meio da escuridão, ELIJAH PRICE está sentado. Ele olha para cima, na direção do facho de luz que vem ao seu encontro.
Levanta-se e aproxima-se da janela. Vemos a conversa dos dois de perfil.
ELIJAH
David. Que surpresa.
DAVID
Como vai, Elijah?
ELIJAH
Como você acha que estou, David? Essa é uma pergunta sincera? Ou está com a consciência pesada por ter me mandado para cá?
DAVID
Você não mudou nada. Fico triste com isso.
ELIJAH
Não deve haver dúvidas, David. Você tem de saber o que deve ser feito. Você fez a coisa certa chamando a polícia.
DAVID
Eu sei o que fiz.
David suspira por um momento, baixando o olhar. Elijah continua a encará-lo.
ELIJAH
E como vai a vida de herói?
DAVID
Não tenho mais tempo para isso, Elijah. Tenho esposa e um filho para cuidar.
ELIJAH
O quê?
DAVID
Já faz algum tempo que deixei essas besteiras de lado, Elijah.
ELIJAH
Você está me dizendo que todos os esforços que fiz foram em vão? Está me dizendo que, depois de todas aquelas mortes, de tantos sacrifícios para encontrar você... você negligencia suas responsabilidades?
DAVID
Eu não sou herói, Elijah. Nunca fui e nunca serei.
ELIJAH
Você não está entendendo, David.
ELIJAH.
Não, Elijah. É você quem não está entendendo. A vida real não é como o gibi, em que as pessoas fazem o que bem entendem. É muito bonito arriscar sua vida em prol do bem comum, mas aqui, na realidade, isso não funciona! Entenda isso!
Os dois se encaram por alguns segundos.
ELIJAH
O que você veio fazer aqui, David?
DAVID
Vim ver se podia ajudá-lo a melhorar, Elijah. Mas acho que estava errado.
David se afasta. Elijah o acompanha com o olhar, sério.
Vemos David cumprimentar o mesmo guarda que o acompanhara. O guarda abre a porta do corredor e sai junto com ele.
Do lado de fora, há outro guarda, mais magro, que usa óculos e está parado ao lado da porta. O guarda que acompanhou David fica do outro lado da porta enquanto David se afasta.
Em seguida, temos a visão de frente da cela de Elijah. Ele ainda está parado, olhando através da janela da porta.
Num CLOSE em sua face, vemos seu semblante mudar lentamente, de sério, para irritado... até ficar completamente furioso!
Ele grita e dá um murro na porta com toda sua força, com a mão esquerda. Pode-se ouvir os ossos de sua mão esse quebrando.
O grito de dor que vem a seguir ecoa pelos corredores, até chegar nos dois guardas, que se entreolham.
No instante seguinte, eles estão correndo na direção da cela de Elijah.
O guarda gordo apressa-se em abrir a porta da cela.
GUARDA MAGRO
Rápido, rápido!
A porta da cela se abre e eles entram. Elijah está caído no chão, segurando sua mão esquerda.
GUARDA MAGRO
Que foi? O que aconteceu?
GUARDA GORDO
Que foi que quebrou desta vez, Sr. Vidro?
ELIJAH
Minha mão... minha mão...
GUARDA MAGRO (Ajoelhando-se perto de Elijah)
Calma, deixe-me ver...
Elijah mostra a mão esquerda para o guarda enquanto, com a direita, vemos ele pegar uma lâmina escondida em suas costas, presa na cintura.
ELIJAH
Obrigado, meu amigo. Mas está tudo bem agora.
Num rápido movimento, vemos a mão direita de Elijah cruzar o ar, na direção do pescoço do guarda.
O outro guarda arregala os olhos, assustado, dando um passo para trás. E grita.
Depois, vemos Elijah de costas, saindo da cela, deixando os dois corpos no chão.
Cauteloso, ele passa pela porta do corredor, olhando para os lados. Ele caminha pelo corredor externo, até chegar numa bifurcação em “T”. Ele ouve vozes e, por isso, entra rapidamente numa sala em cuja porta está pregada uma plaqueta: “ALMOXARIFADO”.
Dentro da sala, ele fica à espreita, observando por uma fresta enfermeiras e médicos passarem conversando. Súbito, um zelador se aproxima dele.
ZELADOR
Pois não?
Elijah o fita com seu olhar insano. Vemos a lâmina em sua mão ensangüentada brilhar.
3. EXT. RUA – DIA.
Vemos Elijah saindo tranqüilamente da Instituição para Criminosos Insanos, atravessar a rua e sumir de vista.
Vemos ainda, um vulto fumando enquanto observa Elijah. Ele joga o cigarro fora e vai atrás dele.
4. INT. CASA DE David – DIA.
David está chegando em casa. Audrey vem ao seu encontro.
AUDREY
Oi, amor.
DAVID
Oi.
Eles se cumprimentam com um beijo rápido.
DAVID
Joseph está lá em cima?
AUDREY
Hm-hm.
DAVID
Vou subir um segundo. Está pronta?
AUDREY
Estou. David, a reserva é para o meio-dia.
DAVID
Fique calma, é um segundo só.
David sobe as escadas.
Joseph está lendo um gibi em seu quarto. David entra.
DAVID
Oi, filho.
Joseph interrompe a leitura, deixando o gibi de lado.
JOSEPH
E aí?
DAVID (Sentando-se na cama.)
Ele está pior do que quando foi preso.
Joseph baixa a cabeça.
DAVID
Não há nada que possamos fazer por ele, Joseph.
JOSEPH
Mas, pai... você não parou pra pensar... se ele...
DAVID
Estivesse certo? De novo, essa conversa, Joseph?
JOSEPH
Você é diferente! Será que não tem um motivo pra isso?
DAVID
Não importa, Joseph. Você quer que eu dê as costas pra você ou pra sua mãe pra sair por aí, batendo em bandidos? Esqueceu do que aconteceu? Do que podia ter acontecido?
JOSEPH
Mas Elijah...
DAVID
Chega, Joseph!!! Não percebe que está defendendo os argumentos de um assassino? Não vamos discutir isso de novo. Você se esquece de que tenho responsabilidades para com vocês.
JOSEPH
E o seu poder? Não tem responsabilidade para com ele, também?
DAVID
O que você quer, Joseph? Que eu acabe morrendo? E aí, o que vai ser de vocês? Isso aí pode ser muito divertido – ele diz, apontando para o gibi – mas não é assim que as coisas são, Joseph.
Joseph se cala, se dando por vencido.
DAVID
Vai almoçar na casa do Frank?
JOSEPH
Vou.
AUDREY (entrando no quarto)
Vamos, David?
DAVID
Vamos.
David se levanta com um leve sorriso, faz um carinho na cabeça de seu filho e sai.
AUDREY
Feche a casa toda quando sair.
Ela dá um beijo no rosto de Joseph e acompanha o marido para fora do quarto.
DAVID
Tchau.
Joseph não responde e o vemos em close, com um semblante triste.
5. INT. RESTAURANTE – DIA.
David e Audrey estão sentados numa mesa próxima da janela. Não vemos eles, mas sim seus reflexos refletidos no vidro da janela. Pode-se ver o céu cinzento no lado de fora. A comida ainda não chegou, mas eles estão com os copos pela metade. O de Audrey, água. O de David, refrigerante.
AUDREY
Frango? Pensei que você odiasse frango.
DAVID
Estou tentando mudar alguns hábitos.
AUDREY (sorrindo)
O que é isto, David? Crise da meia idade?
DAVID
Acho que sim.
Vemos um relâmpago refletido na janela. David faz uma pausa e continua.
Ao chede novo. E se nós...
AUDREY (interrompendo)
David! Está falando sério?
David responde com um aceno afirmativo da cabeça, ainda que hesitante.
AUDREY
David, e meu trabalho? E a o Joseph?
DAVID
Você pode arrumar um bom emprego lá. E há bons colégios para o Joseph...
AUDREY
Eu não acredito. Pensei que você tivesse desistido dessa idéia. O que foi, David? Aconteceu alguma coisa?
DAVID
Não, eu...
Nesse momento, vemos o reflexo do garçom se aproximando, trazendo na bandeja os dois pratos deles. Também percebemos pingos de chuva que começam a cair na janela. O garçom os serve, David agradece e ele vai embora. Eles começam a comer, mas continuam a conversa.
AUDREY
Você já conversou com Joseph sobre isso?
DAVID
Ainda não.
AUDREY
E acha que ele ia gostar?
DAVID
Ele é mais forte do que você pensa, Audrey.
6. EXT. CASA DE FRANK – DIA, CHOVENDO.
Na frente da casa de FRANK, Joseph, Frank e outros amigos jogam futebol americano na grama, enquanto cai uma pesada chuva.
Logo, a mãe de Frank aparece na porta da casa dele. É uma senhora gorda, que está vestindo um aventual.
MÃE DE FRANK
Meninos, venham! O almoço está pronto!
David e Audrey continuam a conversa. Ainda vemos apenas seus reflexos na janela.
AUDREY
Não sei, David. A idéia não me agrada, nem um pouco. Você anda estranho, David. Quer me contar alguma coisa?
Ela pára de comer um instante para pegar a mão do marido.
DAVID
Não... não é nada. É só que...
De repente, David desvia o olhar para sua esquerda, para baixo, como se tentasse ouvir alguma coisa. Nós o vemos em CLOSE e os sons cessam, não ouvimos nada, mas entendemos que é a intuição de David querendo lhe dizer alguma coisa.
Em seguida, vemos que Audrey está dizendo alguma coisa, mas não ouvimos. Apenas lemos seus lábios: “David, David?”
O som volta.
AUDREY
David? David, o que foi?
Ele hesita um segundo antes de responder.
DAVID
Eu pensei... ter ouvido...
Interrompendo a fala de David, ouvimos o som de um alarme de loja. Os clientes do restaurante, mesmo Audrey e David, ficam curiosos e tentam olhar pela janela.
Passam correndo alguns meliantes do lado de fora, aparentemente fugindo de alguma coisa. Fica subentendido que eles acabaram de assaltar uma loja.
Vemos David em CLOSE novamente, nitidamente inquieto.
Audrey está medindo a temperatura de Joseph, que está deitado na cama, debaixo de vários cobertores. Ele tosse continuamente.
AUDREY
Que idéia, Joseph. Não bastasse jogar esse jogo que você sabe que eu odeio, ainda por cima, na chuva? Era mais do que lógico que pegasse uma gripe.
Temos a visão de Audrey: o termômetro mede 37 graus.
AUDREY
Minha nossa, você está ardendo em febre! Tomou o remédio
JOSEPH (tossindo)
Tomei...
AUDREY
Está bem. Durma que amanhã de manhã, é capaz que já esteja melhor.
JOSEPH
Boa noite.
AUDREY
Boa noite.
Ela dá um beijo no rosto do filho e vai saindo do quarto. Apaga a luz antes de fechar a porta e se retirar de vez.
Audrey está descendo as escadas e vê seu marido perto da janela, vendo a chuva cair. Sua melancolia é nítida.
Ela se aproxima e põe a mão no ombro do marido.
AUDREY
David?
DAVID
Oi.
AUDREY
Está tudo bem?
DAVID
Hm-hm. Como está Joseph?
AUDREY
Acho que é só uma gripe. Se ele não melhorar de manhã, chamamos um médico, está bem?
DAVID
Pensei que você fosse médica.
AUDREY
Bobo. Ei, até que enfim um sorriso. Está aí, olhando a chuva...
DAVID
Só pensando na vida.
AUDREY
Não pensou demais por hoje?
Ela o beija.
DAVID
Hm. Acho que tem razão.
AUDREY
Vamos subir?
DAVID
Vamos.
Um vulto está observando a casa de David e vê o casal se afastar da janela.
Podemos ver seus olhos, frios. Irados.
David acorda, olha para o lado e vê sua mulher dormindo. Ele lhe dá um beijo no rosto e se levanta.
Chega na cozinha e prepara um copo de chocolate com leite. Põe no microondas, digita o tempo e o liga.
Sai da cozinha cm o copo de chocolate quente na mão e uma colher dentro do copo. Se senta na escuridão da sala e começa a mexer o copo.
Ele fica alguns segundos ali, sozinho, pensativo. Apreensivo com algo. Súbito, um barulho do lado de fora lhe chama a atenção.
Vemos, pelo lado de fora (está garoando ainda), David se aproximar da janela e movimentar a cortina, tentando enxergar alguma coisa. Ele ainda está com o corpo da mão, o olhar assustado.
Vemos, então, os pés de alguém que usa TÊNIS do lado de fora, dando um passo para trás e se virando para o outro lado.
Dentro da casa, David larga o copo na mesinha da sala, apressado. Se dirige à porta de entrada, mas vê Joseph acordado, de pijama.
JOSEPH
Pai, por que está acordado?
DAVID
Volte para a cama, Joseph.
JOSEPH
Que foi? Que está acontecendo?
David abre a porta da frente, procurando por algo. Nós o vemos de frente, podendo ver por cima de seu ombro, Joseph atrás dele, intrigado.
David olha para o lado esquerdo. Começa a andar nessa direção, com cautela. Ele olha para o lado da casa e não vê ninguém.
Voltando para dentro, fechando a porta e trancando.
JOSEPH
Que foi, pai?
DAVID
Nada, está tudo bem. Pensei ter ouvido alguma coisa.
É quando ambos ouvem um barulho de janela batendo. David se aproxima da cozinha, de onde ele acha que veio o barulho. A janela está aberta e, realmente, batendo com a força do vento. Ele a fecha e tranca.
Acende a luz e percebe, espantado, que há pegadas de água no chão. Entendemos que alguém entrou na casa.
Entra música de suspense.
David segue as pegadas, mas elas terminam na saída da cozinha, onde termina o azulejo e começa o carpet. Ele passa por Joseph no corredor.
DAVID
Não passou ninguém por aqui?
Joseph nega com a cabeça, nitidamente tão assustado quanto o pai. David começa a procurar pela casa, olhando em cada cômodo que passa.
Dá uma boa olhada na sala, mas nada vê. Enquanto ele olha, entretanto, temos a visão do vulto que está escondido atrás da cortina, atrás do sofá e dali, pode enxergar os dois sem que eles o vejam. Ele espera David e Joseph se dirigirem até o quartinho ao lado da escada e sai do seu esconderijo, ainda os observando.
A música pára de tocar.
David abre o quarto e acende a luz. Nada. Eles ouvem um barulho lá em cima.
Os dois correm até a escada. Olham para cima e, com cuidado, começam a subir os degraus. Temos a visão de David, subindo a escada lentamente e olhando para cima. Depois de alguns segundos de suspense, Audrey aparece.
AUDREY
Por que os dois estão acordados?
David respira aliviado. Vai falar alguma coisa, mas os três ouvem um barulho vindo da sala.
David corre para ver e encontra a janela da sala aberta. Ele olha através dela, mas não enxerga nada além da garoa. Os dois vêm chegando atrás dele.
DAVID
Audrey, vamos chamar a polícia.
David cumprimenta os policias na viatura.
POLICIAL
Bem, Sr. Dunn, ficamos alertas a noite toda, mas não vimos nada de anormal
DAVID
Tudo bem, obrigado assim mesmo.
POLICIAL
Vai ver, era só alguém tentando assustar vocês.
DAVID
É. Brincadeira de mau-gosto. Obrigado.
A viatura vai embora. Audrey se aproxima.
AUDREY
Joseph piorou.
DAVID
É?
AUDREY
Chamei um médico, vou esperar ele vir. Se quiser ir trabalhar, eu fico com Joseph.
DAVID
Ok. O que acha que ele tem?
AUDREY
Não sei, estou com medo de que seja uma pneumonia.
Os dois ficam preocupados. David a abraça.
DAVID
Tudo bem, vai ficar tudo bem.
Mas ele também não consegue esconder a preocupação.
Dunn está comendo e assistindo ao treino dos jogadores, nas cadeiras. Seu colega, MIKE, está comendo também, ao seu lado.
DAVID
Quando Noel voltar, pode avisar pra ele que vou sair mais cedo?
MIKE
Claro. Algum problema?
DAVID
Meu filho está doente. Vou passar na farmácia.
MIKE
O que ele tem?
DAVID
Pneumonia, acho.
MIKE.
Virgem Santa. Isso aí é complicado.
DAVID
Nem me fale.
MIKE
Eu meu filho também já tivemos isso. Mas não esquente, ele melhora.
DAVID
Assim espero.
MIKE
E você, já teve?
DAVID
Pneumonia? – hesita por um instante antes de continuar – Já. Quando criança.
David fica assistindo o jogo, concentrado. Mike percebe.
MIKE
Fale a verdade. Você tem saudade, não?
DAVID
Do que está falando?
MIKE
Você sabe, Dunn. Pegar a bola e correr pelo campo, passar por todos eles e cruzar a linha, sentindo a vibração da torcida. – enquanto ele fala, vemos um dos jogadores pegar a bola e correr, em SLOW MOTION – Sentir cada passo seu na grama, sentir o suor correndo pela testa e saber que eles estão a poucos passos de alcança-lo, mas nunca vão chegar mais perto do que isso. Arremessar a bola pro seu companheiro livre e saber que, assim que ele pegar a danada, o jogo estará ganho.
Vemos, por fim, os jogadores do time adversário aglomerarem em cima do que está com a bola.
MIKE
Dessas coisas que estou falando. Você sabe.
DAVID
É... Claro que tenho saudade...
Vemos um clarão e, em seguida, CORTA PARA:
A conversa que David tem com Elijah depois que seu filho tenta atirar nele.
ELIJAH
Você se machucou mesmo naquele acidente de carro? Eu acho que você fingiu. Acho que se aproveitou para pôr um fim à sua carreira, sem mais perguntas. E acho que fez isso por causa de uma mulher. Acho que isso faz sentido. Futebol americano é por... 10 anos. Mas o amor... isso é pra sempre. E essa ponta de tristeza que você sente de manhã, eu acho que sei o que é. Talvez você não esteja fazendo o que deveria estar fazendo.
VOLTA PARA:
DAVID
Mas o que posso fazer se quis o destino que eu parasse?
16. INT. CASA DOS DUNN – DIA
Joseph tosse sem parar, tremendo de frio. Sua mãe está com ele no quarto. Ela põe a mão em sua testa.
AUDREY
Meu Deus, Joseph, vocês está queimando de febre! O médico disse pra você ficar, mas que queria era levar você pro hospital.
JOSEPH
Não precisa... é só uma gripe...
AUDREY
É, das que matam, seu louco. Quer um chá? Vou fazer um chá pra você, tudo bem?
Joseph consente. A mãe se levanta.
Vemos o carro de Dunn chegando. Ele estaciona e entra.
Dentro da farmácia, há outras pessoas vendo remédios, mas ninguém no balcão, onde está o farmacêutico. David se aproxima.
FARMACÊUTICO
Boa tarde
DAVID
Quero uma caixa de (nome do remédio)
Fora da farmácia, vemos o vulto dentro de um carro, observando a farmácia onde Dunn acabou de entrar.
Audrey está na cozinha fazendo o chá. Ela tira um copo para Joseph e a campainha toca.
Ela balança a cabeça, apressada, descontente. Sabemos que ela não quer atender, mas ainda assim, deixa o corpo na cozinha e vai ver quem é.
Ela abre a porta e leva um susto.
Vemos o sorriso de alguém negro do lado de fora.
19. EXT.-INT. CASA DOS DUNN – DIA
É final de tarde e vemos o céu nublado acima da residência dos Dunn. Começa a relampejar e ouvimos a voz de David.
DAVID
Onde está sua mãe, Joseph?
Ouvimos Joseph responder, ainda tossindo
JOSEPH
E-eu não sei... ela ia fazer um chá... talvez tenha ido ao mercado.
Vemos David no quarto de Joseph, preocupado.
DAVID
Mas ela fez o chá, está em cima da pia da cozinha. Aonde ela foi?
Joseph não responde, mas fica tão preocupado quanto o pai.
David vai para sala, pega o telefone e disca alguns números. Ele está ligando para o celular de Audrey, mas logo ouvimos este celular tocando, dentro da bolsa dela, que está largada em cima do sofá.
David olha para a bolsa, indignado, tirando o telefone do ouvido e o colocando novamente no gancho.
Ele abre a bolsa dela e encontra o celular.
DAVID
Maldição, Audrey. Pra quê tem essa porcaria se é pra deixar em casa?
Ele se senta no sofá, suspirando. Acompanhamos a apreensão de David enquanto o tempo vai passando. Ele fica inquieto, ora se levantando, ora se sentando de novo, ora andando de um lado para o outro.
Lá fora, começa a chover novamente.
É tarde da noite quando o telefone toca.
David se apressa em atende-lo.
DAVID
Alô? Alô?
Há um instante de silêncio. David insiste.
DAVID
Quem é? Alô?
Ouvimos a voz de Elijah do outro lado da linha
ELIJAH
David.
Os olhos de David arregalam, ele fica nitidamente apavorado.
DAVID
E-Elijah? É você?
ELIJAH
Sim, sou eu. Estava com saudades, meu amigo. Você não faz idéia como é estar naquela cela fria e escura, sozinho. Pensei bastante em você. Fica imaginando o que você estaria fazendo naquela hora. Quem estaria salvando. Ah, David... como você me decepcionou.
DAVID
O-onde você está?
Continuamos ouvindo Elijah enquanto vemos Joseph descendo as escadas, enrolado num cobertor.
ELIJAH
Tudo em vão. Tudo o que eu disse, todos os inocentes mortos... o sangue deles em minhas mãos. E você não entendeu nada. Mas você vai entender, David. Por bem ou por mal. Espero, sinceramente, que seja do melhor jeito. Ou... e lamento imensamente ter que dizer isso... uma pessoa muito próxima de você acabará sofrendo.
David finalmente entende. Ele está com Audrey. Pasmo, ele se senta no sofá.
Entra música de suspense.
ELIJAH
Sofrendo devido à sua negligência, David.
DAVID
Audrey. Você está com Audrey.
ELIJAH
Você já ouviu aquela expressão, David... “É o descaso o que condena?”. É mais ou menos por aí que caminha a trajetória do herói.
DAVID
Seu... seu... seu doente! Deixe Audrey de fora disso!
ELIJAH
Lamento, David. Queria que houvesse outro jeito. Mas acho que só assim pra fazer você entender.
Joseph se aproxima, assustado. Ele olha para o pai e percebe que algo terrível está acontecendo.
DAVID
Se você... ousar...
ELIJAH
Se você lesse quadrinhos, David, saberia que os heróis sempre sofrem perdas trágicas. Agora, preste atenção. Nós vamos jogar um jogo. Eu e você, apenas. Sem polícia, sem FBI, sem ninguém.
A câmera gira ao redor de David, enquanto ele ouve. Os olhos apavorados, a respiração ofegante.
ELIJAH
Eu vou lhe dizer o que fazer e você deverá cumprir as instruções à risca. Cada vez que você falhar, sua esposa perderá um dedo. Se, ao final do nosso jogo, ela tiver mais do que cinco dedos contando as duas mãos, ela vive. Caso contrário...
O sangue de David gela. Joseph percebe que seu pai está ouvindo algum tipo de horror e fica apreensivo.
DAVID
Você vai matá-la... você vai matá-la...
ELIJAH
Isso depende de você, David. Eu mantenho contato.
E desliga. David fica ouvindo o tom do telefone um instante antes de abrir a mão e deixar o aparelho cair. Ele está completamente atordoado. Olha para o filho e começa a chorar.
Joseph tenta falar alguma coisa, mas não cosegue.
Ficamos vendo David chorando, desesperado, e seu filho a seu lado, sem saber o que fazer.
David e Joseph estão dormindo, abraçados, no sofá. É manhã do dia seguinte.
Eles acordam subitamente, com o barulho de um celular tocando.
David esfrega os olhos e tenta ver onde deixou a bolsa de Audrey. Ele a encontra no chão e se apressa em pegá-la, enfia a mão dentro e puxa o celular. Mas só então percebe que não é o aparelho dela que está tocando.
DAVID
Mas que diabo...
Joseph, já de pé, olha na mesma direção que o pai está olhando: o sofá onde eles estavam dormindo. David ergue o assento do sofá e descobre, para sua surpresa, um celular tocando.
Mesmo estranhando, ele atende.
DAVID
Alô?
Novamente, ouvimos a voz de Elijah
ELIJAH
Bom dia. Pronto para começar?
DAVID
O que você quer?
ELIJAH
Há uma bomba no Shopping Center Filadélfia. Em algum lugar. Cabe a você encontrá-la e destruí-la antes que um desastre mate centenas de inocentes nessa adorável manhã.
DAVID
O quê?
ELIJAH
Você me ouviu.
Joseph começa a tossir, mais e mais forte.
DAVID
Você é DOENTE, Elijah! Meu filho está morrendo, será que não entende isso?
ELIJAH
Você tem meia hora.
E desliga.
David olha para seu filho, assustado.
David está saindo com seu carro da garagem, uma caminhonete. Além deste carro, há um carro menor estacionado ali dentro, é o carro de Audrey. Ele sai na rua feito um louco, cantando pneus, à toda velocidade.
Durante seu trajeto, o vemos de frente, desesperado, enquanto acelera à toda.
Logo temos a visão do vulto que o segue, de carro. Ele vai atrás do carro de David, que acaba parando num sinal vermelho.
Vemos o carro do vulto parar ao lado do de David.
Agoniado, David olha para o lado, no instante em que o motorista do carro ao lado baixa a janela. David contempla NICK TODD, seu velho companheiro de time. Todd o encara, com cara de poucos amigos. David faz menção de reconhecê-lo de algum lugar, mas está preocupado demais para lembrar de onde.
O sinal abre. David sai em disparada. Todd continua o seguindo.
David chega em frente ao shopping, mas não se dá ao trabalho de estacionar o carro. Larga-o no meio da rua e vai correndo na direção da porta de entrada.
Há protestos de alguns motoristas e estranhamento da parte de alguns pedestres, mas David ignora.
22. INT. ENTRADA DO SHOPPING – DIA
David pára na entrada e olha ao redor, olha para cima, a respiração ofegante. Ele olha no relógio, que faz a contagem regressiva para a meia hora que Elijah relatara. Está mudando de 00:10:00 para 00:09:59, 58, 57...
David olha novamente para as redondezas do shopping. Para as pessoas. Sabendo que não há tempo a perder, ele faz a única coisa que lhe vem à cabeça: começa a tocar as pessoas para tentar descobrir alguma pista da bomba.
Cada vez que ele toca uma pessoa, vemos um “clarão” na tela. Como ele está tocando as pessoas rápida e freneticamente, vemos vários clarões, um seguido do outro, cada vez mais rápido.
Claro que há protestos pela parte das pessoas.
VOZES DAS PESSOAS.
Ei!
Qualé, cara?
O que deu nesse cara?
Ei, me larga!
Até que vem um homem correndo e acaba esbarrando em David. Sua pressa é tanta que acaba empurrando David com força. A câmera congela no momento da colisão.
Vemos um último clarão e CORTA PARA:
O homem entra no banheiro e se dirige aos compartimentos onde ficam as privadas. Ele baixa as calças e se senta, sua expressão é tranqüila.
Mas, de repente, começa a estranhar um barulho contínuo, um “pi, pi, pi”, que não pára.
Curioso com o que pode ser isso, ele se curva, tentando enxergar atrás da privada. É onde está a bomba.
VOLTA PARA:
A câmera descongela, David vai ao chão. O homem, também, mas rapidamente se levanta e corre para fora.
David se levanta e avisa a todos:
DAVID
Me escutem. Há uma bomba no shopping! Saiam todos daqui!
A multidão começa a correr, desesperada, saindo para a rua.
O motorista de um ônibus que passa próximo dali estranha o movimento e começa a ver a multidão correndo, enquanto continua a acelerar o ônibus.
MOTORISTA DO ÔNIBUS
Mas... o que...
E quando olha novamente para frente, dá de cara com o carro de David parado no meio da rua.
MOTORISTA DO ÔNIBUS
Jesus Cristo!!!
Ele tenta desviar, entrando na contramão da rua, mas dali vinha um caminhão. O motorista do caminhão tenta desviar, mas a colisão é inevitável.
Eles não batem frente a frente, mas o ônibus pega na lateral do caminhão e perde o equilíbrio, começando a virar.
As pessoas gritam, os vidros se quebram, o ônibus cai de lado e vai derrapando. Faíscas saem enquanto a lataria arranha o asfalto, até que o ônibus vai parar no cruzamento, em frente à rua do shopping.
Uma mulher que vinha na rua transversal arregala os olhos e grita, sabendo que não conseguirá escapar de seu inevitável destino.
David chega correndo e vai direto onde está a bomba. Ele a encontra, exatamente no lugar onde vira na visão do homem.
Arranca a bomba dali e corre para fora do banheiro.
Ainda há algumas pessoas correndo por ali. Ele corre na contramão delas, seguindo para a parte mais alta do shopping, a praça de alimentação.
Chegando lá, ele arremessa a bomba para cima, com toda sua força.
A bomba atravessa o teto de vidro do shopping.
Vemos, ao longe, pelo lado de fora, a bomba explodir no céu, a alguns metros acima do shopping.
Quanto voltamos a contemplar David, ele está caído no chão, há centenas de cacos de vidros caídos ao redor dele.
Cansado, meio atordoado, ele se esforça em se levantar. Segundos depois, o telefone em seu bolso toca.
DAVID
Alô.
ELIJAH
Muito bem. Você ganhou a primeira partida. Mas deveria ter sido mais prudente ao estacionar o carro, David. Olhe o que VOCÊ causou.
David se aproxima da janela do shopping que dá para a rua, intrigado.
Vemos ele se aproximando pelo lado de fora, em CLOSE, mas a câmara rapidamente se afasta. Vemos o estacionamento do shopping, logo de frente para a entrada e, então, a rua, onde o acidente com o ônibus deu origem a uma série de outras batidas.
David se aproxima da área de batidas e não sabe por onde começar. No carro da mulher que bateu no ônibus, há uma série de homens tentando abrir a porta do carro dela.
UM DOS HOMENS
Ei, você, venha ajudar! Temos que tirar ela dali, se não ela vai morrer! Está sangrando muito!
DAVID
Já chamaram uma ambulância?
UM DOS HOMENS
Já.
David se aproxima e nota que eles estão fazendo um grande esforço, mas a porta está emperrada.
DAVID
Tá legal, tá legal, se afastem.
VOZES DOS HOMENS
O que?
Quem é esse cara?
O que ele vai fazer?
David ignora os outros, mas eles se afastam. Ele começa a puxar a porta, o metal se retorce, todos ficam com os olhos esbugalhados. Ninguém acredita no que vê, mas David acaba arrancando a porta do carro sozinho.
DAVID
Ei, moça, você está bem?
MOÇA
A-acho que estou com... hemorragia... interna...
DAVID
Tudo bem, a ambulância está a caminho.
Ele se vira e fala para os outros:
DAVID
Ta legal, acho que podem tirar ela dali, mas cuidado.
Enquanto corre para ver o pessoal do ônibus, vem chegando o pessoal da imprensa e duas ambulâncias.
Uma repórter na Tv fala sobre o acidente enquanto as imagens mostram os homens segurando o pára-choque de um dos carros.
REPÓRTER DA TV
O acidente em frente ao Shopping Filadélfia deixou, por enquanto, 16 feridos. Há uma mulher presa em seu carro, que virou de ponta-cabeça e ficou espremido entre outros dois. Por enquanto, não há como chegar nela e esses homens vão tentar, agora, puxar um dos carros para tentar libertá-la.
David está no meio dos homens e lidera.
DAVID
Ta legal, todo mundo junto, agora... um, dois... TRÊS!!!
Vemos, ainda pela Tv, todos juntos puxarem o carro, arrastando-o alguns metros.
Em seguida, contemplamos o reflexo de Elijah refletido na Tv, sorrindo.
ELIJAH
Seu marido é bom nisso.
David está descansando, enquanto observa a equipe médica ajudando as pessoas e a imprensa correr de um lado para outro, além dos curiosos.
Súbito, ágüem esbarra nele e vemos um clarão.
David se vira em SLOW MOTION e enxerga Nick Todd, que vai se afastando.
DAVID
E-eu conheço você...
Todd não responde, apenas o encara ainda com o rosto amargurado. Se vira e vai embora.
David fica olhando.
Mas alguém se aproxima, junto com um policial de trânsito.
HOMEM
É esse aí. Foi ele quem largou o carro no meio da rua e causou tudo.
POLICIAL
Isso é verdade, senhor?
David consente.
POLICIAL
Muito bem, espere aqui.
O policial se vira para chamar um companheiro.
POLICIAL
Ei, Jason, vem aqui! Me ajuda aqui com esse...
Mas, quando se vira, David não está mais lá.
David chega numa praça e se senta num banco. Cansado, ele começa a pensar...
DAVID
Gump. A gente chamava ele de Forrest Gump. O desgraçado corria como ninguém. O nome dele... qual era mesmo o nome dele?
O celular toca mais uma vez.
DAVID
O quê é?
ELIJAH
Dois a zero pra você, meu amigo. Ninguém morreu no acidente. Acho que não vai ser difícil você fazer três pontos. Perto de onde está há um assalto em andamento.
DAVID
Perto de onde... espere aí, como você sabe onde eu estou?
ELIJAH
Corra, ou sua mulher vai perder um dedo.
Elijah desliga, David se levanta. Ele consegue enxergar um movimento num beco próximo.
Dois assaltantes estão esmurrando um moleque negro. Um tem a cabeça raspada (1), o outro tem cabelos espetados e é cheio de piercings(2).
ASSALTANTE 1
Não ouviu, não, moleque? A caretira!
NEGRINHO
E-eu não tenho! Por favor...
ASSALTANTE 2
Então, nós vamos te encher de... eeeeeeee!!!
O segundo assaltante é surpreendido com a súbita chegada de David, que o agarra pela nuca e o arremessa longe. David encara o outro.
DAVID
Deixem ele em paz.
ASSALTANTE 1
Qualé, mermão? Não te mete nisso, não!
DAVID
Você me ouviu.
Mas o segundo assaltante se levanta e pega uma grossa ripa que estava jogada junto a latões de lixo.
Temos a visão de David nesse momento, que se vira e vê a ripa vindo de encontro ao seu rosto.
Vemos David desacordado, caído no chão. A ripa está partida, ao lado dele. Um dos pedaços está sujo de sangue.
Ouvimos o barulho do celular tocando incessantemente.
David acorda lentamente e o procura em seu bolso.
DAVID
Alô.
ELIJAH
Tsc, tsc, tsc. Lamentável, David. Lamentável.
David fica de pé e só então, vemos o corpo do negrinho, ensangüentado ao seu lado.
DAVID
Oh, Deus! Oh, Deus, não!!!
David se afasta do beco, andando para trás. Ele vai parar novamente na praça, tropeçando no meio-fio e caindo sentado na calçada.
ELIJAH
Tivemos sorte que os dois saíram apressadamente e nem pensaram em te revistar, ou teriam levado o celular. Mas você falhou, David. E um inocente morreu por isso.
DAVID
Não, Elijah! Não!!!
ELIJAH
Eu realmente sinto muito, meu amigo.
E desliga.
David berra de raiva para o céu.
Audrey está amordaçada e amarrada à uma cadeira. Elijah está à sua frente. Eles estão num quarto pequeno e além da tv, que está desligada, há apenas uma mesa com um telefone e uma faca de açougueiro.
Elijah pega a faca e olha para Audrey.
ELIJAH
Muito bem, senhora Dunn... o que me diz do mindinho da mão esquerda?
Os olhos de Audrey começam a lacrimejar.
David se aproxima de um orelhão para ligar.
Seu filho atende.
DAVID
Joseph.
JOSEPH
Oi, pai. Eu te vi na tv.
DAVID
Como está?
JOSEPH
Estou melhor. O remédio é bom, a tosse parou.
DAVID
Que bom. Almoçou?
JOSEPH
Comi macarrão. E você?
DAVID
Não. Não tive tempo.
JOSEPH
O que mais ele mandou você fazer?
DAVID
Tive de impedir um assalto.
CORTA PARA:
A conversa continua, mas agora vemos Joseph. Quando seu pai fala “assalto”, ele fica aprrensivo.
JOSEPH
E aí?
DAVID
Eu... não consegui. De novo.
Os olhos de Joseph lacrimejam.
JOSEPH
Q-quer dizer... que ele...
David não responde.
VOLTA PARA:
David escuta seu filho chorar do outro lado da linha.
DAVID
Escute, filho. Vou procurar alguma coisa para comer. Não se preocupe, eu vou pegar esse maníaco. Mais tarde eu ligo.
JOSEPH
Ta bom.
DAVID
Tchau.
David desliga e olha para o beco mais uma vez antes de sair dali.
Vemos o corpo do negrinho ensangüentado. A imagem de uma mulher morta, de noite, aparece rapidamente na tela, fazendo um paralelo com o negrinho.
David se senta ao balcão e pede um café. Ele é servido e começa a pensar.
Vemos um clarão e CORTA PARA:
Um assaltante tenta puxar a bolsa de uma mulher que resiste. Com a outra mão, ele segura uma arma prateada.
MULHER
Não! Não! Larga!!!
ASSALTANTE!
Me dá aqui, mulher!!! Quer morrer?
David se aproxima, com sua capa e as sombras cobrindo o rosto.
ASSALTANTE
Mas o que... se manda daqui, mermão! Quer levar um balaço na testa?
David não responde.
O assaltante se injuria e lhe aponta a arma, disparando em seguida.
O tiro pega na testa de David, que é arremessado para trás. Ele cai e bate a cabeça no chão, ficando atordoado, mas ouve mais dois tiros e os passos do marginal que foge.
Atordoado, David vagarosamente vai se levantando. Ele olha para a mulher, morta, caída no chão. Seus olhos estalados parecem encarar David, acusando-o, de alguma forma. Sua boca semi-aberta parecia implorar por ajuda.
VOLTA PARA:
David continua pensativo. E toma um gole do café.
David vem correndo pela rua, pára, com o celular na mão. Engole em seco, apavorado.
DAVID
Filho da puta.
A câmera gira e vemos que, algumas quadras à sal frente, há um prédio de 14 andares em chamas. Ele continua a correr na direção dele.
Quanto mais se aproxima, mas encontra pessoas que saem de lá, apressadas, tossindo, chamuscadas. Ainda assim, ele não hesita em entrar.
David sobe correndo as escadas. Lá dentro está um inferno, chamas por toda parte. Durante a subida, parte do teto de um dos andares cai. Ele se esquiva, mas o fogo atinge seu braço, que começa a pegar fogo. Ele dá uma sacudida no braço, bate nele com a outra mão, o fogo se apaga. Sua pele está normal.
Ele continua a subir, até chegar no oitavo andar. Lá, ele se aproxima da porta dos elevadores e tenta, de alguma forma, abri-las.
Não há espaço entre as duas portas para ele colocar os dedos e tentar abri-las com a força. Ele procura por algo que possa ajuda-lo no chão, mas só vê destroços.
Irado, David esmurra uma das portas, acabando por amassa-la. Ele olha o que fez e esmurra mais uma vez, abrindo um rombo. Agora, sim, ele consegue usar a força para empurrar as duas portas e ver o fosso do elevador.
Olhando para baixo, ele encontra o que procurava: o elevador está preso pouco abaixo.
Dentro do elevador, há pelo menos oito pessoas. Homens e mulheres bem-vestidos. Está escuro e todos estão desesperados. Algumas das mulheres choram.
David tenta alcançar o cabo do elevador. Súbito, um dos freios de emergência se parte. O elevador começa a cair.
Desespero total dentro do elevador, todos gritam até o elevador parar novamente.
Os outros freios estão mantendo o elevador no lugar, mas David ainda não alcançou o cabo. Ele o alcança agora, com a mão direita, enquanto se segura na parede com a esquerda. Fazendo um esforço enorme, ele puxa o cabo para dentro do andar, utilizando então as duas mãos e pondo o pé esquerdo na parede para se apoiar. Ele vai puxando devagar e, muito lentamente, o elevador está subindo.
VOZES DAS PESSOAS DENTRO DO ELEVADOR
E-estamos subindo?
Voltou a funcionar?
Não, está muito lento.
Alguém deve estar nos puxando.
Com o quê?
David continua a puxar. O esforço é tanto que ele fica vermelho, uma veia no seu rosto parece que vai explodir.
No entanto, os demais freios estouram. O elevador volta a cair, produzindo faíscas nas paredes devido ao atrito.
Novamente, as pessoas vão gritando enquanto ele cai.
Com o puxão, David esbarra na parede em que se apoiava, acabando por racha-la. Ainda assim, ele não solta o cabo, que desliza de suas mãos devido à graxa. Passada a surpresa, ele volta a tentar segurar o cabo... sem sucesso.
As pessoas gritam em desespero enquanto o elevador cai para a morte certa.
Vemos o desespero de David ao tentar segurar o cabo. A imagem entra em SLOW MOTION.
Há um clarão e vemos o rosto de Elijah.
Vemos David tentando segurar os cabos novamente.
Outro clarão mostra Audrey chorando. Ele ergue a mão, lentamente, trêmula. A mão está totalmente ensangüentada e só tem dois dedos.
AUDREY
David!
David grita e concentra toda sua força em segurar os cabo. Ele volta a pôr o pé para se apoiar na parede e, lentamente, o elevador vai parando.
As pessoas vão parando de gritar e ficando mais calmas.
VOZES DAS PESSOAS
Está parando...
Está parando...
David consegue segurar. O elevador pára. Contudo, ele está bem perto do chão. Ele percebe que o melhor a fazer é descê-lo, com cuidado, até o térreo. E assim o faz.
Ao chegarem no térreo, todos começam a esmurrar as portas para sair.
VOZES DAS PESSOAS
Chegamos! Estamos no térreo.
As portas não abrem!
Eu quero sair!!!
Nos deixem sair!
Do lado de fora, bombeiros se aproximam com um pé-de-cabra para abrir as portas. Eles conseguem, as pessoas saem correndo. Do lado de fora, os bombeiros já estão trabalhando para apagar o incêndio.
David, exausto, cambaleia, quando percebe que a situação está piorando ao seu redor. Ele olha novamente o fosso do elevador e até ali está pegando fogo.
DAVID
É um inferno! (*)
(*) Nota do roteirista: referência obrigatória a “Duro de Matar.”
David começa a correr, ao tempo que o fogo todo se alastra. Ele vê que não há alternativa e corre para pular pela janela, do lado oposto ao da entrada, onde os bombeiros estão trabalhando.
Ele atravessa a janela e o prédio explode.
Do lado da entrada, os bombeiros se surpreendem com a explosão e procuram se proteger.
Atrás do prédio em chamas, há um pequeno espaço de três metros até a parede de outro prédio. É neste espaço que David cai, sem que ninguém veja.
Ele atinge o chão e apaga. No entanto, alguém viu e se aproxima: Nick Todd. Ele olha para baixo, contemplando David, desmaiado. E sorri um sorriso irônico.
David acorda numa banheira, sem roupas, amarrado dos ombros até os pés com arame farpado. Ele naturalmente estranha o lugar e logo, Nick aparece, enganchando uma mangueira na borda da banheira.
NICK
Bom dia, David.
DAVID
O que... mas quem diabos é você? Por que estou amarrado?
NICK
Não se lembra? Você arruinou a minha vida... e não se lembra de mim???
DAVID
Arruinei a sua vida? Do que está falando, homem?
NICK
Vinte anos, David!!! Vinte anos em coma... por sua culpa.
Há um clarão. Vemos novamente a imagem de vinte anos atrás, os dois se trombando. Nick caindo no chão.
DAVID
Todd. Seu nome é Nick Todd. A gente te chamava de Gump. Você ficou em coma... eu me lembro. Disseram que nunca mais fosse despertar.
NICK
É. Mas eu despertei. Só que nesse pequeno intervalo de tempo, minha mãe morreu. Meu pai já tinha morrido antes de eu nascer. Fiquei sozinho. Os amigos de quem eu lembrava tinham se mudado. Não restou mais nada para mim. Mas eu me lembrava, Dunn. Me lembrava de quem era a culpa.
DAVID
Escute, Nick... eu posso te ajudar, a gente conversa... mas você tem que me soltar. Olha, é difícil de explicar, mas minha mulher foi seqüestrada. Eu preciso...
NICK
Precisa fazer coisas que um maluco chamado Elijah Price acha que você tem que fazer. Eu sei.
Nick sorri sarcasticamente, David se espanta em ouvir isso.
NICK
Sei sobre tudo, David. Você nem sabe há quanto tempo eu venho te seguindo. Quando vi Elijah fugindo, pensei que talvez ele fosse um aliado interessante. Mas eu estava enganado. Ele me contou sobre seus... “poderes”. E sobre sua fraqueza.
Nick se afasta da banheira e abre uma torneira. A mangueira enganchada na borda começa a depositar água na banheira. David arregala os olhos.
NICK
Mas cansei de brincar com aquele doente. Pensei bem e resolvi fazer você sofrer... como eu sofri. Sabe, seu celular está tocando já há algum tempo. Elijah deve estar preocupado. Se você não atender... vai saber o que pode acontecer com sua adorável esposinha?
DAVID
Seu desgraçado!!!!
David começa a tentar se libertar. A banheira vai enchendo.
NICK
Ou seja... pode até ser que você consiga se livrar dessa banheira, mas... será que consegue isso a tempo de salvar sua esposa? E, se não conseguir... tanto melhor.
O telefone da casa começa a tocar.
NICK
Ah, com licença... o telefone.
Nick vai atender, deixando David sozinho. A água começa a jorrar para fora da banheira. David se debate mais e mais, mas consegue dar um chute que tira a mangueira da borda. A mangueira cai no chão, espalhando água por toda parte. Em seguida, ele tenta, com as mãos amarradas para trás, alcançar a tampa que impede que a água escoa pelo buraco da banheira.
Nick atende o telefone. Entendemos que ele está falando com Elijah.
NICK
Alô. Ah, é você. Não. Não, não o vi mais. Sim, perdi. Não. Na verdade, cansei desse jogo, Elijah. Fique tranqüilo, não vou denunciá-lo à polícia.
David procura desesperadamente a tampa abaixo de seu corpo, passa a ponta dos dedos do lado dela, mas não a encontra.
NICK
Não sei e não me importa. Se quiser acabar com a vida desse desgraçado por mim, lhe agradeço. Mas vou tentar a vida em outra cidade. Não... não sei ainda...
David ainda está procurando a tampa. Vemos seu rosto a ponto de explodir. Ele engole água. Seus olhos vão ficando pesados. Ele apaga.
NICK
Tudo bem. Olha, não me interessa. Não é da minha conta. Fique tranqüilo. Até.
Nick desliga. Ele se aproxima do banheiro e vê que a mangueira está jogada. Com cautela, para não escorregar no chão molhado, ele se aproxima da torneira onde ela está ligada e a fecha. A mangueira pára de jorrar água pelo chão e Nick vai se aproximando, lentamente.
Cuidadoso, ele estica seu pescoço para ver o corpo de David na banheira... e leva um murro na cara!!!
Nick cai para trás, com o nariz sangrando. David se levanta da banheira, nu, terminando de se desvencilhar dos arames.
DAVID
Ta legal, bastardo maldito ... queria me matar? Então, vem!
Nick vai se arrastando para trás, tentando fugir. David o pega pelo pescoço e o joga para dentro do banheiro. Nick grita.
David fecha a porta.
David está novamente vestido, mas chega em casa desesperançado. Ele enfia a chave na porta, gira e abre.
Ao entrar, qual não é sua surpresa ao ver que, na sala, a mãe de Elijah está conversando com Joseph!
MÃE DE ELIJAH
Olá, Sr. Dunn. Está lembrado de mim.
DAVID
Claro... mas que surpresa. O que a senhora está fazendo aqui?
JOSEPH
Ela veio ajudar, pai. Ela acha que sabe onde estão a mãe e Elijah.
MÃE DE ELIJAH
Quando soube que meu filho tinha fugido, eu fiquei desesperada. E ele falava tanto de você... resolvi vir ver se você sabia de alguma coisa. Mas agora... conversando com seu filho... percebi que só tem um lugar para onde Elijah poderia ter ido para manter sua esposa em cativeiro.
DAVID
Onde?
ELIJAH
A velha fazenda do pai. Ele adorava ir para aquele lugar. Quando o pai dele morreu, deixou tudo para nós. Eu ia vender, mas nunca fiz isso por causa de Elijah.
DAVID
A senhora me explica como eu faço para chegar lá?
JOSEPH
Posso ir junto, pai?
DAVID
Você está doente.
JOSEPH
Eu melhorei!
DAVID
Não, Joseph. Isso não é brincadeira, vá pro seu quarto. Eu vou sozinho. Sra. Price, vamos ali na cozinha...
Eles se dirigem à cozinha e Joseph fica olhando.
David está saindo com o carro de Audrey.
A mãe de Elijah sobe as escadas.
MÃE DE ELIJAH
Joseph? Joseph, você está aí? Está no seu quarto?
Ela chega no quarto de Joseph e percebe que este está vazio.
Vemos, dentro do porta-malas do carro, Joseph encolhido.
O caro segue pela estrada, vazia.
Há neblina e a estrada é de chão. David se aproxima com cautela e estaciona o carro. Ele sai, fecha a porta, espiando as construções. Há uma bela, porém pequena, casa logo à sua frente. Um pouco afastado, parece haver um celeiro.
David se aproxima da casa, sem perceber que seu filho empurra o banco de trás para sair do porta-malas.
Ele entra na casa, com cautela. Não vê nada, a princípio. Abre uma porta, vê apenas o banheiro. Encontra escadas que levam para um andar superior.
Em cima, ele caminha com cuidado pelo corredor. Cada passo mais cauteloso que o outro. Ele abre uma porta... e encontra um pasto alemão latindo. David rapidamente fecha a porta e o deixa para trás, latindo. Ele se aproxima da outra porta, rapidamente. É onde está Audrey, ainda amarrada à cadeira.
DAVID
Audrey!!!
David apressa-se em tirar-lhe a mordaça e desamarrá-la. Ela não agüenta, começa a chorar, enquanto eles se dão um beijo e se abraçam.
AUDREY
David... pelo amor de Deus, o que está acontecendo?
DAVID
Calma... calma, está acabando. Eu prometo que isso logo vai... acabar.
David pára de falar quando vê que sua esposa está sem o dedo mínimo da mão esquerda.
Neste momento, Joseph aparece na porta do quarto.
JOSEPH
Mãe!
DAVID
Eu mandei ficar em casa, Joseph!!!
Mas ele não ouve e corre para abraçá-la. David percebe que não há muito o que fazer e deixa.
DAVID
Muito bem, fiquem aqui. Eu vou resolver isso.
AUDREY
Onde você vai?
DAVID
Procurar Elijah.
E sai do quarto.
David sai da casa e começa a caminhar na neblina, na direção do celeiro. Ele não enxerga muita coisa, por isso anda com cuidado. Súbito, vê que está cercado pela neblina. Sua respiração está ofegante quando ele ouve a voz de Elijah.
ELIJAH
Congratulações, David. Me encontrou. Honestamente, não esperava que fosse capaz disso. Você superou minhas expectativas nesse jogo.
DAVID
Isso não é um jogo.
ELIJAH
Errado, David. Foi um jogo. Para mostrar o porquê de você ter ganhado estes poderes maravilhosos que você tem.
David olha em todas as direções, mas nada vê. Seus olhos lacrimejam, a respiração ainda ofegante.
ELIJAH
Você não está prestando atenção, David. Será que não aprendeu nada? Desde que nos conhecemos? O tempo que fiquei naquele hospício? Desde que começamos nosso jogo?
Dentro da casa, Joseph se levanta e sai do quarto.
AUDREY
Joseph! Seu pai disse pra ficarmos aqui!
Joseph sai da casa também. Ele anda na neblina, mas não enxerga seu pai. Ele vai andando devagar, tentando olhar em todas as direções para ver se enxerga alguma coisa.
Entra música de suspense.
Joseph pisa na grama e vai andando. Sozinho. Dá mais um passo. Nada vê. Outro passo. Temos a visão dele por um instante. A densa neblina permite que vejamos apenas pouco mais de um palmo à nossa frente. Outro passo. Quando vai dar o próximo, no entanto, uma mão surge atrás dele e segura sua boca, assustando-o. a música pára.
É sua mãe.
AUDREY
Você é teimoso mesmo, hein?
Os dois continuam andando juntos. À frente, Bruce entra no celeiro. Escuridão total. A expressão no rosto de David é, nitidamente, de raiva. Ele começa a andar na escuridão. É quando ouvimos novamente a voz de Elijah.
ELIJAH
Tudo isso foi para mostrar a você, David. Mostrar qual é a coisa certa a se fazer.
DAVID
Isso não sou eu quem decide, Elijah?
ELIJAH
Gostaria que fosse tão simples, meu amigo.
David dá mais um passo na escuridão.
DAVID
Eu não sou seu amigo.
David dá outro passo, cerrando os punhos.
DAVID
Quanto ossos do seu corpo você disse que já quebrou?
Elijah gargalha. Em seguida, acendem-se as luzes.
Vemos que ele está escondido atrás de um pilar de madeira, rindo. Com uma arma na mão.
Joseph está entrando no celeiro. Sua mãe vem logo atrás.
DAVID
Joseph, mas que diabo! Volte!
ELIJAH
Acho que só tem um jeito de você entender, David.
David se vira para frente, para tentar ver de onde veio a voz.
ELIJAH
Você vai ter que aprender a superar as suas perdas.
Joseph vê Elijah sair de trás do pilar e apontar a arma para sua mãe.
JOSEPH
Pai!
Audrey se vira e vê a arma apontada para ela.
AUDREY
David!
Elijah atira. SLOW MOTION. David começa a se virar para ver. Joseph corre na direção de sua mãe, que dá um passo para trás. A bala começa a percorrer o ar.
Elijah começa a recolher a arma. A bala está na metade do caminho. Joseph está saltando. Audrey está gritando. David está se virando.
Joseph entra na frente da sua mãe, pulando. Ele está no ar e o vemos de frente, acompanhando a trajetória da bala, que se aproxima do seu peito. Mais... e mais... e...
CORTA.
FADE OUT.
FADE IN.
Elijah está abismado. Nós o vemos em CLOSE.
ELIJAH
Inacreditável!
Joseph está caído, com a cabeça entre as pernas de sua mãe, que está ajoelhada atrás dele. David está ao lado dos dois.
AUDREY
Você está bem? Você está bem?
JOSEPH
D-doeu um pouco... mas acho que estou...
Temos a visão de David, que segura com seu polegar e o indicador: a bala amassada.
Ele olha para Elijah, que começa a fugir.
David larga a bala e vai atrás.
AUDREY
David! David!!!
Elijah sobe por umas escadas, meio mancando devido ao seu problema. Mas consegue chegar no topo e jogar barris em David para atrapalha-lo.
David, irado, destroça os barris e prossegue a subida. Elijah entra por uma porta, onde se agarra a um gancho e aperta o botão de um controle ficado à parede. O gancho está preso num trilho acima e começa a se movimentar, levando Elijah consigo. Ele sai duma plataforma onde há vários morros de feno guardados. Abaixo dele, há muitos mais.
David vê Elijah escapando e não pensa, só sai correndo pela plataforma, esperando pular e agarra-lo antes que ele se afaste demais. E este é seu erro.
Ele vai numa armadilha preparada por Elijah, atravessando um buraco camuflado com o feno e caindo direto numa caixa d´água enorme, daquelas feitas de madeira.
Elijah sorri.
ELIJAH
Hah! É mesmo uma pena, David. Mas não posso deixar que me apanhe mais uma vez. Mas não se preocupe! Não vou mais importuna-lo, pois tenho certeza de que seu filho terá sucesso onde você falhou. Deve ser a pneumonia, David. A pneumonia ativa algo na sua família. Fico feliz em saber!
David se debate, mais uma vez, para se livrar da água. É tudo escuro lá dentro.
Vemos a caixa pelo lado de fora. E logo, o punho de David a está atravessando.
A madeira se parte, partindo toda a caixa d´água. David fica parado enquanto ela se desmonta e a água jorra para todos os lados.
Audrey e Joseph se aproximam. David os encara. Audrey olha sério para ele, enxuga as lágrimas e diz:
AUDREY
Precisamos ter uma conversa séria.
Vemos Audrey em CLOSE, tensa. A câmera vai se afastando dela e percebemos que os três está na sala, conversando.
AUDREY
Mas... então... David... se você não pode se machucar... e o seu braço? Seu braço esteve bom esse tempo todo.
DAVID
Esteve.
AUDREY
Você... você desistiu do futebol... por...
Os olhos de Audrey lacrimejam. Ela baixa a cabeça, hesitante. Depois de alguns segundos, continua.
AUDREY
Tudo bem. O que é passado, é passado. Mas não quero nenhum dos dois se envolvendo nessas coisas perigosas.
JOSEPH
Mas, mãe...
AUDREY
Não importa se vocês não podem se machucar, Joseph. Eu não quero e ponto final! Eu não agüento essa violência toda! Estou errada?
Ela pergunta, olhando para David. Ele balança a cabeça.
DAVID
Não. Venha cá.
Em seguida, ele se levanta e a abraça. Ao fazer isso, ele dá uma piscada para Joseph.
Quando o abraço termina, Audrey o encara, olho no olho. E fala baixinho, só para ele ouvir.
AUDREY
Foi por mim, não foi? Você desistiu por minha causa.
DAVID
E havia causa melhor?
E se beijam.
Audrey está apressada em sair de casa, parece atrasada para algo. Os dois estão a rodeando.
AUDREY
Eu vou ficar fora o dia todo, mas vê se não aprontam nada, hein?
DAVID
Claro que não.
David sorri antes de ganhar um beijo de despedida.
AUDREY
Tchau.
Depois de se despedir do marido, ela se despede do filho.
AUDREY
Dá um beijo.
Joseph lhe dá um beijo no rosto, dá um último tchau e sai.
Sozinhos, pai e filho entreolham-se.
51. INT-EXT.PORÃO DA CASA DOS DUNN - DIA
Joseph está deitado abaixo do suporte para halteres. Há um haltere acima dele, com um ferro pequeno em cada ponta.
DAVID
Muito bem. Devagar, sem pressa. Nós temos o dia todo. Vai lá.
Joseph pega o altere, com força. Ele o baixa até seu peito e começa a erguer novamente. David o assiste, sorrindo.
Joseph baixa o haletere novamente até seu peito. A câmera vai se afastando, temos a visão da janela que dá para o porão.
Do lado de fora, Elijah está espiando por esta janela, curvado. Vê Joseph colocar o haltere novamente no lugar e ouve a voz de David.
DAVID
Muito bom! Vamos tentar colocar um pouco mais de peso...
Elijah se afasta um pouco. Dá um sorriso.
E se põe a caminhar...
FADE OUT
FIM
SUGESTÃO DE ELENCO
DAVID DUNN: BRUCE WILLIS
ELIJAH PRICE: SAMUEL L. JACKSON
NICK TODD: JEFF DANIELS
AUDREY DUNN: ROBIN WRIGHT PENN
JOSEPH DUNN: SPENCER TREAT CLARK
ELIJAH’S MOTHER: CHARLAYNE WOODARD
DAVID DUNN AGE 20: DAVID DUFFIELD
NICK TODD AGE 20:
ZELADOR: M. NIGHT SHYAMALAN
52. CASA DE NICK TODD – NOITE. (Gancho final, para colocar entre os créditos.)
Vemos a mão trêmula e ensangüentada de Nick se aproximar da maçaneta da porta do banheiro.
Ele abre a porta e, nu como David estava, sai dali. Seu corpo está todo ensangüentado. Subentende-se que ele se cortou todo tentando se livrar dos próprios arames farpados. Ele pega o telefone.
VOZ DO OUTRO LADO DA LINHA
Departamento de Polícia da Filadélfia
NICK
E-eu gostaria... de registrar uma queixa...