ENTREVISTA: BIRA DANTAS
Por Matheus Moura

            Ubiratan Libanio Dantas de Araújo, mais conhecido como Bira Dantas,  nasceu em 1963, em São Paulo, porém foi criado no Rio de Janeiro. Desde cedo teve contato com HQ, e como muitos, partiu dos super-heróis. Não tardou e já começou a esboçar os primeiros traços. Foi estagiário nos Estúdios Maurício de Sousa e Ely Barbosa. De lá passou a cena sindical, ilustrando charges para os Energéticos, Professores, Metalúrgicos, Construção Civil e Petroleiros, além da CUT.
Não só de charges o artista se fez, colaborou também com histórias em quadrinhos para as revistas Pântano, Tralha, Porrada, Megazine, Mil Perigos e Bundas. Já foram publicadas duas coletâneas de seus trabalhos como: “Bira, quem diria, você é um subversivo!” (1985) e "Você lembra dessa?" (1992). Ilustrador nato contribuiu com vários livros ilustrados em parceria e solo. Essas e outras passagens na vida de Bira você confere abaixo na entrevista cedida a Quadrinhópole, deste que - dentre outros - é o capista da edição. Boa leitura.

1 – Começaremos pelo início, diga-nos um pouco sobre seus anos como estagiário no Estúdio Maurício de Sousa, sua produção nos gibis do Trapalhões...
Com 13 anos (1976), fiz um estágio rápido vapt-vupt por lá, depois de uma conversa com o Maurício, a quem mostrei vários gibis de super-heróis que eu fazia. Ele disse que meu estilo não batia com o dele, que era mais infantil. Elogiou meu traço, deu parabéns pelo empenho, prometeu um estágio à distância (desses que o moleque deixa as páginas desenhadas e o pessoal envia pelo Correio com comentários) e ao pé do ouvido falou para que eu não levasse mais a família a tiracolo (eu tinha ido com minha mãe, que sempre deu a maior força para que eu me dedicasse aos Quadrinhos e a Goya, prima tiete). Aí disse que iria me apresentar a um desenhista que realmente ia me interessar: grande e saudoso Jayme Cortez, seu diretor de Arte. Foi um show. Cortez além de me presentear com A Técnica do Desenho e o Zodíako, me deu uma aula de anatomia e de como escolher bons desenhistas para copiar, que não esqueço até hoje. Mas disse que eu não devia copiar pra sempre, tinha que buscar meu estilo. Depois de algumas páginas ampliadas do Pelezinho e Mônica calcados no traço do Zé Márcio Nicolosi (atual diretor de arte de animação e um dos desenhistas mais copiados do estúdio MSP) e respostas por correio, cansei do estilo da Turma da Mônica.
Em 1979, o Estúdio Ely Barbosa produzia quadrinhos Hanna-Barbera para a Rio Gráfica Editora e publicou um anúncio em jornal: "Precisa-se de Desenhista de História em Quadrinhos com ou sem experiência". Minha mãe, dona Lourdinha, que lia o jornal, recortou o anúncio e lá fui eu, do Tatuapé para a avenida Indianópolis, do outro lado da cidade. Cheguei, sem experiência, mas com uma pasta a tiracolo cheia de desenhos: HQs de super-heróis, uma quadrinização de O Guarani que fiz para a escola e algumas páginas ampliadas dos personagens do MSP.
Fiz um estágio de dois meses, onde pude acompanhar as várias fases de produção de um Gibi e conhecer profissionais da velha guarda como João Baptista Queiroz (fez Cacareco, Oscarito e Grande Otelo, Carequinha e Fred), Eduardo Vetillo (desenhou Urtigão pra Abril, Chet pra Editora Vecchi) e Sérgio Lima (foi desenhista de Quadrinhos de terror e romance, além da Maga Patalógica pra Abril). O Ely tentou me encaixar com o pessoal que pintava as capas, mas depois de duas tentativas, ele desistiu. Naquele tempo, o meu negócio era desenhar. Como um bom iniciante, eu vivia refazendo desenhos, esboçando capas (que nunca foram aprovadas) e criando páginas. E mostrava para todos os feras do estúdio, para tentar melhorar! Um dia o Ely disse que minha vontade de mostrar meus trabalhos era tanta, que ele não se surpreenderia de, ao se deitar com sua esposa Thereza, me ver sair debaixo da cama com algumas páginas pedindo pra ele olhar! Lá, travei contato com Cleiton Caffeu (que depois eu iria reencontrar no estúdio de animação do Briquet), Arthur Garcia (que me substituiu como chargista no jornal trotskista Em Tempo), Mingo, Genival, Kimura (que havia passado pela Abril), Pontes, Wanderley, Waldemar, Carlão, Joel (criador do logotipo eskimó da Brastemp), Cidão, Alexandre Silva, Thomas, Thereza (esposa do Ely), Eliete, Mareliz e Otávio (filhos do Ely), João, Bonini, Watson Portela, José Lanzelotti, Vila, Orlando Costa e os contatos publicitários Otávio Mesquita (muito antes de ele sonhar em ser apresentador de TV), Matilde Mastrangi (atriz), Éder Jofre (ex-pugilista) e o dublador do Fred Flintstone nos desenhos.
Ainda na época da produção de Quadrinhos Hanna-Barbera, o Ely me indicou para ser assistente de um de seus grandes desenhistas: Eduardo Vetillo. Meu trabalho era passar seus desenhos (feitos em folhas de papel sulfite grosso com marcação em azul de quadros e linhas para letreiramento) a limpo, numa folha de Schoeller, seguindo as alterações que o Edu determinava (como posicionamento de personagens e cortes). Claro que no começo eu apanhava muito para reproduzir os traços sutis de expressão dos esboços originais. O estúdio do Eduardo ficava na Lapa, era um galpão de fundos de uma casa na rua Pontaporã, metade do Ismael dos Santos (que produzia material para a TV Cultura e dava aula, onde passaram conhecidos meus como o Spacca e o Riba), metade do Eduardo, que dividia a sala com o Walter Caldeira (pintor impressionante) que na época produzia capas de livros e reproduzia, em guache, cenas históricas brasileiras criadas por Ivan Wasth Rodrigues. Eu trabalhei um ano como assistente do Eduardo, até o dia em que ele me disse que o projeto Trapalhões estava crescendo, precisava de novos desenhistas e que eu já estava apto para bater asas próprias.
Desenhei como free-lancer durante dois anos. Comecei com piadas de uma página e, um ano depois, estava fazendo histórias mais longas de 12, 14 páginas.

Os Trapalhões propriamente ditos (os de carne e osso) davam algumas opiniões a respeito de detalhes dos personagens como costeleta e entradas na careca do Didi, tamanho do beiço do Muçum, boiolice do Zacarias e esperteza e coragem do Dedé. As sugestões eram feitas através do pessoal da Bloch do Rio diretamente para o Ely Barbosa. Desenvolvemos, além da revista mensal, almanaques e especiais da Turma do Didi e do Bonga. Nossa surpresa foi notar que os roteiristas do programa de TV estavam adaptando vários roteiros publicados nos gibis. O Sérgio Valezin e os outros roteiristas pediram pra receber os créditos e o pagamento, que a Globo claro que não deu!

A criação do modelo dos personagens (model-sheet) e as primeiras HQs (já com o caminhão Scamba) foram feitas pelo Carlo Cárcamo, irmão do Gonçalo. Ele era muito tarimbado, tinha trabalhado pra muitas agências (e depois que saiu do Ely, fez aquela animação fantástica da Telefunken). A gente seguia esse modelo com uma certa liberdade. Assim, desenhistas da velha-guarda como João Baptista Queiroz e Sérgio Lima imprimiam seus estilos nos personagens. As idéias nonsense surgiram dos roteiristas mesmo. O Sérgio Valezin, Genival de Souza (irmão do Domingos, que era diretor de arte) e o Orlando Costa (meu colega de colégio, animador autodidata, que levei pro estúdio) tinham uma imaginação muito fértil e se divertiam criando as situações mais inusitadas como personagens soltos no vazio das páginas de HQ... O Eduardo gostava de caricaturar (soberbamente) o pessoal do estúdio, e o próprio Ely em histórias completamente doidas.

Eu cheguei a fazer roteiros em épocas de baixa produção (como Uma Aventura no Zoo e A Revolução dos Bichos), mas não era o meu forte. O Ely tinha um piadista inveterado e muito engraçado, o Sérgio Valezin. Ele se tornou um dos grandes roteiristas do estúdio. Depois foi escrever roteiros para programas humorísticos do SBT, onde está até hoje. O humor dos Quadrinhos dos Trapalhões, analisando bem, tinha um teor pendendo para o adulto, com piadas que nem toda criança entendia. Por isso mesmo, também era lido por outras faixas de público, não só o infantil. Acho que seguia um pouco o padrão humorístico do programa, com piadas com tom levemente erótico. Não sei se era uma linha determinada. Isso só o Ely poderia responder. Não passavam nenhuma definição pra gente na época. Mas era claro que nosso público abrangia uma faixa etária do pré-adolescente à terceira idade.

Teve uma história que eu criei o argumento, passei pro Orlando fazer o roteiro, foi aprovada pelo Ely e voltou pra que eu desenhasse. Era sobre uma greve da Legião dos Super-Heróis que reivindicavam Salário, Férias e FGTS. Um dos super-heróis coadjuvantes era o Homem-Lula (nem preciso falar de quem era a cara dele). Isto foi em 1980, durante as grandes greves dos Metalúrgicos do ABC. A história voltou do Rio, censurada. Onde tinha greve, tivemos que escrever Férias. Onde tinha Direitos Trabalhistas, tivemos que mudar pra descanso, folga, preguiça. O Ely ficou bravo, pois não tinham tido roteiros censurados assim, mas era isso ou não ter a história publicada.

2 – Após sua saída do Estúdio Ely Barbosa, prontamente já foi se dedicar as charges sindicais? Como foi seu envolvimento com esse “mercado” na época?
Eu saí do Estúdio no começo de 1982 pra fazer charges na Imprensa Sindical, um contato via charges que começou paralelo aos Quadrinhos, em 1980 com a Oposição dos Químicos/SP e Oposição dos Metalúrgicos (Luta Sindical). A Oposição dos Químicos ganhou a eleição e como minhas charges faziam muito sucesso nas portas de fábrica (a pelegada só lançava um jornal por ano, com o resultado do dissídio, a Oposição soltava boletim quinzenal, cheio de charges e caricaturas, a peãozada adorava) e resolveram me contratar. Trabalhei como chargista do Sindicato dos Químicos (Sindiluta) de 1982 a 1988, trabalhando como jornalista (ilustrador), com a metade da jornada, o dobro do salário do estúdio (eu era free-lancer) e com carteira assinada. Quando contei isso pro Ely ele não acreditou: “Como? Você nem é jornalista! Como eles vão te pagar isso tudo?”
Pagaram! E seis meses depois eu estava com o meu Mtb (número de matrícula de jornalista) aprovado pelo Sindicato dos Jornalistas, Delegacia Regional do Trabalho e Ministério do Trabalho.

3 – Ainda hoje sua maior produção é de charges, como vê a profissão chargista hoje no país? Qual a principal diferença de quando começou?
Vejo com ótimos olhos. Acho que nunca se fez tanto humor sobre a situação pública do país, seja em jornais, zines, boletins, internet. Acho que a diferença é que quando comecei os sindicatos tinham mais verba destinada à comunicação. Hoje, com a demissão de uma fatia considerável dos trabalhadores, terceirização e cortes de custos, os chargistas deixaram de ser uma coqueluxe (risos).
Publiquei minhas primeiras charges em 1980 nos jornais do PT. Desde 82, publico diariamente em panfletos, boletins e jornais de Sindicatos e da CUT. Trabalhei como chargista do Sindicato dos Químicos (Sindiluta) de 1982 a 1988, mas o meu contato (via charges) com a categoria começou em 81 com a Oposição dos Químicos/SP (eu também fazia charges para Oposição Metalúrgica SP- Jornal Luta Sindical). O uso de charges e quadrinhos era muito bem aceito por todos, principalmente como forma de facilitar a informação dos trabalhadores. O boletim tinha uma capa voltada pra categoria e o verso para conjuntura nacional, que eram recortes de jornais. No começo eu não fazia charge editorial, eu ilustrava as matérias. Saía, em média, 2 charges por dia, uma de fábrica e uma de política. A que acompanhava a matéria de capa era maior. Quando o diretor chegava com uma denúncia quente, ele já pedia charge e, às vezes, já vinha com idéia. Os jornalistas também pediam, quando iam soltar uma matéria sobre economia ou tema meio complicado. O diagramador pedia vinhetas ou ilustrações para gráficos. Só depois da mudança do projeto gráfico do Sindiluta, eu ganhei um espaço de charge editorial e no verso eu fazia uma tira em quadrinhos com o Marcatti. Uma vez um operário jurou que eu tinha trabalhado na fábrica dele. Rolava o boato que eu saí de lá direto pro sindicato, por isso sabia desenhar a cara do patrão, dos chefes e dos trabalhadores. Lendas...
Nessa época, todo sindicato combativo queria ter um chargista, as Oposições Sindicais vinham atrás, as Pastorais, os Sem-Terra, isso criou uma nova fatia no mercado de trabalho pra cartunistas. Tinha trabalho pra todo mundo, surgiu uma safra boa de cartunistas. O Vargas, o Éton e o Laerte já estavam lá; pintei eu, o Marcio Baraldi, o Gilmar, o Falkon, o Pecê, o Paulo Monteiro. Quando cheguei em Campinas em 88, só tinha um chargista (Donizete) na área sindical. Aqui também teve um grande número de cartunistas. Agora vivemos um refluxo, cartunistas demitidos, trocados por clip-arts. A charge em qualquer órgão de imprensa, do boletim de moradores de bairro, ao jornal mais elitizado, é importantíssima. É um espaço de pensamento crítico, de resistência à opinião simplista e acomodada. Sou chargista do Sindicato dos Eletricitários e dos Petroleiros de Campinas.

4 – Você se considera uma pessoa de “esquerda”? Qual a importância de uma visão política bem definida para um profissional do humor gráfico?
Sim. Venho de uma família de esquerda. Meu pai, Clovão, era do MDB e anti-Arena e tudo que viesse dos militares golpistas. Meus irmãos mais velhos apoiaram alguns grupos de esquerda antes do PT, um deles era apoiador do Genoíno (já não é mais, brigaram há uns 10 anos), que na época saiu do PCdoB e se alinhou com as forças que iriam fundar o PT. Fui fundador do PT em São Paulo. Antes disso, assinei uma lista que pedia o registro do partido junto ao TSE. Eu participava de reuniões em núcleos, fazia cartazes e panfletos, panfleteava feiras, escolas e fábricas do bairro, apoavaLer textos de esquerda (ou não), discutir com quem tem afinidade ideológica, ajudou a forjar uma postura que arraigou-se em mim de tal forma que sinto um vazio interior quando fico algum tempo sem fazer charges e, consequentemente, sem mostrar as coisas que acho que as pessoas não estão vendo. Há alguns anos fui com a família pra Maceió. Levei laptop e scanner. Mandava charges pros jornais dia sim, dia não. Além disso, tive a sorte de trabalhar em sindicato desde 1982, pude ancorar minhas charges neste porto seguro. Certamente em jornais diários eu teria (como tive) problemas com censura. Na Guerra do Golfo, fiz charges abertamente favoráveis ao Iraque. A comunidade judaica de Campinas reclamou. Assim como charges a favor dos palestinos. Essas são sempre combatidas pelos conformados com o desnível da balança de poder no mundo.

Acho que ainda temos chargistas que colocam o dedo na ferida. Maringoni e Lor são dois que faziam isso e acabaram fora da Imprensa diária. Marcio Baraldi faz isso na imprensa sindical. Latuff e Claudius na imprensa alternativa. Angeli, Jaguar e Nani, na grande imprensa, têm sacadas fantásticas e fazem algumas charges que são verdadeiros “diretos no estômago”. Mas, no caso da Folha que é “tucana”, tenho certeza que se ele fizer uma dessas “pesadas” com o Serra ou Alckmin, terá problemas como o Paulo Caruso já teve, por isso ele saiu de lá, em pleno primeiro turno da eleição de Lula.
Acho que o problema está no conceito de que o chargista não tem lado. Eu sempre tive. Não sou franco-atirador (risos). Sou um dos poucos chargistas que defendem o governo Lula, além do Márcio Baraldi, claro! Eu até fiz a biografia do Sapo Barbudo em quadrinhos. Tiram sarro de mim nas listas de discussão de cartunistas em que participo. Falam que chargista não pode ter lado. O Angeli deu entrevista na Veja dizendo que quem faz charge a favor faz publicidade e não charge. Eu discordo. Pra você ser contra uma coisa, tem que ser a favor de outra. O fato é que ninguém quer dar a cara pra bater. Rola coisa estranha no meio dos cartunistas e todo mundo fica ali, fingindo de morto. Eu não... Parto pras cabeças mesmo. Sou assim, ué! E visto a camisa mesmo! Não ganhei mensalão e não fiz nenhum frila pro governo federal (até me convidaram pra fazer dois gibis), mas acabei não fazendo.
Mas eu acho que existe um limite para a liberdade de expressão como no caso da confusão gerada pelas charges de Maomé. Apesar de defender o direito de liberdade que todo cartunista deve ter para escolher seus temas de sátira, não posso concordar com a falta de respeito a culto, sexo ou raça. Eu não acho que devemos ter o direito de atacar outras crenças só pelo fato de querermos ter o direito de atacar. Isso revela falta de critério, de objetividade e pura provocação. Uma coisa é satirizar homens-bomba e outra, atacar a Religião Muçulmana, que (em alguns casos) proíbe a representação de Muhamad em imagem. A Liberdade de Expressão tem de ser exercida com responsabilidade. Se eu fosse um dos chargistas que publicaram na Dinamarca, me importaria com as mortes decorrentes dos protestos!

5 – Você participou da AQC (Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas de SP), por que saiu, ainda existe essa associação? Há importância nesse tipo de associação? Pergunto, pois, não se vê falar muito sobre esse tipo de entidade.
A AQC tinha a intenção de organizar os cartunistas e quadrinhistas para discutir a Lei do Quadrinho Nacional, editada no tempo do presidente Jânio e recolocada na ordem do dia por um deputado de São Paulo. Depois de longa discussão organizou o Prêmio Angelo Agostini com o objetivo de homenagear os Mestres e criar referência aos artistas do quadrinho nacional.
Segundo o Worney, “a AQC-ESP foi criada em 1984, para reunir os profissionais da categoria, procurando defender seus interesses e abrir perspectivas para semi-profissionais e incentivar os amadores a abraçar esta arte. Com poucos recursos e muito boa vontade de alguns, a associação tem procurado cumprir esta orientação. Mas existe um outro aspecto muito importante que tem ocupado um espaço de destaque entre as atividades da AQC-ESP: o resgate e a referência aos grandes artistas do quadrinho nacional, que são homenageados anualmente através do Troféu Angelo Agostini.
Em 1984, através do cartunista e historiador Álvarus e do quadrinhista Ofeliano de Almeida, levantou-se a data em que a primeira HQ nacional foi publicada e a AQC-ESP resolveu instituir um prêmio e um dia especial do ano, para marcar o trabalho de dezenas de artistas, que desenharam nossa história em quadrinhos. Assim surgiu o Dia do Quadrinho Nacional.
O nome do prêmio é em homenagem a Angelo Agostini, criador da primeira história em quadrinhos brasileira (“As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte”, que começou a ser publicada em 30 de janeiro de 1869).
Inicialmente, o prêmio visava destacar profissionais que estivessem ligados aos quadrinhos nacionais por, pelo menos, vinte e cinco anos (denominados “Mestres do Quadrinho Nacional”). Depois, ampliou-se a premiação para os melhores trabalhos do ano anterior.”
Eu já conhecia o Gualberto e o JAL de longa data, desde o Instituto Rian, que eles criaram na Av. Consolação no começo dos anos 80. Quando em 1985, eu soube que o pessoal se reunia no prédio do Sindicato dos Jornalistas, fui até lá e comecei a participar como quadrinhista e chargista sindical. Ou seja, base! Uma coisa me incomodava, o papo da diretoria era mezzo conciliador, mezzo revolucionário. Eu estava ao lado dos últimos (risos). Chargistas como Jal, Maringoni, Paulo Caruso, defendiam grandes projetos (cartunísticos) junto a políticos, editoras. Gualberto, Worney, Marcatti, Mastrotti, defendiam projetos de tornar a Associação um órgão de massas, que conclamasse quadrinhistas de grandes estúdios, os que não assinavam seus trabalhos, os ghost quadrinhistas/animadores da MSP, Abril, Ely Barbosa, Briquet, Manoel Messias, DPZ, Black&White...
Houve um rompimento. Amigos começaram a se estranhar. Criamos um movimento de oposição. Eu consegui rodar 300 cópias de três boletins no Sindicato dos Químicos. Disseram que tínhamos o apoio da CUT e que era um racha entre PT e PMDB. Laerte e Maringoni, ainda não tinham entrado no PT. O Laerte se sentiu traído por não ter sido chamado para esta chapa de Oposição. Tentei explicar que havia uma diferença de visão entre nós, nada pessoal, mas ele não quis saber e até há pouco tempo nem falava comigo. O Jal e o Maringoni tentaram dar um golpe branco na gente... além deles, eu e o Worney fazíamos parte da Comissão Eleitoral. Eles vieram com a idéia de que se criasse um quorum eleitoral, que se a chapa vencedora não atingisse esses votos mínimos haveria uma intervenção na AQC. O Worney foi contra, até porque o parâmetro era uma grande assembléia com quase 150 participantes. Eu disse para eles que era um casuísmo eleitoral, mas topei o desafio e disse pro Worney que se a gente não conseguisse os votos mínimos, seria um atestado de que não éramos representativos. Aí aconteceu o mais estranho: a chapa de situação não se registrou. É! Nem o Jal, nem Maringoni, nem outro cartunista montou uma chapa situacionista. Seguimos em frente na campanha. Poucos deles votaram e ainda soltaram o boato que a gente era financiado pela CUT pra destruir a Associação, isso foi dito pelo Jayme Cortez e Conceição Cahu, que felizmente não acreditaram e votaram na gente. Acabamos tendo mais de 200 votos. Por sorteio, acabei virando presidente pró-forma, mas como nos comportávamos como colegiado, nunca me identifiquei como tal. A AQC cresceu, fizemos um Manual do Direito Autoral (escrito pelo Flávio Calazans) e um catálogo com trabalhos dos associados. Ambos foram distribuídos pelos estúdios. Na diretoria estava eu, Gual, Marcatti, Spacca, Mastrotti, Mikio, Guida, Floreal e o Worney que tem todas as atas com os nomes da chapa.
Com o tempo, o Gualberto voltou às boas com o Jal. Eles assumiram o curso de Editoração em Quadrinhos da ECA (USP), já que a Sonia Bybe Luyten tinha ido para o Japão, e me convidaram para fazer o Curso como aluno especial. Fui e gostei. Conheci Luiz Gê, Angeli, Ziraldo e mais um monte de cartunistas levados lá para palestrarem.
A AQC começou a perder força. Aquele entusiasmo do começo foi se perdendo. As massas quadrinhantes já não tomavam as assembléias, a diretoria foi deixando de aparecer. A AQC decidiu em uma assembléia, emprestar um bom dinheiro para o Emílio, ex-gerente da Muito Prazer, em troca de descontos especiais nas suas raridades de Quadrinhos. Gual e eu defendemos a proposta. Worney foi frontalmente contrário, já que não éramos uma instituição bancária. Worney foi voto vencido. Emílio mudou-se de Sampa, sem nos oferecer nenhum desconto e foi assassinado em condições misteriosas numa cidade do interior de Minas, onde sua mãe morava. Worney tinha razão. Houve um maior estremecimento entre Gual e Worney, este último disse que manteria a AQC na ativa apenas para manter o Troféu Ângelo Agostini vivo. E ele tem cumprido sua palavra até hoje, de forma heróica.
Em 1988 saí do Sindicato dos Químicos, tive uma proposta de trabalhar no Sinergia e eme mudei para Campinas. Achei melhor me afastar como diretor da AQC, já que iria me estabelecer aqui. Acabei me distanciando dos Quadrinhos e me dediquei às Charges, que me asseguravam um bom salário. Em 1995, voltei a me dedicar aos cartuns, HQs e trabalhos para Salões de Humor.
Neste meio tempo, Gual e Jal criaram o HQ Mix (que tinha um programa de TV, onde conheceram Serginho Groissman, antes dele ir pra Globo) e fundaram a ACB, Associação dos Cartunistas do Brasil, com uma estrutura de diretores mais virtual, com representação em vários estados, como Laílson da ACB-Pernambuco.

6 – Como vê a nova geração de chargistas e quadrinhistas do país? O que poderia melhorar?
Vejo com ótimos olhos. Tem muita gente boa despontando de norte a sul. A gente vê pelos salões de humor as novidades pintando e tem material muito interessante mesmo. Minha única preocupação é que o pessoal novo não se interesse pelo passado e deixe de aprender muita coisa que iria enriquecer o seu trabalho. Uma vez o Álvaro de Moya me disse que quando era editor da Metal Pesado, conversava com alguns caras que mandaram trabalhos fracos, mas queriam colaborar com a revista. Ele perguntou o que eles liam de Quadrinhos. Nada, responderam, a gente só faz. Aí é grave.

7 – Recentemente foi lançado pela editora Escala Educacional uma adaptação sua e do roteirista Indigo, do livro de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias. Como foi a produção do álbum? Como vê esse tipo iniciativa?
Quadrinizar romances e contos brasileiros não é novidade. Editoras como La Selva (publicou contos de Eça de Queiroz no traço formidável de Eduardo Teixeira Coelho e capas de Jayme Cortez, tenho três exemplares da década de 50) e Ebal (Amazônia Misteriosa, Menino de Engenho, Ubirajara, A Moreninha, etc., no traço de André Le Blanc, Manoel Victor Filho, Ivan Wasth Rodrigues e outros monstros sagrados do Quadrinho Brasileiro) marcaram época e fizeram a cabeça de muitas crianças e adultos. Há cerca de dois anos, a Escala Educacional vem trazendo os traços criativos de Francisco Vilachã e Jô Fevereiro na Coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos. Em suas páginas desfilam grandes textos da nossa literatura apresentados na forma ágil e certeira dos Quadrinhos.
Fazem parte da coleção obras como O Alienista, Um músico extraordinário, O enfermeiro, Uns braços, A cartomante, A nova Califórnia, A causa secreta, Miss Edith e seu tio, O homem que sabia javanês, O Cortiço e Brás, Bexiga e Barra-funda.
Fui convidado pelo meu velho amigo "Vila" para desenhar a versão de Memórias de um sargento de milícias, de 64 páginas, sendo 56 de quadrinhos. Deve circular a partir da primeira quinzena de novembro, em bancas de jornal e livrarias de todo o país. O projeto é inovador. Não alteramos o texto original, adaptamos o volume de informações para caber na revista, mas mantemos a escrita original do autor. Está sendo uma experiência incrível. Primeiro porque uma HQ de mais de 50 páginas requer fôlego para produzir. Segundo porque o texto do Manuel é muito engraçado.
A Índigo fez os cortes no texto. A primeira dificuldade foi colocar todo o texto em 60 páginas (no início eram 56). A segunda foi arrumar lugar para encaixar os textos que fizeram falta e eu fiz questão de colocar de volta pra dar sentido à narrativa.
Para transformar Memórias de um Sargento de Milícias em gibi, fiz uma longa pesquisa. Fui tentar descobrir como era o Rio de Janeiro da época em que o Manuel Antônio de Almeida escreveu o livro. Pesquisei quais prédios e monumentos existiam em meados do século 19 e como era a arquitetura e os costumes da época. Usei muitas imagens de Debret, Rugendas e Eduard Hildebrandt.
Outro desafio foi a modificação nas características dos personagens, que envelhecem ao longo da história. Não estamos acostumados com isso no mundo dos quadrinhos. Normalmente, um personagem mantém suas características em toda HQ, não envelhece.
A terceira dificuldade foi desenhar, arte-finalizar e criar luz e sombra com grafite, escanear e tratar (com um XP dando pau o tempo todo – risos) para daí enviar os arquivos pro Maurílio DNA e Caio Freitas pintarem. Aliás, foi um belíssimo trabalho o deles. Valorizou em muito meus desenhos.

8 – Já há tempos você participa de salões de humor espalhados no país e no mundo. A que você considera o aumento no número desse tipo de exposição/concurso?
Computador e internet.

9 – Das suas viagens ao exterior, qual a diferença maior observada entre a produção de charges e HQs deles com as nossas?

Eu saí a primeira vez para Coréia do Sul e França.
A segunda para Inglaterra, Escócia e França.
A grande diferença é o respeito que o poder público tem pelo trabalho dos cartunistas. Toda a estrutura é voltada para a preservação da memória, dos originais, das revistas. O príncipe Charles escreve prefácios do cartunista britânico Gilles e lamenta sua morte. É de chorar quando a gente pensa no Brasil.

Na Coréia há a Associação dos Cartunistas, a Sociedade de Cartum e Animação e o BCIC Centro de Informação do Cartum. A WCC (World Comics Conference) é uma conferência de discussão anual que começou em Tóquio (1996) e acontece cada ano em um país diferente. Já está em sua sétima edição. Fiz parte de uma exposição de 372 artistas de 26 países, com mais três brasileiros: Gisela Pizzatto, Giovanna Roggeri e Mario Mancuso. Os coreanos promovem inúmeros eventos ligados ao Cartum e aos Quadrinhos como o BICOF (Festival Internacional de Quadrinhos de Bucheon), onde fiz uma palestra sobre a história do Quadrinho Brasileiro e as expectativas futuras, o PISAF (Festival Internacional de Animação Estudantil). Além do BCIC e da Biblioteca do Cartum Kyuchanggak, ainda criaram o Museu do Cartum, que é o suprasumo do bom gosto e do respeito ao público e aos artistas. Um sistema de cooperação entre profissionais, governo e sociedade com duas Universidades, duas Instituições Educacionais e 26 escolas voltadas ao estudo do cartum, dos quadrinhos e da animação.

O Museu do Cartum de Londres está situado em dois andares de um prédio muito simpático na rua Little Russel, 35. Estes dois andares cobrem 250 anos de muita criatividade e combatividade no humor britânico. O Museu foi fundado em 1988, mas está de casa nova e definitiva desde fevereiro deste ano, onde conta com a galeria Calman de exibições temporárias (onde estão expostos os cartuns Marte nos olhos deles), a exposição permanente de 750 originais que cobrem mais de dois séculos de Cartum, a de Histórias em Quadrinhos (andar superior), curso de Cartum e HQ (com o Professor Colin Pillinger) e a biblioteca com cerca de 3.000 livros e revistas (o BiraZine faz parte do acervo agora!) e a loja de venda de livros e cartões/cartuns.

Na Escócia, minha maior surpresa foi descobrir que, no Scottish National Portrait Gallery estavam expondo 250 caricaturas de escoceses, feitas por seis escoceses! Além disso, no acervo principal de retratos pintados podemos encontrar algumas caricaturas feitas por Henry Mayo Bateman, Desmond Chute, William Niven, Alasdair Gray e John Byrne (não é o quadrinhista). Vejam bem: este museu não quis provar que caricatura é arte. Colocou as caricaturas na parede, em pé de igualdade com quadros pintados e emoldurados, mostrando na prática o que é respeitar o ofício do humor. Estava voltando pro hotel quando me deparei com um colega de profissão, o caricaturista de rua, Eric, a quem presenteei com um BiraZine e de quem ganhei o livro-catálogo da exposição Fizzers, famosas caras escocesas em caricatura com arte de Tommy e Chris Sommerville, Terry Anderson (que estudou na Escola de Joe Kubert), Brian Flynn, Derek Gray e Edd Travers. Esses seis caricaturistas fundaram, em 1999, o primeiro e único estúdio no país: o Scottish Cartoon Art Studio. Através do estúdio, oferecem serviços de caricatura (inclusive para festas e eventos), cartum, storyboards, ilustração de livro, técnica e de arquitetura. Os estilos variam do mais clássico (Derek Gray) ao mais estilizado (dos irmãos Sommerville).
Paris. O Paraíso das HQs. Lá nas Gallerias Lafayette, existe uma MegaStore com quase tudo o que se lança na França em Bande Dessiné, como chamam os quadrinhos e CD/DVD. Centenas de lançamentos e meu queixo quase caiu quando vi mais de vinte álbuns maravilhosos, 21 páginas de papel couché colorido repletos de Quadrinhos, além de dois CDs com as músicas mais representativas do artista, devidamente remasterizadas. É uma experiência inédita, pelo que sei, a venda de HQ com CD junto. A idéia é você abrir o álbum, colocar o CD, ler os Quadrinhos e deixar rolar a imaginação. O selo francês Nocturne vem lançando uma ampla coleção de álbuns de grandes nomes do Blues, R’nB, Jazz, Rock, Folk, Groove, Bandas, Gospel, Reggae, Clássicos, Ladies, Chanson e World Music. Rapidamente acrescentei vários álbuns à minha pilha de livros de ilustração e HQ: John Lee Hooker (Steg), B.B.King (Jean-Michel Nicollet) e Muddy Waters (René Hausman), blues é o meu fraco. Eu tinha pegado mais, mas a conversão Euro/Dólar/Real iria me matar, eu sabia disso
E o Brasil? Que contraste com o boicote e fechamento do nosso MAG (Museu das Artes Gráficas) pela secretária de (des) cultura cláudia costin do (des) governo de São Paulo, fruto da total falta de sensibilidade e de respeito por parte do governo alckmin. E depois de fechado pelo "Picolé de Xuxu", foi prometido para outra administração tucana, a de Piracicaba. Nunca chegou lá.
E a Folha de S. Paulo, recuando em seus avanços gráficos? Com a máscara de "reformulação do projeto gráfico" cortou ilustrações e reduziu uma característica que o diferenciava dos outros jornais: o bom-trato com o conteúdo e a forma de sua apresentação gráfica. A Folha cometeu absurdos também em um Concurso. Convocou abertamente chargistas, tiristas e ilustradores de todo o país, para depois dizer que era só para os iniciantes, além de dizer que os trabalhos enviados na categoria cartum e charge não tinham originalidade para serem premiados. Pobreza, arrogância e incongruência sem limites.

10 – Já sabemos que sua preferência é em fazer charges, porém seus traços são bastante versáteis, mudando muito de uma produção à outra. A que você atribui essa maleabilidade? Dentre os seus diferentes traços há aquele que você pode dizer “esse é o traço de Bira Dantas”?
Aí você me pegou. Eu me sinto um perfeito camaleão no traço, mas gosto até dos rabiscados, feitos sem compromisso. Até neles vejo esse tal de “biradantas”!

11 – Há trabalhos envolvendo HQs no forno? Caso sim, poderia nós dizer quais, e os parceiros envolvidos?
- Rainy Days, HQ de 20 páginas a ser publicada em coreano em Seul e em inglês, no Canadá. É um projeto de livro de 80 páginas de HQ editado por David Redman, produtor de TV da Coréia. São 2 HQs feitas por coreanos baseadas em fatos reais e 2 fantasiosas feitas por estrangeiros (eu e Michael Haida, indiano que vive no Canadá, participou comigo da World Comics Conference). E ele quer publicar em português por aqui!
- Estou adaptando D. Quixote para Escala Educacional (e lendo a obra na íntegra).
- Mataram o Índio Galdino (6 páginas), HQ que vai sair na próxima Front (tema Ódio) da Via Lettera.
- Já participei de 2 HQs on-line (feitas a várias mãos) com o pessoal do site O Gralha.
- Ex-Libris (cerca de 20 páginas), em parceria com João Antonio Buhrer, uma HQ doida onde Ângelo Agostini, Diabo Coxo, Luiz Gê e José Mindlin vivem uma aventura em Campinas. Sem editora por enquanto, publiquei as primeiras 4 páginas em forma de Zine e distribuí no Senac Lapa, na premiação Ângelo Agostini deste ano.
- Prevenido e Dr. Uro, HQ em parceria com Daniel Esteves (além desta de cyber-farwest que publicamos na Quadrinhópole) a ser publicado por um serviço de Saúde do Norte e Nordeste.
- How the Maga/Manhwa influenced me, história de 20 páginas, com um apanhado das minhas influências orientais, ainda sem editor.
- Almeida Jr, um tiro em frente ao hotel. Biografia em Quadrinhos do grande pintor brasileiro, ainda sem editora.
- Bira´s Blues, 80 páginas, a ser publicado pela Conrad.

12 – Para finalizarmos, agradeço pela entrevista e gostaria que dissesse quais suas perspectivas para o futuro, não só no que tange a produção pessoal, mas também com relação a política e ao mercado editorial de quadrinhos brasileiro.
Fucem tudo. De sebos à internet. Não deixem de valorizar a cultura brasileira. Desenhem muito, 10 horas por dia, se der. Mas leiam de tudo. Dos clássicos mundiais aos clássicos da nossa literatura. Leiam as adaptações em Quadrinhos mas, nunca...NUNCA deixem de ler a obra original. Se você quer se tornar um profissional você tem que perceber o que se passou na cabeça do artista que fez aquela releitura. Tenha visão crítica, principalmente com seu trabalho. Não se satisfaça nunca. Queira sempre mais, só assim, você vai ter o que mostrar. Não espere o amanhã. O Hoje é o mais importante. Não ponha a culpa nos editores, no mercado, nos leitores. Faça a sua parte. Se um dia com a bagagem cheia, você quiser se dar ao luxo, critique. Mas lembre-se que a melhor crítica é o trabalho feito com capricho, com afinco, com dedicação.
Várias escolas especializadas na nossa área surgiram, escolas de cursos normais têm convidado desenhistas para darem palestras ou participarem de mesas-redondas. Isso demonstra o interesse das instituições educativas, assim como cursos especializados em nossa área. Aproveite tudo, participe dos eventos ligados às HQs.
O mercado norte-americano/Marvel e DC e europeu têm aberto suas portas para brasileiros, mas isso não é tudo, nem quer dizer que as coisas ficaram fáceis.
O advento do computador e da internet têm sido um facilitador na vida do desenhista. Vários profissionais mantém blogs e flogs produzindo mais e melhores desenhos. Alguns sites dispuseram HQs virtuais para download. Conheça, estude, participe. Crie o seu blog, mostre seus desenhos. O problema principal ainda é que fazemos isso de graça, já que a mídia internet ainda se alega falta de verba para pagamento dos nossos trabalhos e se proponha a publicação das HQs em troca de visibilidade e propaganda. Espero que em breve estas desculpas se tornem coisa do passado e as editoras disputem profissionais de diversas áreas.