ENTREVISTA Rafael Albuquerque
Por Matheus Moura

BIO:

Gaúcho de 26 anos, Rafael Albuquerque atua no mercado desde 2001, quando iniciou com trabalhos em zines, como Hoclides, Bacalhau-ManeJovens Guerreiros. Em 2004, ingressou no hall dos artistas da editora egípcia, AK Comics, fazendo trabalhos para as revistas Zein, Aya, Jalila e Rakan. Tornou-se co-criador da personagem Chess Master, arqui-inimigo de Rakan, e criou várias outras personagens secundárias para a editora, tornando-se, após algum tempo, o desenhista principal da casa.
No ano seguinte, inaugurou seu estúdio de criação, o PopArt Comics Studio, na cidade de Porto Alegre. Já em 2006, em parceria com Felipe Ferreira, foi feita a minissérie Rumble in La Rambla, lançada pela Image Comics, e também a mini The Savage Brothers, dos roteiristas Andrew Cosby e Johanna Stokes da Boom! Studios. Atualmente, é o desenhista da nova fase do Besouro Azul da DC Comics. Agora, Rafael fala um pouco sobre suas experiências como quadrinista.

1 – Conte-nos como foi seu desenvolvimento nas Hqs, suas principais influências, personagens preferidos...
Gosto de HQ´s desde criança, principalmente de personagens clássicos, como Superman, Batman, Lanterna Verde... mas penso em trabalhar com isso desde 95, quando vi que haviam alguns brasileiros trabalhando para o exterior, e a partir daí coloquei na cabeça que precisava ralar muito para chegar aonde eles estavam. Comecei a comprar livros, conheci outros aspirantes a desenhistas e a partir daí comecei a desenhar direto, sempre aonde tinha algum espaço. Fiz alguns fanzines e coisas para publicidade antes de pegar meu primeiro trabalho na AK Comics. Minhas influências são tão variadas, que nem saberia citar todas... posso dizer que em quadrinhos, minhas influências mais fortes são: Eduardo Risso, Dave Johnson, Ivo Milazzo, John Buscema.... mas tenho muito também de ilustradores como Norman Rockwell, Frank Frazetta , Drew Struzan...

2 – É sabido sobre seu interesse em filmes. Como ele interfere na sua criação de Hqs? 
Diretamente. Adoro cinema e é uma mídia que influencia muito minha maneira de contar a história, eu acho. Apesar de gostar muito de quadrinhos, não leio muito hoje em dia, porém, vejo quase um filme por dia, então acho que é algo que tem uma grande importância no meu trabalho.

3 – Muitos desenhistas brasileiros, geralmente aqueles que começam na área, querem ingressar no mercado estrangeiro de Hqs. Você, como um dos poucos que conseguiram seu lugar ao sol neste tão requisitado mercado, teria alguma dica aos interessados?
Acho que hoje em dia já temos muitos brasileiros trabalhando para o exterior. Os editores já conhecem nossa competência e estamos ganhando nosso espaço. Acho que as dicas que ficam, são: trabalhe com profissionalismo, cumpra prazos,  estude tudo que puder, ouça críticas atentamente e respeite seus colegas.

4 – Você chegou a se tornar o artista principal da AK Comics. Ainda é assim? Como foi o ingresso na editora? Que tipo de histórias você faz (ou fazia) lá?
Estava pegando pequenos bicos de publicidade e trabalhos sem expressão alguma quando, através da internet, a editora entrou em contato comigo e, a partir daí, comecei a trabalhar direto... criei personagens, estabeleci visuais... acabei criando o PopArt depois para poder manejar melhor a demanda de trabalho. As historias eram simples, abordando (de maneira superficial, devo admitir) a realidade do oriente médio. Hoje em dia, não estou mais desenhando nada pra eles, apenas criei alguns designs para a nova linha editorial que estão fazendo para 2007, mas nosso estúdio continua produzindo muita coisa para eles.

5 – Geralmente, os artistas brasileiros, quando são assimilados pelo mercado estadunidense, têm que adequar seus nomes aos padrões por eles estipulados. Você “sofreu” com esse preconceito dos vizinhos do norte?
Não, nunca. Sempre apresentei meu trabalho da maneira que achei mais conveniente e sempre fui muito respeitado pelas editoras.

6 – Como é trabalhar com grandes editoras como DC e Image Comics?
Muito legal. Apesar de ter gostado de trabalhar com a Boom!Studios e a AK Comics, tenho que admitir que dá um certo frio na barriga trabalhar com essas “poderosas”. Tenho ótimos amigos dentro da Image e da DC, o que facilita muito a comunicação e a fluidez de tudo. Estou gostando muito.

7 – Recentemente você está ilustrado as novas histórias do Besouro Azul, certo? Há alguma mudança em trabalhar com personagens já consagrados, mesmo que estes não sejam um “Super-Homem” da vida?
Acho que a mudança é trabalhar com a DC. As pessoas passam a conhecer seu nome, lembrar do seu trabalho... você passa a ter mais alcance dentro da indústria, o que é muito legal.

8– Como foi a repercussão da série Rumble in La Rambla  lançada nos EUA no ano passado e feita por você em parceria com Felipe Ferreira no roteiro?
Rumble in La Rambla teve uma repercussão legal na mídia, foi noticiado em sites de lá, mas devido a problemas de distribuição, não chegou para muita gente... acho uma pena que isso tenha acontecido. Não acho que a culpa seja da Image, nada disso... eles estão muito empolgados com o encadernado da série, que deve sair agora em agosto, rebatizado de Crimeland.  Vai conter material inédito, e colaborações de diversos artistas... estou muito ansioso para ver!

9 – Quais são as principais dificuldades hoje enfrentadas pelos artistas tupiniquins?
Talvez a falta de uma direção clara. Acho que o Brasil tem muita gente talentosa, mas que, às vezes, não sabe como chegar em um editor, não sabe receber uma crítica, e por inexperiência acaba perdendo oportunidades de entrar no mercado. Existe um certo mistério por parte de alguns profissionais sobre como ingressar no ramo, às vezes por medo de competição, mas acho que isso é um medo bobo e essas informações deveriam ser compartilhadas. Valorizaria toda a categoria.

10 – Há projetos para criar material para o público brasileiro? E quais os próximos, no geral?
No momento não penso em fazer nada especificamente para o Brasil. Mas gostaria muito de ver algo meu publicado aqui. Seria demais.

11 – O PopArt Comics Studio tem como idealizador somente você ou há parcerias? Como funciona o estúdio? Principais clientes, forma de trabalho...
Apesar de ser o único dono, posso dizer que foi essencial a participação de Cris (Peter) e Felipe (Ferreira) no início da PopArt. Hoje em dia, temos grandes artistas trabalhando conosco, como o Mat Santolouco e André Coelho, além de colaboradores freqüentes por todo o Brasil.  Nossos artistas estão todos trabalhando para o exterior, e possuímos uma rica variedade de estilos, o que nos dá a possibilidade de conseguir mais trabalho. Nosso estúdio trabalha quase que exclusivamente com editoras americanas mesmo, como a DC, Boom! e Image.

12 – Para fechar, como você vê o mercado independente de quadrinhos no Brasil?
Acho interessante. Tem algumas coisas MUITO boas, outras com potencial...como qualquer nicho, mas acho que ainda tem muito o que aprender com países como Argentina, por exemplo.