ENTREVISTA Julio Shimamoto
Por Matheus Moura

Júlio Shimamoto nasceu em Borborema, cidade do interior de São Paulo, não demorou e se mudou com a família para o Oeste do estado, perto da divisa com o Mato Grosso. Cresceu no meio rural onde passou por situações extremas (se deparou com um cadáver de jagunço) que influenciaram diretamente seu estilo de HQs. Mais tarde, já bastante íntimo do universo da arte seqüencial procura espaço dentre as editoras da época. Chegou a trabalhar nas editoras, Ebal, La Selva, Continental, Bloch, Vecchi e Grafipar, além de produzir a série em tiras, O Gaúcho, para o jornal Folha de São Paulo.
Mais recentemente, coisa de 10 anos atrás, colaborou com as revistas Metal Pesado, Fêmea Feroz e HQ - Revista do Quadrinho Brasileiro. Atualmente possui vários álbuns lançados tanto pela editora Ópera Graphica quanto pela Devir, a saber: Sombras, Musashi I e II, Claustrofobia, Madame Satã e Volúpia. Hoje é o ilustrador da capa desta edição de Quadrinhópole. Fiquem com o grande, um mestre das HQs brasileiras (e mundiais), Júlio Shimamoto ou como carinhosamente é chamado, Shima.

1 – Para começarmos vamos ao de praxe. Fale-nos um pouco sobre seu início nas HQs.
Nada teve de extraordinário, assim como todos os principiantes. Fiquei logo fascinado pelos gibis que ganhei de meu pai, pelo fato de ter entendido as histórias mesmo sem saber ler os balões. Embora também adorasse folhear livros de papai, sobretudo um pesado dicionário todo ilustrado, era quase totalmente impossível compreendê-los. Meu passatempo favorito passou a ser desenhar cenas sequenciais onde encontrasse superfície limpa: papéis de embrulho, jornais, tábuas, em chão de terra, caixas de papelão. Só quando aprendi o “beabá” é que minhas rabisqueiras passaram a incorporar balões.
Profissionalmente, preserver o ecletismo da infância em relação ao uso de diferentes materiais para desenhar. Serviam-me qualquer papel: preto, branco, colorido, guardanapo ou higiênico (não usados, é claro), verso de papéis xerocados ou envelopes usados. O papel impresso dos dois lados só utilizo para pintar capas, cobrindo de preto o lado que vou usar (só pinto sobre base escura). A capa desta “Quadrinhópole” é um exemplo. Todos os meus quadrinhos são feitos sobre papéis “chamex” já impressos dum lado, refugados para rascunhos. “Claustrofia”, editada pela Devir, eu fiz assim, e ninguém se sentiu constrangido. Além do papel, já usei duratez, couro, vidro e muito azulejo. E ferramentas diversas: prego, espetinho, varetinha de mambú, palito de dente, ferrinho de solda, giz dividido em quatro com serrinha, faquinha, etc. Como vê, nem só de peninha e pincel se faz arte. E pincel prefiro o nacional, marca “Tigre”, os redondos ou chatos, quanto mais desgastados, melhores. Nanquim eu não uso, mas você pode produzí-la em casa usando fuligem de vela adicionando cola polar solvida em água (fórmula chinesa, milenar). Mas uso tinya de parede para tudo, quadrinhos em P&B ou capas coloridas, pela versatilidade e praticidade (acha-se em qualquer loja de tintas ou material de construção).
Reciclar, preservar e poupar são sinônimos no mundo de hoje.

2 – Em vários lugares ao mencionarem o senhor usam a alcunha de “samurai dos quadrinhos”. Fale um pouco sobre esta história de sua família.
Meus ancestrais samurais foram vassalos do xogun Nobunaga Oda, general que deu início à unificação do Japão na segunda metade do séc. XVI, período turbulento que ficou conhecido como “Sengoku Jidai” (guerras totais). Com a morte de Oda e de seu sucessor, Hideyoshi Hashiba Toyotomo, foi empossado o filho deste, Hideyori, ainda adolescente. Ao atingir 18 anos em 1603, é derrubado pelo seu tutor, o general Ieyassu Tokugawa, que assume o poder. Assim os Shimamoto perdem seu espaço político, e passam a se dedicar ao comércio marítimo e à indústria de saquê. Até o finalzinho do séc. XIX, já quase falecidos, reduzidos a apenas uma navio, que escaparia de uma tempestade no Mar da China.
Segundo os registros, embora alijados do cenário político, nossos antepassados seguiram cultivando a tradição de Bushido (código de guerreiro). Aos 5 anos, meu pai ficou órfão, mas recebeu treinamento rigoroso em artes marciais de seu tio-avô, instrutor-chefe no quartel general do exérctio de Wakayama, na segunda década do séc. XX.

3 – No decorrer de seus quase 50 anos de produção de HQs há várias histórias do sr. que levam como tema a vida dos samurais. Esse aspecto é explorado simplesmente por conta de sua descendência ou há uma identificação com os ideais do Bushido? Pratica Kendo?
Pelas duas coisas. Kendô eu pratiquei com meu pai por um período curto. Ele achava mais útil que eu me empenhasse nas aulas de Yawara e Sumô (tipos de luta de ataque e defesa sem armas), para desenvolver a mente e o corpo. Só frequentei academias quando adulto, nas modalidades de Karatê, estilo Shotô, e Aikidô (Yawara moderno).

4 – Como foi fazer quadrinhos no Brasil na época da ditadura militar?
Na maior parte da ditadura militar trabalhei com publicidade, de 64 a 76, quando voltei aos quadrinhos. Em 1970 fui preso. Fiquei deitod, primeiramente no QG do exército da Rua Tutóia (SP) e em seguida fiquei preso nas dependências da DOPS (Departamento de Ordem e Política Social), próximo à Estação Luz. Um fato muito marcante na minha vida que me fez mudar para o Rio de Janeiro, em 1972. Esse episódio nada tinha a ver com os quadrinhos.

5 – Além das HQs de samurais, outro tema bastante recorrente em sua produção foram as histórias de terror. Como o sr. vê esse gênero hoje nas HQs, cinema e literatura?
Faz muitos anos que ando afastado da temática “Terror” e pouco assisto aos filmes do gênero. Mas percebo o retorno do estilo na HQ, cinema e literatura, em abordagens psicológicas ou tecno-científicas. Ainda aparecem vampiros, monstros ou lobisomens, produzidos por saudosistas, mas sem causar maiores sustos. O cinema asiático (japonês, coreano e tailandês) tem produzido com regularidade, atraindo o interesse de Holltwood para alguns remakes, como “O Chamado”, por exemplo (Ringu, em japonês).

6 – Dá para viver no Brasil apenas de HQs?
Poderia perguntar isso para Ziraldo ou Maurício de Souza, e teria respostas positivas. A sério, é impossível viver só de quadrinhos no Brasil. É preciso reforçar com outras atividades, como ilustrador de matérias editoriais de revistas, jornais, manuais de prevenção e treinamento corporativo, storyboard para comerciais, cartilhas sindicais, livros infanto-juvenil ou técnicos e didáticos.

7 – Qual foi a melhor época para o senhor na produção de HQs?
Conheci bons períodos: De 1957-1963, 1976-1982 e de 1998-2004. As melhores foram as duas primeiras.

8 – Como vê o mercado quadrinhístico hoje no país?
Já faz alguns anos que percebo ebulição e vigor nas iniciativas dos jovens que exploram o chamado “nicho independente” ou alternativo. E surpreendem pela qualidade e propostas renovadoras. A acessibilidade à tecnologia digital, hoje a custos permissivos, tem sido sua basilar mola propulsora.

9 – Qual a sua opinião a respeito da “invasão mangá”?
Hoje não me incomodo mais. Você nunca deve nadar contra a correnteza, e deve aceitar os fatos, enterrando preconceitos (intolerância é sinônimo de fraqueza e medo). É preciso perceber que “mangá” é fenômeno mundial. Vendem feito pão quente no Brasil, Argentina, Europa e até nos EUA.

10 – Para o senhor há uma definição do que seja o quadrinho brasileiro?
É meio complicado fazer uma definição precisa do nosso quadrinho, no mesmo nível que se permite fazer na nossa música ou na nossa literatura. O quadrinho e a pintura brasileira sofrem influência cosmopolita e carecem de indentidade própria. Levará bom tempo para se despojar do sotaque e do cacoete herdado da cultura externa.
Mas quero deixar claro que nada disso reverte em diminuição de nossas HQs. Influência, quando boa, só enriquece. Mesmo com sotaque e com cacoete, qualquer quadrinho, feito aqui sob qualquer temática - Super-heróis, cangaceiros, samurais ou cowboys - é brasileiro. Ponto.

11 – O que o senhor anda produzindo atualmente e quais são os próximos projetos?
Nesse momento estou mergulhado na última etapa do livro em quadrinhos sobre 100 anos da imigração japonesa no Brasil, assim como vou atendendo solicitações para contribuir com alguns trabalhos para amigos editores independentes. São ilustrações, capas e até quadrinhos de poucas páginas. Tenho vários projetos não iniciaodos e compromissos já assumidos com autores de livros infanto-juvenis.

12 – Ao pensar em produzir uma HQs qual a meta que o sr. estabelece?
Na verdade, não estabeleço nenhuma meta ou regra, muito pelo contrário. Sou um ttanto indiisciplinado, e costumo agir somente quando me vejo sob forte pressão. Para criar uma HQ, penso num tema, e logo busoc um final, assim como quem bola piada ou anedota.
Embora algumas vezes eu tenha produzido HQs longas, prefiro as curtas. Não por capricho, mas por questão de tática. Aprendi com o saudoso Miguel F. Penteado, meu editor e gurú. Ele dizia que uma revista com histórias sortidas tinha mais chances de dar certo do que aquela com uma só. Questão de pura matemática: é mais fácil acertar o alvo com vários disparos do que com um único tiro.

13 – Agradeço por essa entrevista e por último ( e não menos importante) gostaria que deixasse para nossos leitores algumas palavras finais. Muito obrigado.
Mesmo convicto de que sobreviver com quadrinhos seja quase impossível, vale a pena criar e editar seu gibi. Há coisa pior do que vagar no mundo das sombras como alma penada, por não ter vivido seus sonhos?