
Criação
Apesar do que possa parecer, as idéias acerca de Jason de Ely, o imortal, não vieram da série Highlander. Não, o germe que deu origem a esta série foi fruto de uma história do Motoqueiro Fantasma, publicada em Ghost Rider # 19 e # 20 (Hulk # 145, no Brasil – Editora Abril). Nela, somos apresentados a um suicida que fez um pacto com o demônio para ter coragem para poder se matar. Claro que o demônio trapaceou: roubou a alma do indivíduo e o tornou imortal. A história toda mostra o cara tentando se matar e passando pelas situações mais esdrúxulas para alcançar seu objetivo. Pena que ele nunca mais apareceu, até onde eu sei. Mas ainda assim, esta personagem tinha um ponto fraco: o Motoqueiro Fantasma poderia matá-lo.
E foi daí que surgiu a idéia: não seria interessante que uma personagem não tivesse esses pontos fracos? Que nada pudesse matá-lo? O Super-Homem é quase um imortal, mas está sujeito à kryptonita e a fatores místicos. Se você cortar a cabeça do Sr. McLeod, ele já era. Se o Motoqueiro Fantasma decidisse quebrar o pescoço do nosso Sr. Imortal ali em cima, certamente que ele reencontraria o demônio.
E qual seria a graça de ler as histórias de alguém que não pode morrer? Que você tem certeza que, apesar das dificuldades, ele sempre vai conseguir o que quer? Ora, mas já não é assim com todos os outros? A diferença aqui é que não estamos enganando os leitores com peripécias inacreditáveis para livrar-se da morte no último instante. Isso não é preciso. E podemos explorar ainda mais o sofrimento do nosso querido Jason (que ele não escute o que estou dizendo). Poderíamos explorar infinitos jeitos diferentes de morrer e ele sempre sairia vivo... o resultado com certeza seria divertido!
Mas a grande sacada aqui – e eu só me liguei nisso anos depois de tê-lo criado – é o contexto histórico. Ora, se ele não pode morrer, poderia ter nascido na Idade Média e ter vivido até os nossos dias... e além! Não teríamos problemas com sua longevidade, também... não precisaríamos ficar reinventado a personagem com novos universos ou pretensas crises para alavancar as vendas, ou arranjar substitutos de tempos em tempos. Ele é Jason de Ely, foi e sempre será!
Com isso, poderíamos brincar também nos bastidores de momentos históricos no decorrer desses 1.000 anos de jornada da Humanidade por esse mundo afora. Não havia limites... ele poderia ir e vir pelo mundo através dos tempos... e imagine as aventuras que isso não ia originar!
E nem por não ter pontos fracos, Jason deixa de ser interessante, pois ele ainda tem o seu conflito interno: ele quer, a todo custo, livrar-se de sua maldição. Sem contar as dezenas de mistérios que surgem no decorrer dos anos, e que só depois de muito tempo acabam sendo revelados. A magia, o suspense e a diversão... continuam lá.
Tão imortais quanto o próprio Jason.
E o que me motivou a contar essa história foi o Juiz Dredd. Suas histórias são tão curtas e no entanto, fizeram tanto sucesso e têm muita originalidade. Era o que eu faria, então... as idéias eram muitas e precisaria de livros inteiros para escrevê-las, mas começaria pequeno... com histórias de seis páginas.
Além dessas referências, posso citar também Preacher, de Garth Ennis. Não é difícil encontrar referências sobre ela em Undeadman, mas o que eu tirei de lá não foi a busca por Deus ou os conflitos entre anjos e demônios. Não, eu tirei de lá o conflito que a personagem tem ao longo da série e as centenas de obstáculos que sempre surgem para impedi-lo. Preacher é, sem dúvida, uma aula de roteiro. Está tudo lá: a técnica, a diversão e até os dilemas morais. Um prato cheio para qualquer pretenso escriba, como eu. Sem falar, é claro, na violência gratuita, que certamente é a parte mais divertida disso tudo.
Espero que vocês gostem de acompanhar a história do Jason e que se divirtam com suas aventuras e referências. A saga ainda está na Idade Média, mas estamos apenas esquentando os motores...